A minha tia recusou-se a emprestar-me dinheiro para o meu negócio, mas consegui alcançar o que desejava.

Quando eu era apenas mais um trabalhador comum em Lisboa, batalhando como tanta gente por aí recebendo um ordenado miserável, todas as minhas tias e primos pareciam adorar-me, convidavam-me para cada jantar de família, ajudavam-me sempre que eu tinha algum aperto.

Um dia, farto dessa rotina sem futuro, decidi levantar-me e lutar pelos meus próprios sonhos: quis criar um negócio meu, do zero. Mas não tinha dinheiro para começar. Os meus pais tinham morrido quando eu tinha 19 anos, num acidente de viação na estrada para Sintra.

A minha tia, a Dona Rosa, tinha-se casado com um homem abastado. Acreditei que podia contar com ela, ao menos um pouco. Enganei-me.

A tia Rosa dizia sempre que ter um negócio era arriscado demais, não estava disposta a investir os seus euros. Não a culpo se eu estivesse no lugar dela, talvez fizesse igual. Foi a escolha que ela fez, aceitei, não fiquei ofendida. Ir ao banco também estava fora de questão as taxas são um roubo, não tinha como pagar. Por isso, tive de apertar o cinto, até com comida, arranjar outro emprego e poupar tostão a tostão para levantar a minha empresa.

Com o tempo, tudo na minha cabeça ficou mais claro. Sabia perfeitamente que tipo de negócio queria, o que precisava para começar, de quanto dinheiro precisava, cada detalhe. Estava decidida a não recuar por nada deste mundo. Desde pequena que tinha este sonho; agora, finalmente, a vida estava-me a dar uma chance real de o cumprir. Só havia uma coisa que custava: as bocas da minha tia. Sempre que eu aparecia numa reunião de família, ela fazia questão de gozar, a rir-se alto:

Olha quem chegou, a grande empresária! Que honra, a nossa gestora sentar-se à mesa com o povo!

Quando, por fim, consegui abrir a minha agência no coração de Lisboa, os laços familiares esfumaram-se no ar especialmente a tia Rosa. Mas eu não quis saber. Nunca estive tão motivada. Passado um ano e meio, tinha já aberto mais duas filiais na cidade.

Um dia, recebi uma chamada da minha tia: o filho, o meu primo Jorge, ia entrar para a faculdade. Precisavam de ajuda financeira e ainda de um sítio onde ele ficasse alojado. Nessa altura, a tia Rosa já estava divorciada, completamente perdida à procura de trabalho, não conseguia nem pagar as contas da casa, quanto mais pensar em ajudar o filho.

Respondi que não podia ajudar. Eu própria estava a investir tudo para abrir filiais noutras cidades, precisava de todo o dinheiro que conseguia juntar. O filho dela não era a minha prioridade. E foi assim, sem rodeios, que a tia Rosa distanciou-se de mim de vez, como se não se lembrasse que antes disso mal me dirigia a palavra

Hoje, as minhas filiais prosperam dia após dia. Os negócios vão de vento em popa. O filho da minha tia ainda vive às custas dela nenhuma das outras tias o quer acolher ou ajudar. No fim, a Dona Rosa afastou todos de si.

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A minha tia recusou-se a emprestar-me dinheiro para o meu negócio, mas consegui alcançar o que desejava.
– Não se pode viver assim! Não é justo! – Roberto correu para o quarto do pai.