Senhor Paulo Manuel? a voz do outro lado da linha era fria e formal.
Sim, sou eu. Com quem falo?
É da direção da Casa da Criança. Daqui a uma semana a sua filha completa três anos e teremos de transferi-la para outro lar. Tem a certeza que não vai buscá-la?
Espere lá, filha? Que filha? Eu tenho é um filho, o Vasco! gaguejei, em choque.
Nádia Paulina Semedo. Não é a sua filha?
N-não, a minha não é. Eu sou Paulo Manuel Vasconcelos!
Peço desculpa disse a voz, já cansada. Deve ter havido uma troca qualquer.
O toque de desligar soou como um sino fúnebre nos meus ouvidos.
Isto é que vai aqui uma confusão! Uma filha, uma bebé, percebes?! Que grande confusão naquele arquivo barafustava eu por dentro.
Mas o telefonema ficou-me atravessado como uma espinha. Porquê, não sei, mas comecei a pensar em como seria crescer sem casa, mãe ou pai, nem avós dedicados. O Vasco, esse, tem família para dar e vender, até tios e tias dos dois lados.
A Mariana percebeu logo que eu não estava nos meus dias. Ela, que me conhece desde a primária, quase uma década a aturar-me em casa, não deixa passar nada.
Ao jantar, ainda eu mastigava, disparou:
Afinal, como se chama ela?
Quem? soltei, já a desconfiar da minha própria sombra (será que também lhe telefonaram?).
A Nádia… Nadinha.
Olha que bonito… Então eu sou a tua Mariana, e ela é a Nadinha?! já dava para ouvir os raios e coriscos na voz.
Sim… Nádia Paulina Semedo.
Porque não dizes logo o número do cartão de cidadão dela também? disparou ela.
Para quê? Ela nem deve ter ainda…
É refugiada, é? já num tom menos berrante.
Quem? A Nadinha? Não percebo nada disto!
Essa tua Nadinha, não quer ela meter-se cá em casa? Diz lá, seu aldrabão!
Mas quê? Eu ali, boquiaberto, nem comi mais.
E a Mariana desatou num choro diferente, daqueles furiosos, com lágrimas redondas a caírem no avental.
Amanhã vou para casa da minha mãe. E prepara-te, não te deixo o Vasco! balbuciou entre soluços.
Ó Mariana, mas que disparate é esse? O que se passa contigo?
Achas que vou ficar aqui a servir-te chá às escondidas com a tua amantezinha Nadinha!? explodiu.
Lá comecei, com jeitinho, a contar a história do telefonema da manhã, desde a primeira sílaba gélida até ao equívoco do nome.
Agora, a Mariana chorava de pena pela menina. As mulheres têm sempre lágrimas que nunca se acabam, parece magia e eu tenho pavor, especialmente das da Mariana.
Nem apetite me ficou; petisquei só qualquer coisa e fui-me deitar.
Acordei com a Mariana a vasculhar o meu telemóvel coisa inédita em quase dez anos de casamento. Fiquei lixado com aquele grãozito de desconfiança. E ela a sussurrar baixinho:
Paulo… Paulo…
Finjo que acordo naquele instante.
Este número fixo… foi este que te ligou, certo?
Sim, foi esse…
Dorme, dorme. E sai do quarto… levando-me o telefone!
Fácil é dizer “dorme”. Só ouvi o som do computador. Esperei e lá fui espreitar à sala, pé ante pé.
Mariana estava tão concentrada a clicar, nem deu por mim. O browser tinha escrito “Casa da Criança” e o nome da nossa cidade. O computador guinchou e apareceu logo o site, endereço, telefone e até fotos.
Ela comparou ao telefone:
Paulo, bate certo!
O quê?
O número! É mesmo da Casa da Criança.
Eu disse! Mas estás a verificar?
Não estou a verificar… estou a esclarecer.
Para quê?
Paulo, a casa é ali ao lado! disse, distraída, como se não me ouvisse. Vamos até lá? Como é que têm o teu número se não tens nada a ver com o assunto, hein?
Encolhi os ombros. Afinal, que raio de coincidência era esta? Devíamos mesmo ir lá?
Passei a noite num desassossego. Mal encostava a cabeça, zás!, a Mariana cutucava-me:
Paulo… Tens a certeza que nunca… bem, nem um deslizezito? Imagino… reencontraste aquela paixão da escola, reviveram algo… e ela, pum!, deixou-te uma menina num lar! Pensei, Paulo? Hein? Hum?
Que paixões, Mariana? Desde que me sentei a teu lado na primária nunca mais mudei de lugar. E há três anos, quem ficou a cuidar do Vasco, quase a ficar careca com tanto antibiótico e visita ao médico? Eu! Nem tempo tinha para respirar, quanto mais para aventuras!
Então como têm o teu número?
Boa pergunta… Não me sai da cabeça.
Revirei todas as hipóteses e nenhuma colava. Uma vaga suspeita de pequenas ditas “amigas” da adolescência, mas nada pegava. Todas já estavam encaminhadas ou noutra vida há séculos… Bom, a verdade é que, por via das dúvidas, amanhã lá iria eu à Casa da Criança.
Chegámos cedo e mesmo assim já tínhamos um vizinho de espera: um homenzinho loiro e miudito, com roupas limpas mas ar desalinhado. Óbvio que não era só da noite anterior…
Está na fila a seguir a mim atirou ele, com uma voz grossa inesperada.
Chamada ecoou da porta: “Entre”. Dez minutos ouviu-se discussão lá dentro.
Por fim, o homem saiu despenteado e sem papéis e foi a nossa vez de entrar.
Bom dia uma morena simpática, de óculos pendurados na mão, olhou para nós. Em que vos posso ajudar?
É sobre ontem… tentei brincar.
Agradecia que fossem ao ponto, por favor.
Resumidamente expliquei o telefonema. Ela reconheceu logo o erro.
Ah, foi um engano, de facto ligámos para o número errado. Eu queria marcar 927 e marquei 937. Que por acaso, também é Paulo Manuel! Só por sorte. Coincidências… O senhor que estava antes de vocês é que era o pai da menina!
A sério? perguntei, já meio zonzo, mas a Mariana antecipou-se:
E ele, vai buscar a pequenita?
A diretora, que o crachá dizia chamar-se Teresa Simões Matias, sossegou-se à cadeira:
Não. Nem pensar. A mãe infelizmente faleceu. O pai tem sete filhos de diferentes mães, só cá veio por obrigação. A Nádia não lhe interessa. Pronto, respondi? Tenho muito que fazer.
Saímos dali atordoados.
Cá fora, no recreio, os meninos mais crescidos brincavam em silêncio: uns nos baloiços, outros no escorrega, dois rapazes nas corridas de carrinhos. Estranho silêncio. O Vasco, quando vai ao parque, é sempre aos gritos. Aqueles meninos pareciam velhos pequenos, como se nunca tivessem tido infância, só sobrevivência. Tristeza, frio, falta de brinquedos, e pior que tudo, indiferença ou até crueldade dos adultos.
A Mariana, com olhos de mar, via tudo com as lágrimas quase a cair (lágrimas, sempre à mão!). Fomos andando devagar para o portão, quando de repente ouvimos um grito: “Mamã!!” Todos os olhos se viraram para nós. Uma menina de gorro com pompom veio a correr para a Mariana: “Mamã, mamã! Eu aqui!”
Apetrechou-se às pernas da Mariana e chorou um choro de cortar a alma. Só não chorei porque se me apertou tanto o peito que nem deu.
Nádia, Nádia! veio a educadora, com mão estendida e uma tablete de chocolate salvadora. Conseguiu descolar a menina da perna da Mariana, e nós saímos dali a correr.
Entrámos no carro, em silêncio. Eu a tremer, a Mariana a modos que também. Estacionei junto ao passeio. Ela olhou para uma loja ao lado, com enorme letreiro: “Mundo da Criança”, e apontou-me com os olhos.
Sem palavra combinada, saímos juntos, de mãos dadas, rumo à loja.
Íamos buscar uma boneca e um vestido cor-de-rosa.
Porque a nossa filha Nádia vai ser a mais bem vestida de todo o bairro.






