Modo Subjuntivo

Subjuntivo

Pedido? Fizeste-te um pedido? Benedita, estás maluca! O que é que há para pensar?!

Matilde, é complicado

Complicado o quê?! Matilde largou o casaco e sentou-se à mesa. Uff! Vim a correr! Tenho meia hora! Depois tenho de levar a Mariana ao ballet e o Martim ao futebol.

Matilde, o rapaz daqui a pouco faz seis anos. Até quando é que lhe vais chamar Martimzinho?

Olha, azar o dele! Devia era agradecer por ainda lhe dar mimo! Imagina, ontem chegou da escola todo contente, a dizer que está apaixonado! Pela Sofia, do prédio ao lado! Disse-me mesmo que quer casar com ela. Consegues imaginar?

E então? Parece-me o teu filho em tudo… Lembra-te de ti!

Não compares! Lembras-te do drama que fiz quando disse à mãe que ia casar? riu-se Matilde Que idade tinha eu? Quinze?

Catorze! E quase deste um desgosto à mãe! Mãezinha, já decidi tudo!. Como se ele sequer olhasse para ti naquela altura… E tu aí a suspirar…

E acabei por casar com o Paulo, vê lá tu! E agora levo com as consequências… A mãe até me devia ter castigado mais. Mandou-me lavar a loiça da casa toda durante um ano. Grande castigo! Mais valia ter-me cortado as saídas!

Como se houvesse maneira de te segurar em casa! Além disso, a mãe sabia que tinhas juízo, e essas tuas cenas eram só fogo de vista. Sempre pensaste bem!

Pois, principalmente quando eras tu a estar envolvida. Lembras-te das nossas guerras em pequenas? Eu não te podia ver à frente! Benedita a menina bonita e certinha; Matilde a rebelde desbocada!

A mãe nunca te chamou isso.

Mas a avó, sim! Sempre a dizer que eu ainda ia trazer desgosto. Mas olha, quem diria!?

Pois… Eu é que não fui grande exemplo…

A Benedita afastou a chávena e suspirou.

Bene Matilde aproximou-se e pegou-lhe na mão. Que se passa?

Tenho medo, Matilde…

Medo do quê?! Finalmente encontraste um homem decente e agora estás cheia de dúvidas! O que se passa afinal?

Acho que o Diogo não vai aceitar o Martim…

Matilde franziu o sobrolho.

Porquê isso?

Olha, ontem, depois das rosas e do anel, pediu-me para deixar o Martim com a avó durante uns dias quando casarmos…

A Benedita virou-se para a janela, mexendo nervosamente no anel.

O anel era bonito e caro.

Mas vindo do Diogo, que mais podia eu esperar? Empreendedor de sucesso, desportista e amante de música, com fama de galanteador, assentou quando me conheceu e decidiu que merecia o melhor. Sempre o ouviu à mãe dele:

Filho, uma mulher até pode viver com dificuldades, se acreditar em ti. Agora, se tu podes e não lhe dás, ela pensa sempre: Se não investe em mim, investirá num futuro filho?

Mas mãe, para quê pensar assim? E o filho, o que tem a ver?

Recordas-te da história da pobre Elza? As mulheres são todas um bocadinho Elzas. Pensam mil passos em frente. Às vezes isso prejudica, mas quem pensa no futuro, tem menos hipótese de se dar mal.

O Diogo sempre levou estes conselhos a sério. Cresceu a ver uma mulher forte, capaz de se erguer sozinha, depois do pai deles arranjar outra e deixá-los na rua. Ninguém estendeu a mão à Dona Teresa. Familiares só em Trás-os-Montes e ela nem quis pensar em regressar. Mal pôde, largou a aldeia e foi para Lisboa. Abandonou tudo e recomeçou. Tanta vez sem saber o que fazer, cavou o próprio caminho. Acabou empregada interna na casa de um velho professor universitário, o Dr. António Ramalho, viúvo e sem vontade para viver.

Dr. António, tem de comer! e lá lhe punha sopa em cima da mesa.

Mais tarde, Teresa, mais tarde…

Nada disso, é já!

Tem a certeza?

Sei! Força!

Mas se não me apetece?

Faça como em criança, pela mãezinha, pelo paizinho…

Assim a avó me obrigava…

Imagine que sou sua avó então! Tão inteligente e não percebe o simples: ninguém vive só de ar e vento! Se a sua mulher lá de cima vê que não trato de si, não me perdoa!

Fala mesmo como ela… Isso do repouso eterno, não podia ser dito antes…

Dizia a sua avó? Ela sabia distinguir o passageiro do eterno.

Teresa, é uma filósofa!

Só trabalho é que não me deixa filosofar! Pronto, está satisfeito? Vou agora alimentar o meu Diogo.

Ainda bem, o rapaz precisa é de crescer forte.

O professor, sem filhos, rapidamente criou laços fortes ao Diogo. Ao ponto de, passado um ano, pedir a Teresa que casasse com ele e aceitasse tudo o que ele tinha como sendo também do miúdo. Teresa hesitou, ponderou, mas aceitou.

Eu sei o valor deste acto. Aceito Mas não por mim, pelo Diogo. Ele merece outro futuro.

Casaram discretamente. Teresa voltou a estudar, entrando na universidade, porque sabia que não queria passar a vida toda entre tachos e vassouras. Acabou por abrir uma pequena empresa de limpezas e eventos, tornou-se independente. Diogo ficou seguro tinha sempre quem olhasse por ele.

O pai biológico de Diogo aceitou facilmente abrir mão do filho.

Encontraste um novo? Boa sorte! Não fales mal de mim ao miúdo. Não precisa.

E Teresa assim fez. Só contou a verdade ao Diogo aos dezenove, já depois de falecer António.

Mãe, mas… Ele amava-me

Tão bem como um pai verdadeiro! O afeto não escolhe laços sanguíneos, filho. O teu pai deu-nos casa, segurança e liberdade. Isso conta.

Teresa, agora reformada, esperava netos numa casa no campo, deixando ao Diogo tudo o que podia. Mas Diogo ia sendo cada vez mais exigente. Nenhuma mulher cumpria os requisitos.

Filho, quantas já foram?!

Muitas, mãe.

E todas bonitas e inteligentes. Como podem não servir? A Inês, por exemplo, excelente advogada. Só quer carreira. Filhos não interessa, casa é só cenário… Sentia-me num museu lá. Era como se nem me permitissem beber café sossegado

E a Filipa?

Fantástica, mas não a amo.

Então pronto.

Quando Benedita apareceu na vida do Diogo, Teresa rejubilou. Mulher divorciada, mãe solteira nada disso a assustou.

Diogo, estás pronto a aceitar tamanha responsabilidade?

Quem me criou, mãe?

Só te pergunto: se o filho dela não te aceitar?

Tenho de me esforçar então, não é? Primeiro conquisto o rapaz. Toda mãe normal põe o filho em primeiro lugar.

Exatamente! Agora, pensa tudo antes de avançares. Não brinques com a vida de duas pessoas.

O conselho foi seguido. Diogo fez-me o pedido, e agora eu estava sentada com Matilde no meu café de sempre, sem saber o que fazer. Amar é uma coisa, mas viver com quem rejeite o Martim, isso nunca.

Matilde mexia-se inquieta a ponderar se havia de ser moralista.

O que é que ele te disse?

Quem?

O Diogo! Que razão te deu para querer mandar o Martim para a casa dos teus pais?

Nada de concreto. Pediu para o Martim ficar uma semana com eles depois do casamento.

A Benedita, fora de si, largou a colher com estrépito. O empregado olhou, mas Matilde fez sinal de que não era preciso nada. Com a calma de sempre, Matilde lambeu os restos de espuma da colher, bateu-me ligeiro com ela na cabeça como quando éramos miúdas.

Ai! Isso agora… Tal e qual como antigamente!

Bem me lembrava! Não crescemos o suficiente, pois não? Quando foi que cresceste? No dia em que soubeste do Martim?

Se calhar até foi antes…

Queres saber uma coisa, Bene? Se tivesses contado sobre o teu romance com Tiago a tempo, até a mim, tudo teria sido diferente.

Não vale a pena pensar nisso agora…

Mas eu penso sempre que precisas aprender é a conversar com quem te ama.

A Benedita olhava para a colher, pensativa. Às vezes a Matilde até doía, mas sabia o quanto estava certa. Martim existia apesar de tudo.

Com o Tiago, pai do Martim, Benedita andava na mesma turma. Bastou um olhar furtivo e um final de baile, tira-lhe a mão e leva para casa sabendo que os pais estavam fora. Nem ela sabe porquê fez o que fez. Sempre aberta com a mãe, mas quanto ao Tiago nada. Só quando já não dava mais para esconder, confessou-se à família.

Matilde colocou amigos de sobreaviso; à primeira oportunidade, abraçou Benedita:

Não te preocupes! Esquece esse tipo! Já está!

O quê? Mas o que fizeste?! Benedita ainda tentou protestar, mas desmaiou. Quando despertou, tinha a mãe de olhos vermelhos ao lado.

Porque não me disseste nada, filha? Era melhor assim?

Choraram juntas, só sossegaram ao ouvir o pai entrar.

Que alvoroço é este?! Mais parecem o Douro em cheia! Olha que notícia: vamos ter neto! Que alegria! Vá, acalma-te, não faz bem ao Martim!

Nunca mais sentiu gratidão igual. Alguma vergonha, mas principalmente paz. A família acolheu a sua escolha com amor.

Martim cresceu num lar sem pai e mãe clássico mas com avós e tias que eram tudo. Com apoio conseguiu estudar, garantir um futuro estável, arranjar vida organizada. O Diogo só veio baralhar a certeza velha e as dúvidas tinham razão.

Como pôr o futuro do Martim em risco só porque eu desejo? Uma vez corri esse risco. Se não fossem os pais, Matilde, a ajudar mesmo em exames… Não sei o que seria de nós.

Matilde, a notar os pensamentos, pediu ao empregado uma colher e repetiu a sobremesa.

Benedita, aprende de uma vez a falar com os que importam. E com o Diogo pergunta-lhe. Achas assim tão difícil?

Sei lá… É só perguntar?

Sim! Agora mesmo.

Pegou no telemóvel e pô-lo-me à frente.

Liga!

Ele está em reunião!

Melhor testas logo o quanto gostas dele!

Não posso!

Ora bolas, manda-lhe mensagem então.

E o que vai pensar de mim?

Isso interessa? Tens o anel dele no dedo! Aceitaste ou não?

Estou a pensar…

Pensas mas não recusaste logo! Como vais viver com alguém a quem nem perguntas algo básico?! Ele não lê a tua mente. Decide e comunica!

Se ao menos soubesse o que quero… quase me escorriam lágrimas, mas peguei no telemóvel. Só perguntar?

Só isso, Bene.

A resposta não tardou. O telemóvel vibrou e eu sorri.

Vês? Percebeste agora? Matilde já a sair, espreitou o relógio. Ai, já estou atrasada! Uns vão de férias, outros é só correrias! Não fiques assim! Ele tem razão: uma semana a dois, uma em família. És mãe, mas também és mulher. Até te invejo! O Paulo nunca teria pensado nisso. E fala com o Martim. Aposto que ele aceitaria bem chamar ao Diogo de pai.

Achas?

Sei. Mas não fui eu que disse!

Pegou no casaco, saiu porta fora, virou-se e, a rir, fez sinal com o dedo na testa: pensa!

E eu pensei.

E foi assim que, três anos depois, o Martim, orgulhoso, recebeu das mãos do padrasto a sua irmã recém-nascida e agradeceu com um aceno sentido ao homem que agora chamava de pai.

Martim, cuidado! avisei, mas o Diogo abraçou-me e impediu-me de interromper o primeiro encontro dos irmãos.

Não te preocupes, vai correr tudo bem. Não é, filho?

Oh pai, claro! Martim levantou o laço do fofinho, escolhido a dedo com o Diogo, e sorriu. Mãe, ela é mesmo linda

Neste dia, aprendi finalmente: na vida, há momentos em que só temos mesmo é de falar, sem subjuntivos, sem e se e confiar em quem está do nosso lado.

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