Uma semana antes do Dia da Mulher, mal consegui sair do tribunal. As lágrimas cegavam-me. Só uma frase ecoava na minha mente: “já não são marido e mulher”.

Cu uma semana antes do Dia da Mulher, quase fui aos trambolhões para fora do tribunal, mais cega de lágrimas do que a Dona Amália sem os óculos. Uma frase fazia eco de fado na minha cabeça: Deixam de ser marido e mulher. Mas porquê? Que pecado tão grave cometi para levar com este castigo à moda antiga?

Casei-me quando tinha só 18 anos, mal sabia que me esperava toda uma novela à portuguesa. Foi paixão à primeira sardinha assada, noites em claro a falar pelos cotovelos e aquele sentimento de leveza que nem pastel de nata ao pequeno-almoço dá. Vivemos cinco anos, que para mim foram um romance digno de Fernando Pessoa amor a rodos e dedicação sem limites. Servia-lhe o pequeno-almoço na cama sempre com um sorriso, cozinhava só o que ele gostava (só prato típico!), e a casa brilhava mais do que azulejos novos.

Infelizmente, os meus sogros nunca me aceitaram. A senhora mãe dele, rainha das críticas, dizia com aquele ar de superioridade lisboeta que eu não era mulher para o seu filho, que haveria de encontrar-lhe alguém “à altura”. Claro que isso mexeu com ele. Aos poucos, foi mudando de atitude, tornou-se gelado, mais crítico do que chefe de cozinha em restaurante turístico.

O nosso filho tinha cinco anos nessa altura. Ao início, o meu marido era um pai babado, mostrava o pequeno a todos como se fosse uma medalha do Benfica. Mas, devagar, virou costas penso que por culpa dos sogros, sempre com ideias mirabolantes, chegaram ao ponto de dizer que o miúdo não era dele (e era a cara chapada do pai!). O meu ex começou a visitar os pais cada vez mais, praticamente mudou-se para lá. E quando vinha a casa, era tudo reclamações e berros, parecia um árbitro de futebol mal humorado.

Mesmo assim, tentei ser um modelo de virtude à portuguesa: sempre arranjada, casa impecável, comidinha na mesa. Mas um dia, perdeu de tal forma a cabeça que me deu uma chapada de fúria. Nem quis acreditar, parecia cena de novela da tarde. O pior é que, mesmo assim, acreditei que tudo se resolvia. Puro engano pouco depois, anunciou que estava farto e foi-se embora para nunca mais. Abandonou-me a mim e ao nosso filho, sem remorsos. Implorei-lhe, tentei pedir-lhe que pensasse bem, mas o coração dele tinha virado pedra do Guincho.

Eu ainda o amava, não conseguia imaginar vida sem ele, mesmo depois do divórcio. Da parte dele, paga uma pensão de alimentos tão pequena que mal dá para comprar uns pastéis de bacalhau, e para cada cêntimo gasto, quer foto da fatura. Se compro pão, tem de ver o talão do Pingo Doce. Tornei-me quase pedinte, a pedir trocos ao ex marido, que parece não saber que filhos também comem.

As visitas ao nosso filho são raras, e quando o leva, é como se só o aguentasse de favor. O miúdo sente a frieza e já nem quer vê-lo. O ex acha que faço lavagem cerebral na criança, mas eu só estou aqui a tentar sobreviver cada dia. Ainda choro todas as noites, ando magra como modelo de revista e deprimida como quem perdeu o jogo na última jornada. Não devia, mas acabo por descarregar no meu filho, aos gritos, mesmo sabendo que não é justo.

Como continuo a respirar com o coração remendado? Sigo religiosamente as redes sociais dele, quase mais do que sigo o Ronaldo. Foi assim que descobri que já vai casar outra vez, e isso só me mandou ainda mais abaixo. Percebi porque mal aparece cá e porque o pequeno já nem pergunta por ele.

A minha cabeça até percebe que acabou, mas o coração português não quer aceitar. Como se faz para seguir em frente quando tudo à volta parece novela e só resta a saudade?

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Uma semana antes do Dia da Mulher, mal consegui sair do tribunal. As lágrimas cegavam-me. Só uma frase ecoava na minha mente: “já não são marido e mulher”.
„Ako dlho ešte plánuješ rodiť?“ – spýtala sa ma moja svokra s poriadnou dávkou sarkazmu.