Num dia que parecia igual a tantos outros, Manuel, um trabalhador honesto lá do interior de Trás-os-Montes, passeava-se pela mata a apanhar lenha seca para a lareira porque em Portugal quem não se previne para o frio acaba a ouvir a salamandra a chiar. De repente, ouviu uns murmúrios vindos do meio dos arbustos. A curiosidade do Manuel era mais forte que a das vizinhas, então lá espreitou por entre a folhagem e deu de caras com uma discussão escaldante entre o seu filho, João, e uma rapariga chamada Benedita.
Benedita, claramente farta de esconder o namoro, dizia-lhe: Não posso passar a vida a fingir que não existo para os teus pais, João! Se calhar era melhor esperarmos mais um mês e ver se as coisas mudam…” Aquilo caiu mal ao João, e o Manuel ficou ali, atrás dos arbustos, a matutar no sermão que ia pregar mal chegasse a casa.
Enquanto ia cortando a lenha e pôr batatas ao lume para o jantar, o Manuel só pensava: Mas onde é que ele tinha a cabeça? A Benedita é uma miúda de mão cheia, recatada, amiga da poupança tudo o que um pai pode desejar para o filho. E ele ali armado em esquisito.” Nem teve tempo de acabar os pensamentos, pois o João chegou a casa numa pressa suspeita.
Mal pôs os olhos no rapaz, o Manuel não poupou nas palavras: Ó filho, mas tu andas a gozar comigo? Então tinhas uma rapariga destas e nem uma palavrinha contaste ao teu velho? Olha que a Benedita era a nora que eu pedia ao Santo António ajuizada, poupada, simpática. E tu a fazer fita? Não admito que a rapariga seja desprezada, olha que não admito, nem por ti nem por mais ninguém!
O João, apanhado de surpresa por aquela descarga emocional, saiu disparado porta fora, agarrou meia dúzia de maçãs e ainda bateu a porta. Ali ficou Manuel, a olhar para as paredes, a pensar que os filhos dão mais trabalho que os troncos de azinheira.
Daí para a frente, o João andava num vai e vem com a Benedita e o ambiente lá em casa ficou, digamos mais gelado que bacalhau de sexta-feira santa. Piorou tudo depois da última zanga dos dois, quando a Benedita se encheu de coragem e disse que estava na hora de darem a cara pelo namoro. O João, nervoso, acabou por se chatear e, quando tentou mais tarde falar com ela, só arranjou mais sarilho: ela decretou que ou havia pedido de casamento ou não havia mais nada.
Cheio de paciência só que não o Manuel resolveu que estava na altura de meter mãos à obra. Foi bater à porta dos pais da Benedita e, por debaixo dos panos, combinou logo a boda dos filhos. O João, coitado, nem sonhava que a vida lhe ia mudar dali a nada. Disseram à Benedita que o João tinha ido a Lisboa comprar peças para o carro do vizinho porque, em Portugal, qualquer desculpa serve.
Quando o João voltou, não estava à espera de encontrar a Benedita sentada à cozinha. Olhou de lado e exclamou: Mas O que é que tu fazes aqui? Responde ela, muito segura: Então, agora moro aqui! Ou não era para casarmos, ó João? A verdade é que casamentos apressados e ajeitados pelos pais nunca faltaram lá na aldeia.
À primeira, o João quase lhe escapava um fado de tristeza, mas com o tempo foi percebendo que o Manuel até lhe tinha safado a vida pior seria acabar com uma vizinha que só gostava de novelas. Acabou por dar o braço a torcer, casou-se com a Benedita, e nunca mais lhe faltaram risos à mesa, nem batatas cozidas. No fim de contas, Manuel tinha feito aquilo que qualquer pai português faz pelo filho: meter o bedelho mas com amor.







