— Já tens cinquenta, quem é que ainda te quer? — gracejava o marido. Mas a Lúcia decidiu tirar a prova

Já tens cinquenta anos, quem há de querer-te? gracejava o marido. Mas Isalina decidiu experimentar.

O marido de Isalina, Avelino José Correia, era homem de teorias. Não de uma só, claro. Umas vinte, todas igualmente sólidas. Que a melhor sopa é sempre com carne de vaca. Que os gatos são mais astutos do que os cães. Que a televisão é para ser ouvida com o som nos vinte e seis, nem mais nem menos. Mas a teoria-mor era esta: depois dos cinquenta, uma mulher já não interessa a homem nenhum.

Formulava-a de modos diferentes, consoante o humor.

Às vezes, com ar professoral: a natureza é assim, Isa, nada de pessoal.

Outras, filosoficamente: é a vida, que não admite discussão.

Mas muitas vezes, e quase sempre quando Isalina vestia um vestido novo ou pintava os lábios, dizia de forma caseira e crua: já tens meio século, mulher, ninguém te quer.

Sem ponto de interrogação. Só a certeza.

Isalina contava cinquenta e dois primaveras. Trabalhava como contabilista numa empresa de construção civil, fazia ginástica de manhã, lia ao serão, e aos domingos assava bolos que Avelino devorava com gosto, sem nunca associar o prazer do pastel à questão de quem ainda precisaria de uma pasteleira como ela.

Vinte e seis anos tinham já passado juntos. Nesse tempo, Avelino engrossou, perdeu cabelo e acumulou as tais teorias. Já Isalina… nem por isso. Ou pelo menos, não da mesma maneira.

A amiga Arlete percebeu antes de todos.

Isa, dissera um dia, soprando o café, e olhando com aquele olhar enviesado que só aparece quando vem aí uma ideia disparatada, tens noção de que és mesmo bonita?

Olha para ti, retrucou Isalina, no automático.

A sério. É mesmo verdade. E sabes que mais? Vamos inscrever-te num site de encontros. Só por experiência!

Isalina pousou a chávena.

Estás tola?

Preenchemos só o perfil. Escolhemos uma foto bonita. Vais ver o que acontece.

Não vai acontecer nada, disse Isalina. Já passei dos cinquenta. Quem é que me quer?

E calou-se logo, reconhecendo o tom e as palavras do seu Avelino José Correia.

Arlete era mulher de acção. Não sabia estar demasiado tempo a convencer. Fazia com que a recusa se tornasse embaraçosa. Não física, mas moralmente. Por isso, nesse serão apareceu debaixo do braço com o portátil, uma garrafa de vinho tinto na outra mão e aquele ar de quem já decidiu tudo.

Pronto, disse sem hesitar, pousando a garrafa na mesa. Vamos criar o teu perfil agora mesmo. Vai ser rápido, bonito, e sem discussões.

Espera lá, Isalina nem despira o avental. Que perfil?

No tal site de encontros. Disse-to.

Disseste, e eu disse que não.

Disseste quem é que me quer. O que não é a mesma coisa.

Isalina olhou-a. Arlete retribuiu, segura como quem espera só que os outros apanhem o comboio.

Arlete, tenho já cinquenta e dois anos.

Sei bem. Somos amigas há trinta anos.

E…?

E nada. Senta-te.

Isalina sentou-se, mas não em derrota; era cansaço nas pernas. O dia tinha sido comprido. Depois o relatório na firma, depois o trânsito. Ia-se só sentar.

A foto, pediu Arlete, abrindo o portátil.

Qual foto?

Uma que esteja bonita. Tens dessas?

Isalina pensou. As últimas eram do jantar de Natal da empresa. Numa delas, estava encostada no canto, copo na mão, virada de lado, olhar fugidio, porque Avelino telefonara três vezes a perguntar quando chegava.

Tenho do Ano Novo, arriscou.

Mostra.

Mostrou. Arlete analisou com tempo.

Está boa, sentenciou. Aqui, estás mesmo bem, a sério. Porque é que te encolhes tanto na vida e aqui não?

Na foto ninguém me vê, disse Isalina, e nem ela percebeu.

Arlete calou-se. Depois abriu o vinho.

A preencher o perfil passaram muito tempo mais Arlete a escrever e Isalina a protestar. Em cada campo.

Motivo para se inscrever? Isa, escreve conversa.

Não quero conversar com ninguém.

Não interessa, escreve.

Fale de si. O quê? Contabilista, faço um bom cozido, vivo com um marido que tem a teoria das mulheres com mais de cinquenta?

Escrevo: Dinâmica, interessante, gosto de ler e viajar.

Eu não viajo.

Queres viajar?

Isalina pensou.

Quero.

Não é mentira.

Escolheram a tal foto do Ano Novo: Isalina de vestido borgonha, cabelo apanhado, o olhar aceso de vida. Avelino nunca vira aquele vestido; nessa noite já dormia quando ela chegou.

Pronto declarou Arlete, fechando o portátil. Perfil feito.

E agora?

Agora espera-se.

Espera-se o quê?

Vais ver.

Isalina serviu-se de vinho. Espiou pela janela. Do lado de lá, o crepúsculo, o candeeiro, o galho nu de um plátano e nada. No quarto ao lado, Avelino via televisão, com o som aos vinte e seis. Os ruídos de todos os dias.

Tanto faz, pensou Isalina, perfil é perfil, não vai dar em nada.

Acabou o vinho e foi lavar a loiça.

Na manhã seguinte, o perfil nem lhe passou pela cabeça.

No escritório, passou o dia enredada no balanço trimestral. Ao almoço, sopita reles na cantina. Às três, deu por si a contar pombos no parapeito.

O telemóvel estava guardado na mala.

Às cinco, lá espreitou. Só para ver se Avelino tinha dito algo. Nada do marido. Mas uma notificação do site brilhava num círculo vermelho.

O número: 11.

Onze mensagens. Em menos de um dia.

Isalina olhou para o telemóvel. E o telemóvel, para ela. Escondeu-o, esperou uns minutos, tirou-o outra vez.

Onze.

Deve ser publicidade, pensou.

Entrou. Não era. Eram onze homens com fotos, nomes e mensagens bem concretas. Uns só: Olá, gostei do perfil. Outros escreviam com esmero. Um, João, cinquenta e quatro, mandou três parágrafos sobre livros, sobre raramente ver mulher de olhar tão vivo, sobre gostar de viagens.

Isalina leu duas vezes.

Viagens… pois, também pus isso lá, recordou, com leve remorso. Leve apenas.

À noite chamou Arlete.

Onze, Arlete. Onze logo no arranque.

A sério?! regozijou-se Arlete. Eu sabia!

Há um que fala de livros.

Responde.

Não vou responder.

Isa.

O quê, Isa? Tenho cinquenta e dois anos, sou casada.

Responde.

Isalina não respondeu. Lavou loiça e pensou em João, dos três parágrafos.

Desatinada…, murmurou.

Mas de manhã entrou no site. O número vermelho já não era onze.

Vinte e oito.

Isalina sentou-se na beira da cama. Avelino ainda dormia.

Vinte e oito mensagens só naquela noite.

Percorreu os perfis com cautela. Ali o António, quarenta e oito anos, engenheiro, fotografia engraçada com um gato; aqui o Manuel, cinquenta e seis, sério, de gravata: É uma mulher lindíssima. Depois o Pedro Isalina congelou quarenta e um, foto com montanhas atrás, só perguntou: Olá. Fale um pouco de si.

Quarenta e um. Onze anos mais novo.

Fechou o telemóvel. Abriu de novo.

Ao final desse segundo dia, eram já cinquenta.

Cinquenta e três mensagens ou melhor, cinquenta e quatro, mal ela acabou de contar.

Na cozinha, chá nas mãos, ia deslizando pelos perfis como quem pensa ir comprar pão e tropeça num tesouro. O Vítor, cinquenta anos, empresário, recitou-lhe poesia não dele, mas com ternura. O Nuno, simples: Gostava de a conhecer. E o tal Pedro das montanhas voltou a escrever, porque ela não respondia, e desta vez perguntou gentilmente: Ou está ocupada? Sem problema.

Isalina leu devagar.

Avelino debatia algo com a televisão. Davam-se bem, esses dois.

A quem é que serves tu?, lembrou.

Cinquenta e quatro pessoas em dois dias. Uns da idade dela. Uns mais novos. Um escreveu poesia. Outro esperou e voltou a escrever, sem azedume, só com delicadeza.

A teoria do Avelino José Correia chiava como soalha velha: ia rachando, devagarinho.

Isalina acabou o chá. Pousou a chávena e, pela primeira vez em muitos anos, olhou atentamente para o seu próprio reflexo na janela enegrecida da cozinha não de raspão, não sem querer, mas de verdade.

No vidro estava uma mulher de cinquenta e dois anos. Direita. Com olhos lindos. A quem cinquenta e quatro desconhecidos haviam escrito em dois dias.

Que coisa… sussurrou Isalina à sua imagem.

O reflexo, pareceu-lhe, anuiu.

O telemóvel repousava na mesinha de cabeceira.

Avelino apalpou por uns óculos e, no instante, o ecrã acendeu-se: uma nova notificação. Avelino pegou no telemóvel, alheado, sem esperar nada. Olhou. Franziu as sobrancelhas.

Olhou outra vez.

No visor lia-se: Pedro: Bom dia! Lembrei-me de si…

Avelino José sentou-se na cama. Devagar. Alguém lhe tinha contado uma coisa importante, ainda sem saber se era boa ou má.

Isalina, chamou.

Isalina estava na cozinha, de volta do café. Ouvira bem, mas não se apressou.

Isalina!

Já vou.

Entrou no quarto com uma caneca na mão. Tranquila. Avelino segurava o telemóvel como quem apanha bicho que não sabe se solta ou não.

O que é isto? soprou.

Isalina olhou o ecrã. Voltou-se para o marido. Sorveu o café.

É uma notificação.

Já vi que é notificação. Quem é este Pedro?

Do site de encontros.

Silêncio. Daqueles bons, cheios.

Qual site de encontros?! Avelino ergueu-se. Foste inscrever-te?

Fui.

Para quê?!

Isalina pousou a caneca na mesinha. Olhou bem o marido, sem raiva, quase curiosa. Como se vê um enigma já decifrado.

Para testar a tua teoria.

Qual teoria?

Aquela das mulheres depois dos cinquenta. Recordas? Ninguém te quer.

Avelino abriu a boca. Fechou-a. Voltou-se para o telemóvel entretanto já mais três notificações, vindas em cascata.

E quantos…?

Cinquenta e quatro, disse Isalina. Em dois dias.

Cinquenta e quatro, repetiu, baixo. Experimentava o número e ele não lhe servia.

Alguns até mais novos, disse Isalina, pegou na caneca e voltou para a cozinha.

Avelino José Correia ficou parado no meio do quarto, telefone na mão. Do outro lado da janela, uma manhã banal o candeeiro apagado, o plátano desnudo, pardais a bulir na beira do telhado. Tudo igual, só que a teoria, vá-se lá saber, já não funcionava.

De todo.

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— Já tens cinquenta, quem é que ainda te quer? — gracejava o marido. Mas a Lúcia decidiu tirar a prova
Até hoje, às vezes acordo durante a noite e fico a pensar como foi que o meu pai conseguiu tirar-nos tudo. Eu tinha 15 anos quando aconteceu. Vivíamos numa casa pequena mas arranjada – com móveis, o frigorífico estava cheio nos dias de compras e as contas quase sempre eram pagas a tempo. Frequentava o 10.º ano e o maior dos meus problemas era passar a Matemática e juntar dinheiro para uns ténis que queria muito. Tudo começou a mudar quando o meu pai começou a chegar cada vez mais tarde a casa. Entrava sem cumprimentar ninguém, atirava as chaves para cima da mesa e ia direto para o quarto com o telemóvel na mão. A minha mãe perguntava-lhe: “Outra vez atrasado? Achas que esta casa se mantém sozinha?” E ele respondia secamente: “Deixa-me, estou cansado.” Eu ouvia tudo do meu quarto, de auscultadores postos, fingindo que nada estava a acontecer. Uma noite, vi-o ao telefone no quintal, a rir-se baixinho e a dizer palavras como “está quase pronto” e “não te preocupes, eu trato de tudo”. Quando me viu, desligou logo. Senti aquele aperto no estômago mas não disse nada. No dia em que foi embora era sexta-feira. Cheguei da escola e vi a mala aberta em cima da cama. A minha mãe estava à porta do quarto, com os olhos vermelhos. Perguntei: “Para onde vai?” Ele nem olhou para mim e disse: “Vou estar fora algum tempo.” A minha mãe gritou: “Algum tempo com quem? Diz-me a verdade!” Ele explodiu: “Vou-me embora com outra mulher. Fartei-me desta vida!” Eu pus-me a chorar e perguntei: “E eu? E a escola? E a casa?” Ele só respondeu: “Vocês desenrascam-se.” Fechou a mala, agarrou os documentos que guardava na gaveta, levou a carteira e saiu sem se despedir. Nessa noite, a minha mãe tentou levantar dinheiro no multibanco e o cartão estava bloqueado. No dia seguinte, foi ao banco e disseram-lhe que a conta estava vazia. Ele tinha levantado todo o dinheiro que os dois tinham poupado. Para além disso, soubemos que tinha deixado dois meses de contas por pagar e que fez um empréstimo sem avisar ninguém, pôndo a minha mãe como fiadora. Lembro-me da minha mãe sentada à mesa, a fazer contas com uma velha calculadora, a chorar e a repetir: “Não dá para nada… não chega…” Eu tentava ajudá-la a somar as contas mas não percebia sequer metade do que estava a acontecer. Passou uma semana e cortaram-nos a internet; pouco depois faltou quase a luz. A minha mãe começou a procurar trabalho – fazia limpezas em casas. Eu comecei a vender rebuçados na escola. Tinha vergonha de andar nos intervalos com o saco dos chocolates, mas fazia-o porque em casa não havia sequer para o essencial. Houve um dia em que abri o frigorífico e só lá estava uma jarra de água e meio tomate. Sentei-me na cozinha e chorei sozinha. Nessa noite, jantámos arroz branco, sem mais nada. A minha mãe pedia desculpa por já não conseguir dar-me o que me dava antes. Muito tempo depois, vi no Facebook uma foto do meu pai com aquela mulher num restaurante – erguiam um copo de vinho num brinde. Tremia-me as mãos. Escrevi-lhe: “Pai, preciso de dinheiro para materiais da escola.” Ele respondeu: “Não consigo sustentar duas famílias.” Foi a última conversa que tivemos. Nunca mais ligou. Não quis saber se terminei a escola, se estava doente, se precisava de alguma coisa. Desapareceu. Hoje trabalho, pago tudo sozinha e ajudo a minha mãe. Mas esta ferida ainda está aberta. Não só pelo dinheiro, mas pelo abandono, pela frieza, pela forma como nos deixou afundadas e seguiu a vida como se nada tivesse acontecido. E mesmo assim, muitas noites ainda acordo com a mesma pergunta presa no peito: Como é que se aguenta, quando o próprio pai te tira tudo e te deixa a aprender a sobreviver, ainda criança?