Querido diário,
Há muito tempo que a minha prima Filomena guardava uma tradição um tanto excêntrica. Todos os anos, na véspera de Ano Novo, ela dirigiase a uma cartomante. Por viver em Lisboa, encontrar uma nova adivinha nunca lhe faltou.
A história começava porque Filomena se sentia só. Por mais que tentasse conhecer um cavalheiro nobre, nada dava certo. Descobriuse que os rapazes galantes já tinham sido arranjados há muito tempo
Este ano vais encontrar o teu destino! proclamou a misteriosa cartomante, de olhos fechados, ao contemplar o seu cristal reluzente.
Onde? Onde é que o encontrarei? perguntou Filomena, impaciente. Cada ano me dizem a mesma coisa e, apesar dos anos que passam, ainda não encontrei a minha sorte.
Recomendaramte como a melhor adivinha. Exijo que me digas o local exato! Caso contrário, farei propaganda negativa ameaçou a jovem.
A cartomante franziu a testa, percebendo que lidava com alguém que já estava à beira da loucura e que não iria se livrar dela tão facilmente. Sabia que, se mentisse, Filomena ficaria presa na fila até ao final da tarde, atrasando os que esperavam também a sua revelação.
Na comboio encontrarás! pronunciou, ainda de olhos fechados. Vejote claramente um alto loiro, muito bonito, quase um príncipe de conto de fadas
Ah, que maravilha! exclamou Filomena. Mas em que comboio e quando exatamente?
Antes da virada! respondeu a adivinha, divertida. Dirigete à estação. O coração dirá em que sentido comprar a passagem
Obrigada! sorriu Filomena, radiante.
Saí da casa da adivinha, apanhei um táxi e corri à Estação do Rossio. À porta da bilheteira, o entusiasmo começou a vacilar; ela fixouse no horário e não sabia qual bilhete comprar.
Diga! bradou o atendente, irritado, tirando Filomena da indecisão.
Porto no dia 30 de dezembro. Carruagem dormitório, por favor murmurou Filomena.
Ela já se via sentada num compartimento aconchegante, a beber chá, quando a porta se abriria de repente e entraria o seu futuro namorado
Chegando a casa, Filomena apressouse a arrumar as malas de viagem, pois o comboio sairia ainda à noite. Não pensou nas consequências da jornada, nem em como passaria a noite de Ano Novo numa cidade estranha. O único desejo dela era que a profecia da cartomante se cumprisse o quanto antes.
Era doloroso sentirse inútil, sobretudo durante as festas, quando todos se reuniam em família, trocavam presentes Todos, menos ela.
Algumas horas depois, Filomena encontravase no compartimento, com uma chávena de chá nas mãos, exatamente como imaginara. Restava apenas aguardar a chegada do príncipe.
Boa noite! saudou uma senhora idosa, arrastando uma enorme mala para o compartimento. Onde fica o segundo lugar?
Ali disse Filomena, apontando timidamente ao banco em frente. Tem a certeza de que este é o seu carruagem?
Não, minha cara, não me enganei respondeu a senhora, sentandose no assento livre com um sorriso.
Por favor, deixeme passar protestou Filomena, percebendo a grande estupidez em que se metera. Quero sair! Mudei de ideia!
Espera, vou guardar a mala disse a idosa, confusa.
E então o comboio parte suspirou Filomena. E agora?
Por que quis sair agora? Esquecestete de alguma coisa? indagou a mulher.
Filomena ignorou a pergunta e voltouse para a janela. Percebeu que aquela senhora não era culpada; era ela própria que se havia colocado numa situação difícil.
Nesse momento, Dona Leonor, que trazia ainda um saco de pastéis de nata caseiros, começou a partilhar as iguarias com a companheira de viagem.
Fui visitar a minha filha explicou a Dona Leonor a Filomena. Agora volto para casa, o meu filho e a noiva vão chegar, vamos brindar o Ano Novo juntos.
Que sorte a minha Vou acabar o Ano Novo aqui na estação murmurou Filomena, triste.
O papo fluiu e Filomena acabou por contar à senhora toda a história.
És atrevida! Por que recorres a esses charlatões? repreendeu Dona Leonor. Encontrarás o teu destino, mas não te precipites. Cada coisa tem o seu tempo
No dia seguinte, Filomena desembarcou num novo concelho, pela primeira vez, e ajudou a senhora a sair do carruagem, ficando sem saber o que fazer a seguir.
Obrigada, Filomena! Um feliz Ano Novo! exclamou Dona Leonor.
Também lhe desejo o mesmo respondeu Filomena, ainda melancólica.
A senhora olhoua, sem saber como animar a jovem. Percebia que passar a virada numa estação não era o melhor começo de ano.
Filomena, vem à minha casa! propôs Dona Leonor repentinamente. Vamos pôr a árvore, preparar a ceia
É não sei titubeou Filomena.
E sentarse numa estação, será confortável? riu a idosa. Vamos, não há discussão!
Filomena aceitou o convite. Dona Leonor estava certa; lá fora soprava uma nevasca que tornava inútil qualquer caminhada pela estação.
Tiago e Lurdes já estão a casa comentou a senhora, sorrindo.
Tiago, ao ver a mãe chegar de táxi, apressouse ao elevador para levar a pesada mala que ela carregava.
Tiago, meu filho, e aqui vem a minha antiga amiga, a Filomena disse a mãe, piscando conspiratoriamente.
Que bom! exclamou Tiago. Por favor, entre, Filomena.
A jovem fitou o alto loiro bonito e corou. Era exatamente a imagem que havia imaginado no comboio. O destino, parece, brincava outra vez consigo.
Onde está a Lurdes? perguntou a mãe.
Mãe, Lurdes não vem e nunca mais voltará. Não quero discutir. Está bem? respondeu Tiago, carrancudo.
Está bem disse a senhora, desconcertada.
Ao cair da noite, todos sentaram à mesa para despedir o velho ano.
Filomena, vais ficar connosco por muito tempo? perguntou Tiago, servindo-lhe uma salada.
Não, de manhã parto respondeu Filomena, com um leve pesar.
Ela não queria partir tão depressa daquele lar tão acolhedor. Sentiase como se conhecesse Dona Leonor e Tiago há toda a vida.
Não percebo por que tanta pressa? indagou a senhora. Filomena, fica um pouco mais.
Na verdade, Filomena, fica connosco. Temos uma pista de gelo maravilhosa e amanhã à noite podemos sair a patinar. Não vás embora ainda implorou Tiago.
Convencida sorriu Filomena. Fico feliz.
Naquela virada de Ano Novo, celebraram quatro: Dona Leonor, Tiago, Filomena e o pequeno Artur.
Afinal, acredito que os milagres de Ano Novo ainda existem, mas só se deixarmos o tempo fazer o seu caminho.
Aprendi que a pressa não traz felicidade; a paciência permite que o destino se revele no seu próprio tempo.
Até a próxima, querido diário.







