O coração do gato pulsava silente no peito, pensamentos se dispersavam, a alma doía. O que poderia ter acontecido para que a dona o entregasse a desconhecidos, por que ela o abandonou?

Quando a Lurdes acabou de mudar para o seu novo apartamento de um quarto, ainda meio vazio, recebeu um presente inesperado: um gatinho preto como a noite. Ela ficou pasma por uns minutos

O imóvel era pequeno, um modesto apartamento no centro de Lisboa que ela mal conseguiu juntar, ainda sem móveis nem quadros nas paredes. Já havia outras preocupações que a puxavam para longe do aconchego.

Então, o miado. Ainda atordoada, Lurdes fitou os olhos amareloâmbar do bichano, suspirou, sorriu e perguntou a quem lhe entregara aquele convidado:

É um gato ou uma gata?

Gato!

Muito bem, então será o Barto, disse ela ao filhote.

O pequeno abriu a boquinha e, obediente, miou Miau

***
Descobriuse que os britânicos são criaturas extremamente dóceis. Já há três anos Lurdes e Barto vivem como dois irmãos. Ao longo da convivência, percebeuse que o gato tem alma sensível e um coração enorme.

Ele cumprimenta a dona ao chegar do trabalho, aquecea nos sonhos, assiste a filmes enroscado ao seu lado e, ao limpar a casa, balança a cauda como se fosse música.

A vida ao lado de um gato ganhou cores vivas. É grato quando alguém te espera em casa, alguém com quem podes rir ou chorar. E, o melhor de tudo, ele entendete ao meiosentido.

Poderia parecer tudo perfeito, mas

Nos últimos tempos Lurdes passou a sentir dor no lado direito. Primeiro atribuiua a um torçomusculo ao se virar na cama, depois culpou a comida gordurosa. Quando a dor ficou mais intensa, decidiu consultar um médico.

Ao ouvir o diagnóstico e as perspectivas, Lurdes chorou a noite inteira, afundada no travesseiro. Barto, percebendo o estado dela, encostouse ao seu peito e tentou acalmara com ronronados suaves.

Ao som do ronronar, Lurdes acabou adormecendo. Na manhã seguinte, resignada, decidiu não contar a ninguém sobre a doença, para evitar olhares de pena e ofertas inconvenientes de ajuda.

Ainda guardava uma pequena esperança de que os médicos conseguissem controlar a enfermidade. Propuseram-lhe um tratamento que poderia melhorar seu quadro.

Surgiu então a questão de onde pôr o gato. No fundo, aceitando que a doença poderia ter um fim trágico, resolveu encontrar um novo lar para Barto e bons donos.

Postou um anúncio na internet, indicando que entregava um gato de raça a quem o recebesse com carinho.

Quando o primeiro interessado ligou, perguntou por que ela queria se desfazer de um animal adulto. Lurdes, sem saber bem o que dizer, inventou que, ao engravidar, desenvolvera alergia ao pelo de gato.

Três dias depois Barto saiu em sua caixa de transporte, rumo a novos proprietários, e Lurdes foi internada

Dois dias depois ligou para os novos donos, querendo saber do gato; eles, pedindo desculpas mil vezes, responderam que o gato fugiu naquela noite e não o encontravam.

O primeiro impulso de Lurdes foi fugir do hospital e ir atrás do felino. Até pediu à enfermeira que a deixasse sair, mas a funcionária a repreendeu severamente e mandoua voltar ao quarto.

A colega de quarto, ao notar a agitação da jovem, perguntou o que havia acontecido. Lurdes, entre lágrimas, contou tudo.

Aguenta, minha querida, disse a senhora magrinha e de cabelos brancos. Amanhã vem visitarte um médico de Lisboa. Eu também tenho um diagnóstico ruim; o filho, que é empresário, quer me mudar para outra clínica, mas eu recuso. Se ele já está negociando algo, quem sabe ele consiga algo. Vou pedir ao médico que também te veja, talvez não seja tão grave consolou Lurdes, acariciandoa no ombro.

***
Ao sair da caixa, Barto percebeu que estava num lar estranho. Alguém desconhecido estendeu a mão para acariciálo

O gato, nervoso, deu um golpe de pata na mão e correu para um canto escuro.

Paulo, não o toque ainda, deixeo acostumarse, ouviu Barto uma voz feminina suave, mas não era a de sua dona.

O coração do felino batia baixo, a mente girava, a alma doía. Como poderia a dona ter entregadoo a estranhos? Por que a abandonavam?

Os olhos amareloâmbar vasculavam o cômodo assustados. Viram a janela aberta. Num lampejo negro, Barto atravessou a sala e saltou para fora!

Por sorte, o salto foi apenas ao segundo andar; sob a janela havia um relvado bem cuidado. Daquele ponto começou o caminho de volta para casa

*****
A médica apareceu para Lurdes como uma senhora simpática, uns quarenta anos, chamada Maria Paula. Estudou o prontuário, sugeriu que Lurdes se deitasse na maca e virasse para o lado esquerdo.

Explorou, perquiriu, perguntou onde doía, qual a intensidade. Releu o historial e repetiu manobras em aparelhos médicos.

Lurdes não nutria grandes esperanças. Voltou ao quarto onde a colega ainda repousava.

E então, o que lhe disseram, menina? perguntou a outra.

Ainda nada, disseram que ainda vão entrar.

Entendo. Eu, infelizmente, confirmo o diagnóstico respondeu a colega, com pesar.

Sinto muito, e agradeço por tudo, respondeu Lurdes, sem saber como confortar quem já sabia que logo se despediria.

Meia hora depois, Maria Paula entrou acompanhada de outros médicos.

Lurdes, tenho boas notícias. Seu quadro reage bem ao tratamento. Vou prescrever um ciclo de duas semanas; após isso, você ficará bem declarou sorrindo.

Ao saírem, a colega comentou:

Que ótimo. Fico feliz por ter conseguido fazer mais uma boa ação antes de partir. Seja feliz, minha querida.

*****
Barto não tinha uma estrela guia, nem sabia de uma. O gato simplesmente seguia seu instinto felino rumo ao lar. O caminho cheio de espinhos e estrelas era repleto de percalços e situações cômicas.

Nunca conhecendo as ruas, o nobre britânico transformouse em um predador ágil num só dia, com instintos aguçados.

Contornando ruas barulhentas, correndo, deslizando, voando (pelo menos assim acreditava ao fugir dos cães), subindo em árvores, avançava em direção ao seu objetivo

Num dos pequenos pátios silenciosos, onde o barulho da rua era ensurdecedor, encontrouse cara a cara com um gato da vizinhança, experiente e altivo.

O outro, sem hesitar, reconheceu o forasteiro. Com um miado estridente, lançouse contra Barto, que, de aristocrata a bandido irritado, não recuou.

A briga durou pouco. O chefe felino se escondeu nos arbustos, deixando orelha levemente roída como lembrança.

Era natural; o gatuno só queria reafirmar seu domínio. Barto, porém, continuava seu trajeto, nada podia detêlo.

Na jornada de volta, lembrouse dos ancestrais distantes, aprendeu a dormir em galhos, escolhendo aqueles com ramificações confortáveis.

É vergonhoso admitir, mas Barto aprendeu a revirar lixeiras e a furtar comida de outros gatos de rua, alimentados por moradores carinhosos.

Certa vez topou uma matilha de cães vadios. Empurraramno para um tronco frágil, latindo e tentando alcançaro com as patas.

Os vizinhos que se juntaram ao barulho expulsaram os cães. Uma senhora, atraída por um pedaço de enchido, agarrouo. O medo e a fome nublaram o cérebro de Barto; ele se aproximou, deixouse acariciar e subiu ao colo.

Depois de se aquecer e saciar, lembrouse do caminho, saltou fora da porta do prédio e deslizou pelas escadas que se abriram, retomando a rota para casa

*****
Dada alta, Lurdes voltou para o seu apartamento. As palavras da médica ecoavam em sua cabeça: Seja feliz. Aliviada, sentiase grata por o diagnóstico não ter se confirmado e por estar bem.

Mas o coração apertava por Barto. Não conseguia imaginar chegar ao lar vazio e não ter ninguém a recebera.

Mal cruzou a soleira, telefonou para quem tinha levado Barto e pediu o endereço exato. Ao chegar, soube como o gato escapara e decidiu seguir suas pegadas.

Contaramlhe que era impossível, que já se passaram duas semanas, que seria improvável um gato doméstico sobreviver nas ruas, mas ela não queria acreditar.

Lurdes caminhou a pé, vasculhou cada pátio, cada praça, cada garagem. Tentou raciocinar como um gato que nunca fora à rua. Chamouo, fitando as janelas escuras dos porões.

Quando se aproximava de um prédio, percebeu que Barto havia desaparecido sem deixar rastro. Também parecia impossível que um gato desconhecedor da cidade chegasse tão longe, depois de duas horas de caminhada a pé.

Ao entrar no seu próprio pátio, com o rosto triste, as lágrimas subiam, o peito doía. Entre a neblina dos olhos, viu do outro lado da calçada um gato preto a caminhar em sua direção.

«Um gato preto», pensou subitamente. Lurdes parou, olhou fixamente e compreendeu. Correu até ele, gritando:

Barto!

O gato não correu; não tinha forças. Sentouse, piscou feliz e, com um miado suave, respondeu:

Cheguei!

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