O Direito de Ser Quem Somos

Direito a Si Própria

A manhã começou como sempre, mergulhada naquele silêncio de quem já se habituounão o silêncio gostoso antes do café com pão quente, pássaros a chilrear e o cheiro de roupa lavada no estendal, mas aquele outro, que se agarra ao ar como o sofá velho da sala que já nem sentimos os solavancos de tanto tempo que ali ficou.

Maria Leonor Silveira estava a mexer o seu mingau de aveia em frente ao fogão, enquanto do outro lado da parede o marido falava ao telemóvel cheio de animação. A voz dele era até entusiasmada, quase jovial. Daquelas tonalidades que ela já não ouvia quando era com ela.

Ela tinha cinquenta e três anos. Vinte e oito deles casada. Dois filhos já a viver por sua conta, e a filha mais nova, Matilde, a acabar o curso em Lisboa. Destes vinte e oito, calculava que pelo menos vinte e cinco tinham passado à sombra do marido. Sem perceber, dissolvera-se na vida delecomo açúcar que se perde na chávena de chá e já não se distingue, se é líquido doce ou água adoçada.

Carlos Alberto Silveira entrou na cozinha sem olhar para ela, agarrou o telemóvel mesmo junto à chávena de café que ela ali pousara. Passou os olhos pelo ecrã.

A aveia está pronta, anunciou Maria Leonor.

Pois, murmurou ele, absorto no telemóvel.

Ela pôs o prato à frente dele. Ele franzia o nariz.

Outra vez cheia de água. Já disse que queria mais espessa.

Na semana passada disseste que estava demasiado espessa…

Silêncio. Ele continuou a deslizar no telemóvel e afastou o prato.

Vou chegar tarde hoje. Temos jantar de empresa com o Costa.

Maria deixou cair a colher na panela.

Jantar de empresa? Marcado há muito?

Já… o Costa mandou mensagem há uns dias. É o aniversário da empresa. Não me esperes.

Olhou para a careca dele, antes coberta por cabelo, para o blazer caro que ainda na semana passada levara à lavandaria. Costa O tal Luís Costa, sócio de negócio há mais de oito anos. Lembrou-se da mulher dele, a Margarida, sempre simpática e cansada. Seria que a Margarida ia também ao jantar?

Eu podia ir contigo, arriscou ela, sem grande esperança.

Carlos levantou os olhos e aquele olhar foi o mesmo com que se olha para perguntas inconvenientes que se preferia nunca ouvir.

Leonor, aquilo vai ser só gente do trabalho. Conversas de negócios, parcerias Não te vais divertir.

Tudo o que tem a ver com o teu trabalho interessa-me, retorquiu ela. Ou já não te lembras?

Ele já se levantava, já carregava no botão verde do telemóvel.

Depois falamos.

Depois. Aquela palavra que já era um muro entre os dois.

Maria Leonor ficou um bocado à mesa, prisão de cadeira vazia e taça por mexer. Olhou para a papas dele, ainda intocada, e depois deitou-a fora, ficou de olhos na papa escoada pelo lava-loiça, como quem assiste à passagem da juventude pela canalização.

Ela era designer. Antigamente. Noutra encarnação, quando tinha vinte e cinco anos, acabada de sair da Faculdade de Belas-Artes com louvores. Os professores diziam maravilhasque ela via o espaço como poucos, compreendia como acomodar felicidade em metros quadrados, sabia como uma divisão acolhia a luz, não só para ser bonita, mas para ser certa. Ria-se. Não percebia grande coisa dessas teoriasapenas desenhava, apenas sentia.

Apareceu-lhe Carlos no terceiro ano. Ele em Gestão, dois anos mais velho, cheio de confiança, daqueles homens que parecem saber sempre para onde caminhar. Ela apaixonou-se rápido e a fundo, daquele jeito que só se permite a quem ainda não aprendeu a ter medo. Casaram um ano depois da formatura. O primeiro filho, André, nasceu passado um ano, e a Leonor acabava de começar num atelier de arquitetura modesto. Na altura achava que era só uma pausa, que ia voltar, que a licença de maternidade não era eternidade.

Só que depois o Carlos teve a ideia de abrir a empresa dele: construção civil, pequena mas promissora. Precisava de capital, contactos, ideias. Ideias foi precisamente Maria Leonor que levou para casa. Sentada ao colo do André, desenhava plantas, imaginava espaços, pensava não apenas no rápido e barato, mas em sítios onde apetece viver. Carlos ouvia, assentia, tomava notas.

Depois nasceu o Rui. Depois, com o Rui ainda a gatinhar, veio a Matildetardia, inesperada e terna.

Nessa altura, a empresa do Carlos já dava cartas. Começou com renovações, depois projetos próprios, mais tarde construiu um condomínio ou dois. No portefólio, estava lá a filosofia dos espaços vivos, como chamavam em casa. Plantas com cozinha a abrir para sala, janelas grandes em todas as casas, escadarias luminosas e com bancos em vez de corredores fúnebres. Tudo invenções da Maria Leonor, rabiscadas nas madrugadas, enquanto ele dormia ferrado e as crianças não sonhavam com responsabilidades.

Ele apresentava essas ideias como a nossa abordagem, como sempre imaginei, nunca nomeava dona ou criadora. Na altura não se melindrava. Era tudo da família, tudo deles, tanto fazia o nome no papel.

Enganava-se.

Com o tempo, parou de desenhar. Primeiro foi falta de tempo. Depois, vontade. Depois, Carlos disse-lhe, na tranquilidade de quem acha um favor: Não precisas de voltar a trabalhar, o meu ordenado chega para todos, trata mas é da nossa casa. Não discordou. Fez-lhe as vontades. Tratou da contabilidade nos primeiros anos do negócio dele. Recebia clientes em casa, lia contratos quando ele não os queria ler, cozinhava jantares para as reuniões. Era tudo o que mantinha a firma de pé, mas nada que aparecesse no relatório das contas.

Depois os filhos cresceram. E Leonor ficou sozinhacom ele, mas só.

Nesse dia, depois de Carlos ir ao jantar de empresa, ficou a beber chá à janela. Viu a dona Etelvina a passear o seu caniche ruivo no jardim. Pensava em nada, ou em tudo. Pegou no telemóvel e ligou à amiga da vida toda, Teresa.

Estás livre hoje à noite?

Para ti, sempre. Aconteceu alguma coisa?

Não, só me apetecia ver-te.

Ela conhecia Maria Leonor. Passou por lá em menos de duas horas, trazia bolo de maçã do supermercado e olhos atentos.

Sentaram-se na cozinha e Leonor desbobinava. Não sobre traiçãona altura ainda nem sabia de nada. Sobre o silêncio, os olhares, aquele dia em que ele a chamou pelo nome. Sobre ser invisível em própria casa.

Leonor, já pensaste que pode ser…

Já, cortou ela. Já achei que era só paranoia minha.

E agora?

Silêncio.

Agora, não sei.

Teresa foi-se tarde. Carlos também não regressava. Leonor deitou-se, pôs o telemóvel a carregar e ficou a olhar o teto. Era quase uma da manhã quando ouviu a chave a rodar na fechadura.

Ele foi direto à casa de banho, nem passou no quarto. A água corria eternamente. Depois deitou-se virado para a parede, inalando um perfume estranho. Suave, quase imperceptível, mas ela sentiu.

Não disse nada. Fingiu que dormiamas por dentro, gelo a estalar.

No dia seguinte ligou ao André, que vivia no Porto com a mulher e o netinho Simão, o primeiro neto. Conversa rápida, André apressado, diz que liga depois. Escreveu à Matilde, que respondeu com mensagem de voz alegre, cheia de histórias das festas da faculdade. Só o Rui ligou mesmo ao final do dia:

Mãe, estás bem?

Estou, filho. Só cansada, nada demais.

O pai está em casa?

Não, diz que está em reuniões.

Silêncio.

Olha, se quiseres, sempre podes vir cá a casa, serás sempre bem-vinda. Mesmo amanhã.

Riu porque era chorar.

Está tudo bem, querido. Obrigada.

Ficou sentada no seu cadeirão junto à varanda. O Rui sempre tinha esse jeito de ler nas entrelinhas, mesmo sem se dizer nada. Talvez, pensou, ele já tivesse percebido tudo há tempos.

Passaram-se duas semanas assim, banais como céu nublado. Carlos chegava tarde, ou cedo, mas sempre com ar de quem faz favores. Na mesa de jantar, papo de trabalhosuperficial, como quem faz relatório numa reunião de condomínio. Por vezes via-o sorrir ao telemóvel, um sorriso tenro, daqueles que já não lhe pertenciam.

Não procurou provas. Um dia, pediu-lhe para imprimir uns extratos e ele largou o portátil aberto. Leonor imprimiu e, ao mexer no rato, apareceu uma conversa. Uma linha bastou.

Sabes que ela não vem. Não é do teu mundo.

Ela. Maria Leonor. A resposta de alguém, e Carlos a concordar.

As mãos não tremiamfoi isso que a surpreendeu depois. Surpreendentemente calmas. Fechou o portátil, pôs os papéis na mesa da sala e foi à cozinha fazer chá.

Foi nesse instante, com o fervedor a apitar, que se deu conta das lágrimas. Mas não eram de dor pela traição. Sim, também doía. Doía mais ainda perceber aquela frase: ele tinha vergonha dela. Deixava outros falarem dela com desdémnão do teu mundoe sorria concordando. Vinte e oito anos juntos, três filhos, juventude, ideias, trabalho, e ela não do mundo dele.

Nessa noite não dormiu. Pensou tudo devagar, como examinava projetos. Sem gritaria interna, nem dózinha. Olhou tudo de frente.

Ao amanhecer já sabia o que fazer.

Primeiro ligou à Teresa:

Preciso da tua ajuda. A sério.

Diz, respondeu Teresa, pronta.

Preciso de estar irrepreensível. Conheces alguma cabeleireira ou estilista de jeito?

O que estás tu a tramar?

Vou ao jantar da empresa do Carlos.

Silêncio. Depois:

Ele convidou-te?

Não. Mas sei que é aberto, parceiros, clientes. Toda a gente conhece a mulher do fundador. Tenho esse direito. Vou.

Pronto diz em que posso ajudar.

No dia seguinte, Teresa chegou com a amiga Susana, uma estilista na casa dos trinta, olhar crítico mas simpático.

Tem uns ossos do rosto lindos, só precisa de se mimar mais.

Não soou a ofensaera só verdade.

Passaram o dia todo ali. Susana tingiu-lhe o cabelo num castanho quente com nuances douradas, como quando era jovem. Penteado novo, maquilhagem sóbria, olhos postos em destaque. Leonor tinha mesmo uns olhos fantásticos, olhos verde-cinza expressivos. Só estava era esquecida deles.

Achou no roupeiro um vestido guardado há três anos, comprado num impulso num centro comercialainda com a Teresa, claro. Azul-escuro elegante, com brilho discreto, clássico sem parecer de casamento de quarentão. Ficara no cabide depois de o Carlos comentar: Não tens onde ir com isso, parece de velório. Nunca mais o vestira.

Quando apareceu na sala, Teresa engoliu a frase a meio.

Mari, estás mesmo bonita. Verdade!

Olhou-se ao espelho do corredor. Não era miúda nenhuma, cinquenta e três anos e tudo à mostra. Mas estava ali, viva e presente. Aquela que julgava que tinha ficado pelo caminho.

Sei, respondeu. Não era presunção. Era reencontro.

Por acaso ouvira Carlos atirar o convite do jantar para cima da mesa do hall. O evento era no restaurante Panorâmico, lá perto do Saldanha, último andar com janelas a mostrar meia Lisboa. Já lá estivera antes, num aniversário meio pomposo.

Chegou de Uber à porta pelas oito e meia. Só aí sentiu medo. Não do embaraço, antes da certeza de não voltar atrás.

Espreguiçou os ombros e entrou.

Na receção, uma miúda de tablet.

Boa noite, está na lista?

Sou Maria Leonor Silveira, mulher do Carlos Silveira, fundador da empresa.

A funcionária procurou.

Não vejo aqui

Ele esqueceu-se, foi tudo à pressa. Pode ligar-lhe, ou subo só.

Virou-se para a colega; hesitaram, passaram-na. Muito educadas.

A sala estava composta, sessenta pessoas? Flores, música ambiente, conversas e risadas. Leonor percorreu o espaço, reconheceu logo o Carlos, copo de vinho, a falar com um tipo de blazer cinzento. Uma loira, trintona atrevida num vestido encarnado, inclinada a segredar-lhe. Ele ria-se com ela.

Não foi ter com ele. Pegou numa água e foi cumprimentar os que conhecianão eram poucos. Estava lá a Margarida Costa, que lhe abriu os braços com verdadeira alegria.

Ai Leonor! Olha só para ti!

Margarida, estás igual desde o batizado do teu neto, respondeu, rindo e abraçando-a.

Estava também o Pedro Reis, cliente antigo, e o jovem arquiteto Daniel, contratado há pouco pelo Carlos, que fitava Leonor com aquela curiosidade tímida de quem descobre um segredo da equipa.

Carlos só deu por ela vinte minutos depois. Um segundo congelado, depois recomposição facial.

Leonor, vieste? tom controlado, tenso. Porquê…

Vim ao jantar da firma, respondeu ela. Não sabia que era proibido.

Não é, só que

Só que, Carlos?

Ele olhou em redor. A loira sorria agora de lado, espionando a cena.

Depois falamos, murmurou.

Depois seja.

Voltou-se para a Margarida.

A cena fulcral deu-se já perto das dez. Leonor já tinha revisto meio mundo, ficado a saber que o Pedro andava a precisar de arquiteto para um projeto novinho em folha, que o Daniel formara-se também em Lisboa, só vinte anos depois dela. Discutiram layouts, e ele ouvia atento, respeito evidente.

Veio o Costa fazer discurso.

A nossa filosofia, em que esta casa se baseia, começou com aquele primeiro condomínio EsPaço Vivo, lembram-se? Daí veio tudo.

Carlos ao lado, acenando como papagaio.

De repente, Leonor sentiu a serenidade de quem está em casa.

Ergueu o copo.

Luís, permite-me acrescentar uma coisa ao teu brinde?

A sala calou-se.

Sou Maria Leonor Silveira, muitos conhecem-me. Fico contente que a filosofia do Espaço Vivo vos traga orgulho. Porque fui eu quem a elaborou. Em casa, enquanto os meus filhos dormiam, desenhei cada planta, planeei as soluções de luz, desenhei escadas e pátios. Nos primeiros anos da empresa, quando ainda fazíamos contas ao tostão, fui eu quem idealizou o que era o único diferenciador da firma. Fiz isto enquanto tomava conta de três crianças, cozinhava jantares de sócios e fazia de contabilista por falta de melhor.

Um silêncio daqueles de missa campal. Carlos lívido como cal.

Leonor, este não é o lugar…

Para verdades? Então onde é, Carlos? Porque em casa também não ouves. Não falo por mágoa, mas porque decidi não fingir mais.

Olhou para a loira do vestido encarnado. O sorriso dela desmanchara-se.

Não faço um drama, continuou. Só digo o que é justo. Esta empresa cresceu à conta das minhas ideias. O meu nome nunca esteve nos papéis. Aguentei porque acreditava que éramos família. Já não somos. Por isso fica aqui a verdade.

Pousou o copo.

Obrigada pela noite, Luís. Margarida, liga-me um dia destes.

Saiu, digna, sem pressas nem medo.

Carlos foi atrás dela ao bengaleiro.

Que raio estás tu a fazer?! sussurrou, a voz a ferver-embutido.

Estou só a dizer a verdade, Carlos. Finalmente.

Fizeste-me passar vergonha!

Tu fizeste-me passar vergonha perante a vida. Isso dói mais.

Isso é o quê? Divórcio?

Vestiu o sobretudo, compôs o cinto.

Significa que cansei. De ser invisível. Chamem-lhe o que quiserem.

Saiu para o frio. O ar cortava, mas pela primeira vez há anos, respirava fundo, direito, sem medo.

Chamou um táxi, foi para casa da Teresa.

O divórcio levou quatro meses, não por falta de bens (casa, casa de campo, dois carros), mas porque Carlos não acreditava no início, depois não queria acreditar, depois negociava. O advogado, recomendado pela Teresa, Maria Antónia, mulher de cabelo curto e olhar de quem já se desiludiu com a vida há vinte julgamentos:

Tudo o que descreve, participação intelectual no negócio, é duro mostrar em tribunal, avisou. Tem desenhos, e-mails, provas?

No encontro seguinte, Maria Leonor apareceu com três pastas. Duas décadas de esboços, e-mails a Carlos, prints de conversas a explicar-lhe as ideias. Daniel, o arquiteto novo do jantar, telefonou-lhe uma semana depois:

Dona Maria Leonor, se precisar de testemunho, vi as suas plantas originais no arquivo. Estavam assinadas e datadas. Carlos nunca disse que eram suas, mas eu entendi. Nunca foi da minha conta, mas se agora é…

No final, partilha de bens, ela ficou com a casa, ele com a de campo (depois vendeu-a). Não houve celebração. Era só meter ponto final numa história longa.

As primeiras semanas a viver sozinha estranharam-lhe o silêncio. Não pesava, era só silêncio. Comia à hora que queria, o que queria. Podia adormecer antes das dez, acordar cedo, não dar satisfações.

Um dia tirou da prateleira uma caixa de lápis esquecida. Pegou numa folha e pôs-se a desenhar por desenhar. Layouts de um apartamento imaginário, com luz de sobra e um jardim de inverno na sala.

Nem deu pelas horas.

No dia seguinte telefonou ao Rui.

Rui, sabes como anda o mercado do design de interiores? O que é preciso para abrir um estúdio pequeno?

Ele ficou calado um instante.

A sério, mãe?

A sério.

Conheço um tipo que te pode orientar, consultor, João. Queres o contacto?

Quero.

Quatro meses depois do divórcio, abriu um estúdio próprio. Um segundo andar num prédio antigo perto da Baixa. Fez obras ela mesma, com a Teresa e a Matilde, que veio de propósito do ISCTE ajudar. Andaram a pintar, pendurar prateleiras, discutir onde pôr o sofá.

Mãe, és mesmo incrível, disse Matilde numa dessas noites, sentadas no chão a comer pizza da caixa. Sabias?

Agora sei, sorriu Leonor.

O nome: Maria Leonor Silveira. Arquitetura de Interiores. A Teresa sugeriu nomes sofisticados, mas ela quis apenas o seu, que durante uma vida inteira estivera atrás do apelido dele, das conquistas dele.

O primeiro projeto veio por conhecidosum casal jovem a querer renovar o T2. Ouviu-os, foi ver o apartamento, trouxe três hipóteses no dia seguinte. Escolheram a segunda. É exatamente aquilo que sonhávamos, só não sabíamos explicar. Era isso que a movia: ouvir o que as pessoas não sabiam dizer, tornar isso real.

Saiu uma peça sobre ela numa revista de bairro, depois numa maior. O próprio Pedro Reis ligou:

Leonor, isto é sério. Tenho duzentas casas para um novo condomínio. Preciso da tua visão. Aceitas?

Aceito, disse.

Foi um projeto grande, a sério depois de vinte e cinco anos parada. Passou noites a trabalhar, não por falta de tempo, mas porque não conseguia parar. Pesquisava, reformulava, visitava outros espaços. Daniel ajudou com os desenhos técnicos, tornaram-se equipa. Ele meticuloso, ela inventiva. O resultado ficou genuinamente especial.

Quando entregou o projeto à Pedro, ligou à Matilde.

Filha, consegui.

Mãe, eu sempre soube! Conta-me tudo!

E ela contouplantas, soluções de luz, espaços verdes entre os prédios. Matilde exclamava com entusiasmo.

Mãe, sempre o soubeste fazer. Só nunca te deram espaço.

Leonor ficou a pensar. Talvez, de facto, nem ela se desse espaço.

Agora dou. E isso é o que importa.

Seis meses depois da abertura, o estúdio funcionava em pleno. Três projetos em simultâneo, dois quase a arrancar. Uma micro-equipa: Daniel a part-time, a jovem Vera na agenda. O dinheiro era honesto, pequenino, mas só seu. Cada euro era dela, ganho com a cabeça e as mãos.

Ela mudara, e percebia isso. Não no físico, mas no porte. Entrava nas salas de frente, não pedia desculpa por ocupar espaço. Falava claro, sabia dizer não.

Às vezes, sentada no seu sofá a beber chá ao fim do dia, pensava nos anos passadosnão com raiva, já transposta. Só uma pena ténue, como se lamenta um verão perdido. Tinha dó do tempo, daquela miúda cheia de sonhos que se apagara devagar.

Mas não apagara de todo. Tinha estado a guardar fôlego para saltar quando chegasse a altura.

Uma dessas noites, Carlos ligou.

Ela olhou para o nome no ecrã, hesitou. Depois atendeu.

Boa noite, voz cansada, arrastada.

Boa noite.

Estás ocupada?

Não. Só acabei agora de trabalhar.

O Pedro falou do teu trabalho. Disse que tinhas feito um projeto do outro mundo.

Fico contente.

Pausa, embaraço no ar.

Leonor, posso ir aí falar contigo? Amanhã?

Pensou. Não tanto se queria vê-lo, mas sobre o que ele viria buscar, e se ela estava preparada.

Passa amanhã, três da tarde, aqui no estúdio.

Obrigado, Leonor.

Depois de pousar o telefone ficou a olhar a cidade, luzes penduradas em dezembro frio.

Ela sabia o que ele podia dizer. Sabia, acima de tudo, o que precisava de dizer ela. E isso dava-lhe paz.

Carlos veio às três. Abriu-lhe a porta, Vera já tinha saído. Ele entrou, olhou para os desenhos e livros na parede, para a mesa de amostras, para as prateleiras cheias de livros que ela trazia desde a faculdade.

Envelhecera. Não de rugas mas de desalento, vincos de cansaço. O blazer, já nem era do mais caro.

Tens um espaço bonito.

Senta-te.

Sentaram-se no sofá da entrada. Trouxe-lhe chá.

Como estás? perguntou ele.

Bem.

Vê-se, ele olhava em volta. O Pedro diz que é o melhor condomínio dos últimos dez anos.

Esperou.

Ele pousou a chávena, esfregou o rosto com as mãos, gesto que ela sabia ser de quem está aflito para dizer algo.

Leonor, preciso de te dizer isto

Diz.

Estou mal. Sem ti. Muito mal. Achava que ia ser outra coisa, mas sozinho não percebo nada disto.

Silêncio dela.

A Marta foi-se embora, aquela loira do jantar. Em fevereiro. Disse que não era isto que queria, que sem ti nada funcionava.

Pois.

Ele assentiu.

Fui um idiota. Só agora vejo. Sempre organizaste tudo: contratos, jantares, contas, a casa, os miúdos. Agora é só desordem. O Costa já quer mudar os termos, dois clientes grandes já saíram. Não percebo como aguentavas tanta coisa.

Porque era a minha casa, explicou ela.

Ele anuiu.

Leonor, queria pedir-te para voltares. Percebo o disparate. Só agora vi o que perdi, tudo isso.

Ela olhou para ele. O homem com quem partilhara vinte e oito anos, pai dos filhos, primeiro amor. Não sentia raiva, o que era significativo. Só cansaço, mágoa antiga, e clareza.

Carlos, posso-te perguntar uma coisa, sem rodeios?

Claro.

Dizes que estás mal porque tudo está virar caos, porque a Marta te deixou, porque o trabalho vai mal. O que é que realmente perdeste comigo? Mas mesmo?

Ele ficou a pensar. Fitou o chão.

Perdi-te. Sempre puseste tudo no sítio, podias antecipar tudo, eu só precisava preocupar-me com o essencial porque tu tratavas do resto

Exatamente, assentiu ela. Perdeste a comodidade, Carlos. Perder uma função, não uma pessoa. Fui útil, invisível, constante e não pedíamos agradecimento. Isso não é amor. Só agora dás valor, porque a cadeira confortável te falta.

Isso é cruel.

Não. É factual. Ouviste o que disse naquela noite? Que durante vinte e cinco anos fiz isto por nós? Não desmentiste, nunca. Porque é verdade.

Ele ficou calado.

Não estou zangada, de verdade. Foste parte da minha vida, o pai dos meus filhos. Mas não volto. Não por falta de perdão, porque acho que já perdoei. Mas porque me encontrei. Perdi-me e recuperei. Não vou largar-me de novo.

Longo silêncio.

Estás feliz?

Pensou só um segundo.

Estou. Não todos os dias. Às vezes dói e pesa. Mas agora vivo a minha vida. Só a minha. E isso é muito.

Fico contente por ti, ele murmurou.

Eu também fico por conseguir dizer isto.

Levantou-se. Agarrou o casaco.

E os miúdos?

Estão bem. O Rui e a Joana mudam-se para um apartamento maiorela está grávida, vais ser avô de novo. O André com o Simão vêm este verão. A Matilde termina o curso, já está a trabalhar. Está a gostar.

Viu-lhe nos olhos aquele instante de quem percebe, com mágoa, que a vida segue sem ele.

Fico feliz.

Eles querem ver-te, especialmente o Rui. Liga-lhe.

Acenou.

Obrigado, Leonor. Pela conversa.

Não tens de agradecer.

À porta, hesitou.

A tal filosofia do Espaço Vivo devias orgulhar-te. É mesmo boa.

Eu sei.

Fechou-se a porta. Lavou a chávena, arrumou-a.

Foi à secretária, acendeu o candeeiro, pegou no lápis.

O telemóvel vibrou. Matilde.

Mãe! Ligo para ti há séculos!

Estava a trabalhar.

Olha, vou aí passar o Natal. Posso?

Claro, filha, óbvio!

E levo uma amiga? É top!

Trás quem quiseres.

Mãe, estás bem?

Parou e olhou a noite, já escura de dezembro. Luzes acesas nos prédios. Uma criança de gorro vermelho a passear com o pai.

Sabes, Matilde, estou mesmo bem.

Não sentes falta de companhia?

Tenho muitos por perto. Tu vens no Natal, o Rui e a Joana também me convidaram, a Teresa vai comigo ao teatro. O Daniel trouxe-me bombons ontem só porque sim. Gosto mesmo do que faço, filha. Isso conta.

És a melhor do mundo, disse Matilde.

Tu também, crescidinha. Come bem, dorme, agasalha-te, anda frio.

Pareces igual. Nunca mudaste.

Mudei, filha. Só não no sentido que se nota de fora. Não sou outra pessoa. Voltei a ser eu. Isso é diferente.

Depois do telefonema, sentou-se, revisitou o projeto em cima da mesa: um T1 apertado que tinha de ser aberto à luz e aos sonhos de uma jovem yogi. Maria Leonor olhou para o papel, pensou na luz da manhã, num canto sossegado com almofadas. Desenhou.

Lá fora, o tempo era de neve miúda. Faróis a dissolvê-la com suavidade. Uma porta a bater, o carro a fazer ranger o gelo.

Ela desenhava e percebia: cinquenta e três anos não são fim nem meio. É o momento em que se sabe quem se é para, finalmente, fazer o que se quersem pedir licença.

Reflectia, por vezes, que devia ter feito isto mais cedo. Mas não sentia culpa. Reconhecia uma mulher que se dera demais ao nós, sem saber que se pode amar e manter-se inteira. Que servir a família é bonito, mas só se não for à custa de desaparecer.

Agora sabia a diferença.

Telefonema da Teresa:

Então?! Ele apareceu?

Apareceu.

E?

Nada. Conversámos. Pediu-me para voltar.

E tu?

Recusei.

Teresa ficou uns segundos sem fala.

Leonor, estás mesmo bem?

Teresa, nunca estive melhor. Sério.

Graças a Deus! Olha, quinta há inauguração dos novos arquitetos no Terreiro do Paço. Vens?

Com gosto.

E café depois?

Imperdível.

Vês? A vida recompõe-se.

Já estava recomposta, amiga.

Quando desligou, voltou ao desenho. A divisão do apartamento começou a aparecer. Aqui a luz do nascente a cair na secretária, ali um cantinho quieto de tapete e almofadas, ali uma janelinha para a rua.

Funcionava porque ela sabia o que era imprescindível para a vida. Não só aos olhos, mas na pele e no sossego que o espaço pode trazer. Era isso que nunca perdera, nem em vinte e cinco anos em silêncio.

Era designer. Era mãe. Era mulher que atravessou uma vida difícil e saiu inteira.

O casamento, com tudo o que foi, é só uma parte. A traição, o desdém, a ausência de respeitoé certo que magoam, e não vale fingir que não. Mas magoa não é sentença. É sinal de alertaali algo está mal, olha para isso.

Maria Leonor olhou. Não porque leu o livro certo ou porque um terapeuta lho dissesim, teve umas consultas que ajudarammas porque decidiu parar de fugir de si mesma.

O que mata não é a falta de dinheiro, nem rutinas, nem cansaço. É a sensação de ser invisível para quem devia ver. Que o pensamento, a vontade, o trabalho não contam. Isso mata devagar.

No caso dela, não matou de todo. Nem pensar.

Fez alongamentos, já era quase novehora de ir para casa. Amanhã havia clientes, chamados, almoço com Teresa. O Rui mandou mensagem a dizer que sábado havia jantar, a Joana ia anunciar o nome do bebé novo.

Vida cheia. Vida boa.

Vestiu o casaco, apagou a luz, fechou a janela. Pegou na mala. Ficou um instante à porta do estúdio.

Nevava lá fora. Os candeeiros lançavam halos tranquilos. A rua vazia, só um gato atravessando o asfalto, apressado como quem tem destino.

Maria Leonor Silveira fechou a porta do seu estúdio, desceu as escadas e saiu para a rua.

O ar cortava, com cheiro a neve e a ramos de pinheiroo cheiro dos vendedores de árvores de Natal. Faltavam três semanas para o Natal. Matilde viria com a amiga. Tinha de pensar no que cozinhar. Gostava de cozinhar para quem amava, não por culpa ou obrigação.

Foi para a paragem, devagar, olhando Lisboa, luzes nas janelas, flocos a cair nos telhados. Pensava no projeto, neste novo começo, com luz fresca pela manhã. Pensava na filha, que finalmente fazia o que amava.

E pensava nela própria. Nos seus cinquenta e três anos, cheios de muita coisaalegrias, dores, traição, longos silêncios, este dezembro com neve e um estúdio só dela.

Escolheu-se. Tarde? Talvez. Mas ainda bem a tempo. Não era frase feita, era verdade sentida.

Chegou o 28. Entrou, sentou-se junto à janela, mala ao colo. As luzes da cidade corriam pelo vidro, e a neve caía mansa nos beirais.

Olhou para fora. E sentia-se tranquila, como só quem sabe para onde vai pode sentir-se.

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