Eles Não Apressaram o Amor, Pois Sempre Amarão

Na biblioteca municipal de Lisboa está sempre silenciosa, mesmo quando há leitores. Lurdes Silva nunca faz comentários aos visitantes; ao entrar na sala onde se erguem majestosos estantes cheias de livros, as pessoas param, olham ao redor e, então, aproximamse dela com calma.

Boadia, cumprimentam educadamente o bibliotecário e logo perguntam o título que procuram.

Boadia, responde Lurdes com um sorriso, escutando atentamente o pedido de cada leitor.

Lurdes é naturalmente simpática e cortês; trabalhar na biblioteca combina perfeitamente com ela. Às vezes pensa:

Que sorte a minha ter encontrado este caminho; não consigo imaginar outro trabalho que me dê tanta paz e prazer. Felizmente, a maioria das pessoas que vêm aqui são educadas.

Claro que, por vezes, chega algum leitor impaciente que exige algo com rapidez, lança olhares inquietos enquanto Lurdes procura o livro, preenche a ficha e entrega. Ela mantém a paciência e nunca se deixa irritar.

Ler acompanha Lurdes desde a infância; a escolha da profissão nunca foi um dilema, pois os livros são a sua essência. Entre eles sentese segura, já leu tantas obras que se tornou uma referência para os demais.

Enquanto as amigas correm para encontros, conciliam trabalho e casa, têm filhos, mudam de vida, brigam e reconciliamse, Lurdes simplesmente segue a sua rotina, tranquila e pausada.

Ela tem a voz suave, o hábito de ajeitar os óculos quando algo não está claro, os olhos cinzentos que transmitem calor, cabelos loiros sempre presos num coque na nuca, e vestese de forma limpa e profissional.

Lurdes tem vinte e sete anos. No segundo dia após o seu aniversário, entra na biblioteca um jovem de óculos, atraente. Ao observálo, pensa:

Um rapaz agradável, deve ter uns trinta anos.

Surpreendese ao perceber que nunca tinha notado os homens que frequentam a biblioteca, mas agora a atenção se fixa nele.

Boatarde, diz o recémchegado, educado.

Boatarde, responde Lurdes na mesma cortesia.

Ele hesita, parece recordar o autor ou o título, e então afirma com confiança:

Preciso do livro O Mistério das Ilhas, será que o têm?

Lurdes informa que o exemplar está disponível, mas fica no corredor superior. Ela vai buscar, enquanto ele observa a sala de leitura.

O jovem chamase Tiago Pereira, engenheiro tímido que trabalha no departamento de arquitetura, revisando projetos antigos e criando novos. Quando Lurdes devolvelhe o livro, Tiago sorri calorosamente.

Lurdes sentase à mesa, preenche a ficha e descobre o nome dele. Tiago assina, mas hesita, parecendo indeciso.

Obrigado, diz ele de repente, lembrandose de agradecer.

De nada, responde ela.

Um silêncio incomum paira entre os dois; nenhum dos dois quer se levantar. O tempo escorre, eles não sabem quanto.

Tiago, precisa de mais algum livro? pergunta Lurdes, finalmente.

Ah não sei ele responde confuso, mas, reunindo coragem, fala:

Você sabe o meu nome, mas qual é o seu, se não se importar?

Lurdes, responde ela modestamente.

Lurdes nome bonito, bem tradicional em Portugal, Tiago comenta, percebendo a própria timidez refletida nela.

Obrigado, repete ele, devolvo o livro em perfeitas condições. Adeus.

Também agradeço, adeus, responde Lurdes, educada.

Ela percebe que Tiago trata os livros com extremo cuidado. Veste calças bem passadas, camisa limpa, gravata e um fato que lhe assenta perfeitamente; os sapatos reluzem após a polida.

Tiago sai, mas Lurdes fica a pensar nele por muito tempo.

Somos como almasgêmeas, conclui, entendoo e sintolo

Logo percebe o exagero, sorri para si mesma.

Que foi isto? Nunca antes prestei tanta atenção aos leitores.

Tiago sai da biblioteca sentindose fora de si.

Lurdes, és a pessoa ideal para trabalhar aqui, o teu lugar é entre estes livros. Mas eu não consegui sequer dizer um elogio Por que sou tão tímido? A minha modéstia só me atrapalha. Agora não consigo imaginar o meu dia sem o teu rosto.

Depois do almoço, Tiago mal consegue focar no trabalho, a imagem de Lurdes permanece na mente.

Que alucinação é esta? pensa, tentando distraírse com os desenhos, mas nada funciona.

No dia seguinte, durante a pausa para o almoço, volta à biblioteca como desculpa para pegar outro livro.

Boatarde, Lurdes, ela levanta os olhos e ele se surpreende ao ver aquele tanto de atenção no olhar dela.

Boatarde, sorri Lurdes, como a um velho conhecido, precisas de outro livro?

Tiago, ruborizado, decide ser honesto:

Na verdade, vim aqui para falar contigo. Gostava de dizer tu agradasme muito desculpa

Os olhos de Lurdes brilham, o rosto dela fica ainda mais bonito, as bochechas coram.

Por que pedir desculpas? Também gostei de ti ontem; foi tão forte que esta noite quase não consegui dormir.

Tiago responde entusiasmado:

Eu também. Não consegui fechar os olhos.

Fica um silêncio constrangedor; ambos hesitam, até que Tiago se anima.

Lurdes, posso acompanharte até a tua casa depois do trabalho?

Posso, aceita ela modestamente e esboça um sorriso.

Desde então, começam a passear no Parque das Nações, Tiago fala apaixonado da sua arquitetura, enquanto Lurdes partilha histórias dos livros que leu.

Tiago, os livros são como pessoas, cada um tem a sua alma, diz ela, e ele concorda, entendendo o quanto ela ama o seu trabalho.

Chega o outono frio; eles passam longas horas a beber chá na cozinha de Lurdes, muitas vezes apenas a olharse em silêncio, concordando que:

Gostanos estar juntos, mesmo sem palavras.

Dividem sonhos e alegrias. Lurdes sempre desejou visitar Veneza, lêa em tudo e descrevea a Tiago, que imaginaa a deslizar numa gôndola pelos canais estreitos.

Num fim de semana, Tiago chega à casa de Lurdes com um buquê de rosas vermelhas.

Isto é para ti, Lurdes queres casar comigo? Faz tempo que planeio isto Concordas?

Concordo, responde ela, simples e feliz.

O casamento é discreto, não por falta de vontade de festa, mas porque não há pressa. A vida segue calma, ambos satisfeitos por terem encontrado um ao outro. Depois de muitos anos juntos, não conseguem ter um filho, mas não se desesperam nem culpam o destino. Adoptam um gato preto do abrigo, chamamo Bóris, compram uma casa de campo. Assim segue a rotina: trabalho, campo, leitura à noite, conversas ao lado da chávena de café, o ronronar de Bóris. No campo Tiago constrói casaspássaros, Lurdes tricota meias, cuida das flores. Os vizinhos raramente aparecem, murmurando à porta:

Vivem uma vida entediante, sempre a mesma coisa.

Mas eles não se cansam. Tiago prepara café numa cafetada antiga todas as manhãs, serveo em belas chávenas; Lurdes espalha pão para os pardais na janela. No verão passam mais tempo no campo, plantam flores; no inverno, voltam à casa, escutam o crepitar da lenha na lareira. Falam pouco, porque as palavras não são necessárias quando tudo se entende.

Anos se passam e tornamse idosos. Não se apressam a amar, pois o amor tem sido constante. Chega a hora da reforma, passam mais tempo na casa de campo, apreciam o silêncio, o canto dos pássaros, os cogumelos no bosque. Os vizinhos os respeitam pela vida serena que levam.

Um dia, Tiago volta do mercado com uma garrafa de vinho português e frutas. Lurdes, surpreendida, nunca bebeu álcool. Ele tira dois copos do armário, os limpa com o pano de cozinha que sempre usa quando Lurdes lava a louça, sentaa à mesa e serve o vinho.

Levantando o copo, Lurdes sorri:

Aos nossos?

Não, responde Tiago, tirando do bolso duas passagens aéreas, a Veneza.

Lurdes fica em choque. Sempre sonharam com aquele destino, mas sempre adiaram: o trabalho, o campo, o gato doente.

Mas somos velhos, comenta Lurdes.

Não velhos, mas séniores, por isso vamos

Tiago e Lurdes embarcam. Desfrutam dos estreitos canais, deslizam de gôndola sob pontes, riem como adolescentes. Passeiam, ela usa um chapéu de palha, ele carrega a câmara. Numa noite, ao pôrdosol sobre a lagoa, Tiago declara novamente:

Feliz sou contigo, Lurdes, amote demais

Eu agradeço ao dia em que me pediste em casamento, sabia o quanto era difícil para ti Obrigada por realizares o meu sonho. Não preciso de mais nada, só estar contigo.

Riem, pois o desejo é mútuo. Assim continuam a viver, sem pressa, felizes.

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Eles Não Apressaram o Amor, Pois Sempre Amarão
Oženila som sa vo veku 80 rokov.