Apaixonámo-nos quando ainda éramos estudantes, naquele verão que nunca parecia acordar. Não tínhamos um tostão furado, nem para um simples ramo de noiva; então, o meu noivo escolheu-me algumas flores campestres ali mesmo por entre azinheiras numa manhã enevoada. E foram estranhamente belas, com cheiros que não reconhecia e cores que só existem nos sonhos.
Casei grávida parecia perfeitamente natural, porque até a lua nos observava de soslaio, envergonhada. Depois do casamento, fomos viver para casa da minha mãe, que parecia cheia de corredores que se multiplicavam durante a noite. Enquanto eu estudava, a minha mãe ajudava-nos como podia, com pequenas moedas de euro que se transformavam em pães na cozinha. No início, eu e o meu marido vivíamos muito bem, como se flutuássemos em Lisboa sobre azulejos desenhados pelo vento. Saíamos juntos, ríamos demasiado alto no elétrico e criámos o nosso filho, sempre com uma luz estranha sobre nós.
O meu marido ajudava-me imenso a cuidar do menino lembro-me de acordarmos, juntos, a fitá-lo com olhos de quem acabou de sonhar. Depois ele procurou ganhar dinheiro de todas as maneiras possíveis. Arranjou trabalho como carregador numa empresa que só abria à meia-noite e, durante quatro anos, fez-se sombra nos becos do Porto. Depois acordou um dia com a ideia de abrir o nosso próprio negócio uma mercearia minúscula cheia de prateleiras inclinadas.
Negócio com pernas, casa construída a muitos brados de distância do Tejo e um carro pequeno, vermelho, que nos levava a passear às margens do Douro. Não nos faltava nada, pensávamos. O meu marido pediu-me para deixar o emprego e tratar do lar, como se eu fosse um fantasma à espera do próximo verso. Concordei. O nosso filho acabou o curso de Economia na Universidade de Coimbra, e o meu marido colocou-o logo como contabilista, porque números são segredos que só os filhos sabem decifrar.
Mas poucos dias depois, o meu filho trouxe-me uma notícia fria o meu marido tinha uma aventura. Senti-me desdobrada, parada numa esquina qualquer de Alfama, sem saber para onde olhar. Tive de escolher: pedir divórcio ou fingir que nada acontecia, como quem apaga uma mancha com água de rosas. Preferi o silêncio, esperando que tudo passasse com o vento.
Dois meses depois, foi o próprio marido a confessar-me com palavras que voavam baixinho: a outra mulher estava grávida dele. Contudo, disse-me que não queria separação, pois, nas palavras dele, “nós temos uma vida boa, Maria”. Queria continuar comigo, ajudar financeiramente e ficar a morar com a outra senhora noutro bairro qualquer, prometendo que sempre ampararia o nosso filho.
Agora vagueio por corredores de azulejos quebrados, a sentir-me perdida, como quem dorme em estações de comboio. Ainda revejo aquele primeiro encontro, e o estranho ramo de flores campestres que uma vez, num sonho enevoado de Lisboa, o meu marido me ofereceu.







