O ÚLTIMO AMOR
Iracema, não tenho dinheiro nenhum! Ontem dei os últimos euros à Joaninha! Bem sabes, ela tem dois filhos!
Margarida Fonseca pousou o telefone com o coração pesado e desconsolado. Não queria recordar o que a filha lhe acabara de dizer.
Como é possível? Criei três filhos com o António, esforçámo-nos tanto para lhes dar tudo, ajudámos sempre. Todos formados, todos com boas posições. Mas, agora, na velhice, não tenho nem sossego, nem apoio.
António, querido, foste-te tão cedo Contigo tudo parecia mais fácil! pensou Margarida, relembrando o marido já falecido.
Sentiu um aperto no peito e, por instinto, estendeu a mão ao pequeno frasco de comprimidos: só restavam um ou dois. Se piorasse, não teria como ajudar-se. Era preciso ir à farmácia.
Margarida tentou levantar-se, mas as pernas fraquejaram e sentou-se logo na poltrona: a cabeça rodopiava.
Não faz mal, daqui a pouco o remédio faz efeito e passa.
O tempo corria e nada melhorava.
Margarida ligou à filha mais nova:
Joaninha… só conseguiu dizer.
Mãe, estou numa reunião, depois ligo-te!
Margarida tentou então o filho:
Henrique, não estou bem. E os comprimidos acabaram. Não podias passar cá depois do trabalho mas nem conseguiu terminar.
Oh mãe, eu não sou médico e tu também não! Liga para o INEM, não fiques à espera!
Margarida ficou a olhar o vazio. Ele tem razão! Se em meia hora isto não passar, vou ter mesmo de ligar para o 112.
Reclinou-se na cadeira, fechou um pouco os olhos e tentou relaxar contando até cem.
Então, um som distante a despertou. O telemóvel!
Estou? respondeu com dificuldade, a voz sumida.
Margarida, olá! É o Pedro! Fiquei com um pressentimento estranho, deu-me vontade de te ligar!
Pedro, não me sinto nada bem
Vou já aí! Consegues abrir a porta?
Ultimamente, Pedro, tenho deixado sempre aberta
O telefone caiu-lhe das mãos. Já não tinha forças para o apanhar.
Que fique, pensou não faz mal.
Imagens do passado cruzaram-se-lhe na mente, como cenas de um filme: ela ainda estudante de Economia, novinha, cheia de sonhos. Dois cadetes, bem apessoados, de balões na mão, fizeram-na sorrir.
Que engraçado, homens tão crescidos e com balões! pensou Margarida.
Era o dez de junho! Dia de Portugal! A festa, o povo na rua! Corria ela com os dois balões, entre Pedro e António.
Escolhera o António. Era mais destemido, mais decidido; Pedro era mais introvertido, sempre envergonhado.
Depois, a vida separara-os: ela e António foram viver para os arredores de Lisboa, Pedro foi destacado para a Alemanha, só se reencontraram muitos anos depois, já em Santarém, quando ambos estavam reformados. Pedro nunca casou, nem teve filhos.
Perguntavam-lhe o porquê disso
Ele encolhia os ombros e atirava a brincar:
Não tive sorte no amor, talvez devesse apostar no totoloto!
Voou o tempo. Margarida escutava vozes: parecia ouvir o Pedro falar com alguém. Esforçou-se por abrir os olhos:
Pedro!
Ao lado, estava um médico da ambulância.
Não se preocupe, já vai sentir-se melhor. É seu marido?
Sim, sim! atalhou Pedro.
O médico deu umas indicações ao Pedro.
Pedro não saiu do lado dela, segurou-lhe a mão até ela se sentir aliviada.
Obrigada, Pedro! Sinto-me bem melhor!
Que bom! Toma aqui um chá com limão!
Pedro ficou para lhe preparar o jantar, cuidar dela; mesmo estando já mais forte, ele insistiu em não a deixar sozinha.
Sabes, Margarida, sempre te amei, desde os tempos da faculdade. Talvez por isso nunca casei.
Ai Pedro, eu vivi feliz com o António, ele foi um companheiro maravilhoso. Sempre me amou, sempre o respeitei. Nunca disseste nada, eu nunca soube mas agora já não faz sentido falar do passado, não podemos recuperar o tempo.
Margarida, e se o tempo que nos resta vivêssemos juntos, felizes? O que Deus nos der, seja muito ou pouco, que seja bom!
Margarida encostou a cabeça ao ombro dele, pegou-lhe na mão:
Que seja, Pedro! e riu-se com uma alegria que há muito não sentia.
Uma semana depois, finalmente, ligou-lhe a filha Joaninha.
Ó mãe, ligaste-me, foi? Nem consegui atender e depois esqueci-me Está tudo bem?
Está tudo ótimo. Olha, já que ligaste, não quero surpresas: vou casar!
Silêncio do outro lado. Joaninha parecia engolir o ar, hesitante antes de responder.
Mãe, tu ouviste-te bem? Na tua idade ires casar? E quem é o felizardo?
Margarida, marejada de lágrimas, tomou fôlego e respondeu firme:
Isso é comigo!
E desligou.
Virou-se para o Pedro:
Preparados? Hoje vêm cá os três! Vamos ter de aguentar firme!
Desenrascamo-nos! Não é agora que vamos desistir sorriu Pedro.
Ao fim do dia, chegaram mesmo os três: o Henrique, a Iracema e a Joaninha!
Então, mãe, apresenta-nos lá o casanova! troçou Henrique.
Mas para quê apresentações, conhecem-me de sempre. Pedro saiu da sala. Sempre amei a vossa mãe. E quando a vi tão mal na semana passada, percebi que não podia perdê-la. Pedi-a em casamento e ela aceitou.
Ouça lá, o senhor enlouqueceu? Amor com setenta anos?! gritou Iracema.
E que problema têm setenta anos? Ainda temos muito para viver! E a vossa mãe continua linda como sempre! respondeu Pedro cordialmente.
Presumo que venha é pela casa… acusou Joaninha, no tom certeiro de advogada.
Oh filha, por amor de Deus! Todos têm casa própria!
Mas nesta casa está a nossa parte! insistiu Joaninha.
Não quero nada vosso! Tenho onde viver sozinho! Mas a maltratar a vossa mãe, parem já! Não admito! atalhou Pedro, firme.
Você não tem nada que falar aqui! avançou Henrique, exaltado.
Pedro nem se moveu. Endireitou-se, fitou-o nos olhos:
Eu sou marido da vossa mãe, gostem ou não!
E nós somos os filhos! explodiu Iracema.
E se insistirem, amanhã mesmo lhe trato do lar de idosos ou do hospital! concordou Joaninha.
Nada disso! Vamos embora, Margarida!
Saíram juntos, de mãos dadas, sem olhar para trás. Pouco lhes importava o que diziam ou pensavam deles. Estavam livres e felizes! E o velho candeeiro da rua iluminava-lhes o caminho.
E os filhos ficaram a olhar, sem compreender. Afinal, como pode haver amor aos setenta anos?
Com o tempo, aprenderam que nunca é tarde para ser feliz e que o amor não tem idade para recomeçar. O importante é não desistir de viver, seja qual for o momento da vida.







