Explosão Estrondo violento Escuridão Escuridão
Finalmente a escuridão começou a ceder. Ouviuse uma voz:
Dona Vera, o socorrista já está a caminho, algo explodiu ali dentro.
Entre a dor, sentiuse uma mão pousar no seu pescoço. Tentou abrir os olhos; foi um esforço. Quando conseguiu, viu pendurado ao redor do pescoço um colar retangular gravado com símbolos do zodíaco E, ao longe, o olhar de uma mulher de jaleco branco.
Para a sala de cirurgia! soou a voz bem ao fundo.
Os pais voltaram do trabalho. A mãe correu para a cozinha, espiando a porta do quarto onde o filho fazia a lição de casa. O pai, ao entrar, notou imediatamente que o humor do menino não era dos melhores.
Tiago, que foi? o pai coçou a cabeça do filho.
Nada rosnou o garoto, um aluno da quarta série.
Conta!
Já se aproxima o Dia da Mulher. A professora retevenos hoje e disse que temos de fazer um presente para as meninas.
E daí? sorriu o pai.
Temos meninos e meninas em igual número. Ela já distribuiu quem deve dar o presente a quem o menino suspirou. Eu topei com a Inês Pereira, que é feia.
Todas as meninas querem um presente no Dia da Mulher, bonitas ou não tentou o pai, falando como se o filho fosse já adulto. E como ela fez a distribuição? Por ordem alfabética? Por signo?
Como assim? o pai não conseguiu segurar o riso.
Por compatibilidade. A Inês é Virgem, e Virgem combina melhor com Touro. Eu sou Touro.
Isso é ótimo, se combinam! Quem sabe até se apaixones por ela.
Eu? Por Inês Pereira?
O pai riu alto. Nesse instante a mãe entrou no quarto:
O que está a acontecer aqui?
Lúcia, vem para a cozinha disse o pai, a voz firme. Temos que conversar a sério.
Quando a mãe saiu, Tiago, com a voz triste, perguntou:
Pai, e agora, o que devo fazer?
Preparar o presente!
Qual?
Amanhã, no trabalho, farei um presente para a tua escolhida.
Mas pai, que presente podes fazer? Trabalhas numa fábrica.
Trabalho no setor de galvanização. Produzimos todos os tipos de revestimento metálico.
Ainda não percebi…
Verás amanhã!
***
No dia seguinte, o pai trouxe um colar de corrente, em forma de retângulo dourado. De um lado estava gravado o símbolo de Touro; do outro, o de Virgem, e, em letras finas, mas elegantes:
«Para a minha colega Inês, no Dia da Mulher! Antonio».
O colar reluzia de forma impressionante quando a mãe o guardou num pequeno saco de plástico transparente.
***
Chegou o 8 de março. A professora não tinha intenção de dar aula. Primeiro, os alunos entregaram o presente a ela. Ela agradeceu demoradamente. Depois anunciou que os rapazes deveriam dar presentes às meninas.
Então começou a correria! Todos os rapazes correram para os seus destinatários. Tiago também aproximouse de Inês Pereira e recitou o que o pai lhe ensinara:
Inês, parabéns pelo Dia da Mulher! Quem sabe o destino une um Touro e uma Virgem um dia.
Dizendo a frase decorada, Tiago regressou ao seu lugar e, sem se aperceber, deixou que o seu coração fosse arrebatado pela menina que considerava feia.
Pouco depois, a família de Inês mudouse para outro bairro e ela, a partir da quinta série, passou a estudar numa escola diferente.
***
Antonio abriu os olhos. O teto branco do quarto de hospital. Tentou mover braços e pernas; só o braço esquerdo respondia.
Onde estou? perguntou, sem saber a quem se dirigia.
Um som de passos ecoou, e uma enfermeira, apoiada em muletas, aproximouse, olhouo atentamente e perguntou:
Recuperado? Está na unidade de cirurgia de emergência.
As minhas mãos e pernas estão intactas? perguntou Antonio, numa voz baixa.
Parece que sim respondeu ela, aliviada. Só que estás todo enfaixado da cabeça aos pés.
É bom que tudo esteja inteiro.
A enfermeira então perguntou gentilmente:
Como se sente?
O que me acontece! respondeu Antonio, confuso.
Nada ameaça a sua vida. As mãos e pernas vão voltar a funcionar. Só vão ficar algumas cicatrizes mostrou o telefone ao lado. A sua mãe pediu para ligar quando acordasse.
Filho ouviuse a voz da mãe entre lágrimas.
Mãe, está tudo bem ele tentou soar o mais otimista possível. Disseramme que só vão ficar cicatrizes pequenas. Em breve vão dar alta.
Não poderei ficar contigo à noite. Vou chegar já já disse a mãe.
Não te preocupes! colocou o telefone ao lado, tentou sorrir para a enfermeira: Obrigado!
Ainda não vai dar alta ainda respondeu a enfermeira, sorrindo. Vai precisar de cerca de três semanas.
O que aconteceu aqui? perguntou o vizinho de quarto, quando a enfermeira saiu.
Sou socorrista. Na fábrica, os balões de gás começaram a explodir recordou Antonio. Fomos chamados. Chegámos ao local, três feridos. Entrámos, os balões estavam espalhados, havia fogo. Os feridos estavam a ser retirados Eu fui o último a sair Quando já estava quase à porta, outro balão explodiu Depois não me lembro.
Foi o teu destino concluiu o enfermeiro que entrou logo depois.
Um colega de trabalho apareceu, dirigindose à sua cama:
Olá, Tiago! Como estás?
Mãos e pernas inteiras! respondeu otimista. Só consigo acenar com a mão esquerda!
Calma, amigo!
O que aconteceu depois?
Estávamos a sair quando o balão explodiu. Corremos de volta, puxámoste estavas coberto de sangue os médicos já estavam ali
Obrigado!
Tiago, que estás a dizer?! o colega riu. Parece que vão até nos propor medalhas.
Quando me derem alta, avança
Vou embora. Vai ter ronda agora, a enfermeira disse que não será demorada.
Mal o colega saiu, entrou o médico, um homem de quarenta anos:
Como vai, herói? aproximouse da cama.
Normal.
Se já estás a falar, então vais viver. Deixame examinarte!
Você está a brincar comigo? indagou Antonio. Não, a Dra. Vera. Ela volta amanhã.
***
Dois dias depois, Antonio já tentava levantarse. A dor nas pernas ainda era forte, o braço direito ainda doía, e havia várias feridas no corpo, duas no rosto, resultantes da explosão. Olhouse no espelho; o rosto ainda estava inchado.
Hoje o médico faria a ronda; ele o tinha operado três horas seguidas no bloco. Antonio sentia um leve nervosismo.
Entrou então a médica, jovem, elegante, de óculos que lhe dão um ar intelectual, mas não a tiram a graça. O seu jaleco branco combinava perfeitamente. Antonio, já com vinteesete anos, era casado, embora o casamento tivesse acabado seis meses depois por incompatibilidade de temperamentos, como constava na certidão, e porque a exesposa não aceitava o salário de salvador.
Bom dia! saudou a médica, dirigindose à sua cama.
Bom dia! Foi a senhora quem me operou?
Eu sorriu. Alguma coisa não está bem?
Pelo contrário, está tudo ótimo! Muito obrigado!
Deixeme examinaro!
E ela inclinouse sobre ele Antonio viu o colar com os símbolos do zodíaco pendurado ao pescoço:
Inês Pereira!!! exclamou.
Ela fitou o rosto ainda inchado dele.
Desculpe! disse, sem reconhecêlo.
Sou Touro apontou para o colar.
Tiago Gonçalves? tremularam os lábios dela. Lembraste de mim?
Ah, Inês? ele, ao ver as lágrimas nos olhos dela, colocou delicadamente a aliança na sua mão.
Perdão! ela tirou o lenço e enxugou o choro. Nunca imaginei que nos reencontraríamos assim.
***
A partir daquele dia Inês já não entrou mais no quarto de Antonio. Mas ele compreendeu que ela também tinha um ritmo de vida semelhante ao dele: dia, noite e dois dias de folga.
Não queria aparecer indefeso perante ela. No dia seguinte tentou andar apoiado nas camas, às vezes agarrando a parede, saiu ao corredor.
Ao anoitecer, o médico da mudança diurna saiu. Entrou a equipa da noite o tom da conversa no corredor mudou. A ronda estava a começar
De repente, gritos e passos apressados no corredor. É sempre assim quando trazem outro ferido.
Já eram dez horas. A enfermeira entrou, apagou a luz do quarto. Mas Antonio não conseguia dormir. Passada a meianoite, ouviu passos no corredor que cessaram, e, no silêncio, percebeu, mais que ouviu, que alguém chorava. Levantouse e saiu cautelosamente.
Na mesa de plantão, uma antiga colega de classe, de cabeça baixa, chorava. Aproximouse e pôs a mão firme no ombro dela:
Tu és a Inês!
Ela, entre soluços, afundouse no seu ombro:
Eu operei uma mulher que caiu debaixo de um carro Fiz tudo o que pude. Ela está em reanimação, mas não vai sobreviver. Dois filhos o marido está aqui, ao lado da cama
Calma, Inês.
Três anos a fazer cirurgia e ainda não me acostumo a ver gente morrer. ela dizia, com a voz rouca. Eu me casei aos vinte e cinco, mas o marido saiu de casa porque eu ganho pouco. Só me sobra quarenta por mês tentou justificarse. Mas ainda há muito que podemos salvar.
Eu também ele respondeu, olhandoa nos olhos. As pessoas morrem, mas também salvamos muitas vidas. Minha esposa saiu porque dizia que eu chegava tarde e o dinheiro era escasso. Mas ainda temos quarenta euros por mês dános para viver.
Eu passo o mesmo ela respondeu. Olhamme como se fosse louca. Ainda não casei, moro com os pais.
Ah, não te preocupes, ainda somos jovens, vinte e sete, temos a vida pela frente.
Não, Tiago, já temos vinte e sete.
Inês, o pulso está a cair gritou a enfermeira, desesperada.
Desculpa! Inês correu para a reanimação.
Antonio não conseguiu dormir naquela noite. De manhã, a enfermeira fez-lhe a rotina de curativos.
A mulher que operaram esta noite está viva? perguntou ele, surpreendido a si próprio.
Está viva, mas em estado muito grave respondeu ela.
***
Três semanas depois, as feridas de Antonio estavam a cicatrizar. Ele encontravase com Inês nos turnos dela, e a atração entre eles só crescia. Contudo, a ala de cirurgia de emergência não era o local adequado para assuntos pessoais.
Numa manhã, durante a ronda, o médico afirmou:
Hoje doulhe alta sorriu, acrescentando digo, da enfermaria. Primeiro vai ao centro de saúde, e lá decidirão se ainda precisas de cuidados.
Posso preparar o que for preciso!
Sim, não há pressa. A sua alta será feita ainda hoje.
Quando o médico saiu, Antonio fez a barba. No espelho, viu que as duas cicatrizes restantes ainda marcavam o rosto, mas davam-lhe um ar mais viril. As demais cicatrizes seriam ignoradas.
Recolheuse, saiu para o corredor. Uma enfermeira passou-lhe a alta:
Adeus, Antonio! Não volte mais por aqui!
***
Antonio tinha um apartamento pequeno, mas dirigiuse à casa dos pais. A mãe esperavao ansiosa, até tirou licença do trabalho.
Filho! abraçouo forte. Vejo que está bem.
Tudo bem, mãe, estou vivo e saudável.
Venha, preparei o seu almoço. Está tão magro.
Ah, como sinto falta da comida caseira!
Enquanto não ganha um salário e não casa, vai viver na casa de família. O seu quarto ainda está vazio exclamou como quem fala a um filho. Lave as mãos!
Até à noite, Antonio foi ao cabeleireiro, voltou ao apartamento, pegou algumas roupas que a mãe ajudou a organizar.
À tarde, o pai chegou do trabalho. Sentaramse como antes, conversaram até altas horas.
Antonio acabou por dormir no seu quarto, onde passou a infância, mas só adormeceu depois de pensar:
Amanhã tenho de ir ao centro de saúde, depois ao trabalho, e à noite
Foi com esse pensamento que adormeceu, bem depois da meianoite.
***
No dia seguinte, Antonio dirigiuse ao centro de saúde. Passou a manhã a percorrer as alas; à tarde voltou ao trabalho, pois a sua ronda estava marcada.
Ao anoitecer, começou a prepararse para sair.
Onde vais? perguntou o pai.
Pai, lembrase, quando eu estava na quarta série? Você fezme um colar de presente para a colega?
Para a feia Inês Pereira? Lembrome.
Você ainda dizia: Talvez se encaixes, até te apaixonas por ela. E eu lembro disso.
Pai, a Inês hoje é cirurgiã. Foi ela que me operou. E ainda usa o colar.
Pois é!
Pai, as tuas palavras tornaramse realidade. Vou encontrála!
***
Vinte e sete anos não são tantos para começar uma vida ao lado de quem se ama. Cada passo que damos, por mais inesperado que seja, pode revelar que o destino muitas vezes nos leva exatamente ao lugar onde já deveríamos estar.
**Lição:** Não subestime o poder dos pequenos gestos; eles podem ser a ponte que nos conduz ao amor e à realização que tanto buscamos.







