O Veneno da Inveja

Veneno da Inveja

João, estou com medo Beatriz apertava o guardanapo entre os dedos, a voz tremendo levemente na última palavra. Levantou os olhos para o homem à sua frente, onde o receio era nítido. Outra vez aquelas mensagens

Ela tirou o telemóvel da mala, com as mãos trémulas desbloqueou o ecrã e passou-o para João. Ele pegou no aparelho, lendo atentamente: Obrigada pela noite deliciosa, Já tenho saudades, Quando voltamos a estar juntos?, Em breve voltamos a encontrar-nos, Vou esperar por ti no nosso sítio depois do trabalho e franziu o sobrolho de forma decidida.

E quando é que chegaram? perguntou calmo, quase impassível, devolvendo-lhe o telemóvel.

A última há cinco minutos. Mesmo quando pedimos as bebidas, Beatriz engoliu em seco, sentindo o peito apertado. E tem sido sempre assim; quando estamos juntos. Parece que alguém está a vigiar tudo tudo ao segundo, percebe onde estamos e o que fazemos.

João recostou-se na cadeira, passou a mão pelo queixo e o olhar tornou-se clínico avaliava cenários como se antevisse um adversário invisível.

Mostra-me todas as mensagens. E as datas, pediu seguro, sem ceder à angústia.

Beatriz abriu a conversa, subindo a galeria digital com dedos vacilantes. João analisou cada mensagem, atento às horas e ao teor de cada uma. O seu rosto manteve-se sereno, mas os olhos estavam tensos. Entre as frases, outras mais vagas: Não consigo parar de pensar em ti, Lembras-te da nossa última conversa? Quero repetir, Sabes bem onde me encontrar se mudares de ideias. A cada nova linha, Beatriz sentia ser observada por algo traiçoeiro e invisível, uma presença que pairava na sua vida e tentava minar a felicidade.

É estranho, disse, finalmente, com um tom cortante. Muito intencional. Alguém quer dar a entender que estás a trair-me. Marca tudo ao pormenor, só quando estamos juntos Metódico demais.

Beatriz deixou-se tombar na cadeira. Tinha vinte e cinco anos, era designer numa pequena agência em Lisboa e há muito que sonhava com um relacionamento feito de carinho e confiança. Encontrara conforto em João, um advogado de trinta e cinco, atento, calmo, seguro. Com ele sentia-se protegida um sentimento raro, precioso.

Namoravam há meio ano. Beatriz admirava o jeito paciente de João, o bom humor, o interesse genuíno pela sua vida. Ele não pressionava, nem apressava etapas; deixava claro, porém, que a via como companheira de futuro. Nos últimos tempos, também Beatriz pensava mais nisso dar o passo em frente, construir um nós.

Não faço ideia de quem faria isto, murmurou, com a voz a quebrar. Não tenho admiradores secretos. Não dei confiança a ninguém E aquelas frases tipo o nosso sítio, a última conversa parece mesmo que querem inventar uma história, quase como se fôssemos marionetas num teatro sinistro.

Deixa-me tratar disso, interrompeu João com firmeza no olhar. Conheço pessoas certas. Vamos descobrir de onde vêm os números. Alguma coisa me diz que isto não é por acaso. Demasiado orquestrado.

Durante os dias seguintes, João esteve ocupado a investigar. Beatriz tentava não pensar, imergindo no trabalho e nos cafés com amigas abraçando qualquer distração ou gargalhada que abafasse a inquietação constante. Mas ela não a largava; parecia uma cobra fria enrolada ao coração. Sempre que o telemóvel vibrava, o receio apertava e o alívio durava pouco: a ansiedade logo regressava.

Ao quinto dia, João ligou-lhe ao final da tarde.

Bia, já sei quem foi, disse, sem a habitual ternura. As mensagens vieram de vários números anónimos, mas descobriram quem os comprou. Foi a Soraia.

Beatriz ficou estática, o telemóvel quase caiu-lhe das mãos. Soraia, a amiga do tempo da faculdade, vinte e oito anos, divorciada, mãe de dois rapazes. Eram cúmplices há anos, partilharam desabafos, ajudaram-se nos piores momentos. Nos meses recentes, contudo, algo se acumulava um incómodo pequeno, mas crescente. Soraia muitas vezes queixava-se de solidão, dizia que os homens não queriam saber de mulheres com filhos, reclamava da rotina dura.

A Soraia?… sussurrou Beatriz, incrédula e magoada. Porquê? Como pôde?…

Acho que já sabes. Inveja, disse João, grave. Vês… estás feliz, tens trabalho estável, encontraste alguém. Ela sente-se prejudicada. E, parece, quis que eu pensasse que estavas a trair. Que duvidasse de ti.

Duas semanas antes, Beatriz, João e Soraia estiveram juntos na casa de amigos. Na sala, entre música e aromas suaves, os convidados conversavam e riam.

Beatriz destacava-se num vestido azul-petróleo, que realçava os olhos e a silhueta. João mantinha-se por perto trazia-lhe champanhe, propunha petiscos, incluía-a com discrição em todos os grupos.

São o casal de capa de revista, comentou Soraia, sorriso amarelo, cruzando os braços ao peito. Tudo perfeito, vestido, companhia

Obrigada respondeu Beatriz, feliz pelo elogio. Foi mesmo um achado, não esperava que ficasse tão bem.

Pois, Soraia alisou o seu casaco simples, fugindo com o olhar. Eu gostava de ter essas oportunidades. Mas com dois putos, não há tempo para compras todo o ordenado vai para outras coisas

Oh Soraia, nem penses nisso! Beatriz aproximou-se, tocando-lhe no cotovelo. Tu ficas sempre bem. Tens aquele estilo uma graça natural!

Pois sim, Soraia riu-se, secamente. Uns têm tudo, outros decidem entre sapatos de criança ou o cabeleireiro.

Viu-se como Soraia se afastou e ficou a olhar pela janela, o olhar amargo fixo no casal, enquanto eles dançavam. Ao contrário de simples inveja, a dor de Soraia era ausência, vontade de ter aqueles momentos leves e uma presença dedicada.

Noutra ocasião, num café de bairro, Beatriz entusiasmou-se a contar o passeio de fim-de-semana com João como caminharam na tapada, apanharam folhas, fizeram churrasco e olharam estrelas.

Deve ter sido mágico, resmungou Soraia, mexendo no café vigorosamente. Romântico, boa companhia

Foi mesmo bom, sorriu Beatriz, aquecendo as mãos na chávena de cappuccino. Queremos repetir no Inverno, experimentar a neve. O João vai ensinar-me a esquiar. Queres vir?

Esquiar? arqueou a sobrancelha, tensa. Só tenho tempo para trocas, creches, consultas, tarefas do Ricardo e buscar o Lourenço. Para alguns é romance, para outros, vida real.

O comentário foi só de fadiga, mas ficou no ar. A amiga Cátia tentou quebrar o gelo:

Vá lá, Soraia, a Bia só está a partilhar. É bom celebrar as coisas boas nos outros!

Eu não acuso nada, Soraia pousou a chávena abrupta, quase entornando café. Só constato: uns vivem festas, outros repetem o mesmo dia.

Beatriz sentiu um aperto. Quis animar, mas faltaram-lhe palavras e apenas pousou a mão sobre a de Soraia:

Sei que é difícil. Quero ajudar. Porque não organizamos um dia para todos? Levamos os miúdos ao parque, fazemos churrasco vai ser giro!

Soraia hesitou, os olhos humedeceram, mas conteve-se:

Obrigada, mas não vale a pena. Eles cansam-se, reclamam Aproveita enquanto podes.

Beatriz não deu grande importância, atribuindo ao cansaço da amiga, mas agora percebia: a inveja fermentava há anos, não por maldade, mas como uma dor silenciosa. Recordou os olhares desviados quando falava dos encontros, o sorriso forçado, o súbito silêncio eram apelos que ignorou.

E agora? perguntou, decidida mas insegura.

Vamos falar com ela. Já, declarou João.

Foram a casa de Soraia. Mal abriu a porta e percebeu quem era, empalideceu a pele perdeu cor, as mãos cerraram-se.

Vocês? O que aconteceu? a voz tremia, entre susto e pânico.

Não finjas, cortou João. Já sabemos que foste tu. Temos provas.

Soraia recuou, encostou-se à parede, a face marcada por fúria e lágrimas quase simultâneas.

Sim, fui eu! explodiu ela, a voz estrangulada pelo grito. E então? Achas que era fácil ver-te ganhar tudo enquanto eu arredo com dois filhos e sem homem decente? Foste sempre a preferida da sorte! Bonita, à vontade, sem problemas! E eu, o fardo!

Jurava cada palavra, a mágoa acumulada em anos transmitindo-se no olhar.

Nem imaginas o que é sentir-se invisível, continuou, cada palavra difícil de pronunciar. Cada vez que falavas de João, sufocava de inveja. Não sabes o que é ter azar amoroso. Queria que sentisses a minha dor. Que o teu mundo perfeito rachasse! Para veres o que é viver sempre a perder!

Beatriz escutava, o peito em chagas. Olhava aquela amiga a mesma Soraia que chorou no seu ombro após o divórcio, com quem partilhara o último euro para um café e não a reconhecia.

Resolveste destruir a minha vida só porque sofres? perguntou, sem raiva, mas com tristeza profunda. Só para me magoar? Para afastar o João?

E que mais podia fazer? riu-se amargo. Fogo! Sempre foste destaque, eu sombra. Até os homens que apreciavam a minha companhia fugiam. Porque filhos, contas, sou pesada. Tu não tens correntes!

João chegou-se ao lado de Beatriz, firme, como quem oferece proteção real.

Já chega, disse num tom inequívoco. Deu meio passo, criando uma barreira contra o veneno de Soraia. Foste cruel. Vais ter de assumir.

Nos olhos dela passou arrependimento, escondeu-o sob nova onda de azedume.

E vão, o quê? Para a polícia? Acham que isso interessa?

Não é disso que precisamos, contrapôs João. Só queremos que pares. Beatriz não pode passar por isto outra vez.

Soraia olhou Beatriz, um traço de tristeza infantil no olhar, mas logo endureceu:

Como se nunca percebesses que tenho inveja! gritou, a voz a quebrar-se. Estiveste sempre no centro, eu na sombra. No meu aniversário, por exemplo, todos só falavam da tua promoção. Eu, lá, com o bolo nas mãos E ninguém perguntou como estava.

Beatriz recordou a noite: brilhava, dançava, recolhia elogios. Soraia isolada, olhando de longe, discreta. Agora, tudo fazia sentido.

Soraia, falou baixo, dor pura na voz. Nunca quis ofuscar-te. Estava só feliz naquela noite, nunca foi competição para mim. Sempre te vi como igual, companheira.

E era como devia ver? Soraia puxou os cabelos, tentando calar a fúria. Tu és bonita, bem-sucedida, tens o João. Eu, filhos, contas, solidão. Queria que sentisses o que é estar a perder, sempre. Que percebesses a minha dor.

João escutou, e depois disse serenamente:

Inveja é veneno para quem sente. Mas escolheste prejudicar em vez de te curares. Isso não te eleva.

Soraia estremeceu, sem conseguir responder. O corpo ruiu e começou a chorar silenciosamente.

Desculpa, murmurou, com dificuldade entre lágrimas. Não queria magoar tanto. Guardei anos de tristeza. Divorcei-me, fiquei sozinha, os dias pesam. Falhei.

Beatriz sentiu compaixão. Era duro, injusto, mas também penoso não ter pressentido o sofrimento da amiga. Via agora não uma vilã, mas uma mulher derrotada.

Recordou outro momento, num café: Soraia confessando, olhos perdidos na chávena morna.

Às vezes parece que vives noutro mundo. Tudo te corre bem trabalho, amor, hobbies. E eu acordo sempre para igual: filhos, tarefas, supermercado Sinto-me presa.

Beatriz tentara animá-la, sugerindo fazer o currículo, procurar um emprego melhor, oferecendo ajuda. Mas Soraia afastara a ideia:

Quem quer saber de mãe com filhos? Tu podes escolher. Eu não. E isso frustra.

Na altura não percebeu a gravidade; agora, percebia o clamor por ajuda não escutado.

Soraia, disse, voz trémula, não fazia ideia da tua dor. Se me tivesses falado, tínhamos procurado soluções juntas. Mas o que fizeste dói demais.

Eu sei, fungou, limpando o rosto. Não peço perdão já. Só queria que soubesses que foi desespero, não maldade. Acreditei, tola, que ao roubar um pouco da tua alegria, ganhava paz. Estupidez, não é?

João pousou a mão sobre Beatriz:

Acabemos aqui. Beatriz, aceitas estas palavras?

Beatriz hesitou. Viu a amiga pequena, vulnerável, e a mágoa diluiu-se na compaixão.

Consigo aceitar que foi desespero e inveja. Mas a nossa amizade só pode sobreviver se deixares de me ver como rival. Quero uma amiga, não alguém que se alimenta da minha felicidade.

Soraia assentiu, deixando cair uma última lágrima.

Obrigada por me ouvires, murmurou. E desculpa não ter conseguido ser melhor pessoa.

Beatriz e João despediram-se. Lá fora, as luzes de Lisboa acendiam-se, pingos do último chuvisco brilhavam no empedrado. Beatriz respirou fundo, sentindo o corpo aliviar.

Sinto-me exausta, confidenciou, apoiando-se em João. É como perder uma parte importante de mim.

É normal, ele envolveu-lhe os ombros num calor reconfortante. Traição dói, mas acima de tudo ganhaste clareza. Estou aqui contigo.

Eu sei, sorriu Beatriz, lágrimas nos olhos mas já um brilho de esperança. Vamos em frente. Juntos.

Avançaram pela calçada, a sombra da dor a abandonar aos poucos o seu caminho. Beatriz sabia que teriam de reconstruir laços e superar feridas. Mas ao lado estava alguém íntegro, cúmplice, capaz de partilhar as alegrias e ajudar a curar as feridas. E, compreendeu, a verdadeira felicidade nasce quando aprendemos a reconhecer o valor dos que estão ao nosso lado e a inveja derrota-se, não ao ferir o outro, mas ao celebrarmos as vitórias juntos.

A vida ensina que crescer é aprender a transformar a inveja em inspiração, e a procurar nos outros o horizonte para o nosso próprio caminho.

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