Durante o divórcio, um marido rico decidiu deixar à esposa uma quinta abandonada no interior de Portugal. Mas, um ano depois, aconteceu algo que o surpreendeu completamente.

Diário de Mariana Alves 12 de junho, 2023

Hoje, enquanto bebo o meu café e olho pela janela da casa grande que agora é minha, não consigo evitar relembrar tudo o que aconteceu no último ano. Quando tudo desabou, pensei que a minha vida tinha acabado. Mas como a vida dá voltas…

Durante o divórcio, o meu ex-marido, Ricardo, decidiu deixar-me apenas uma quinta envelhecida e esquecida no coração do Alentejo. Ao início, senti-me usada e traída. Não precisava da sua piedade, ainda menos daquela oferta, mas aceitei, talvez por orgulho ou apenas para virar a página.

Ricardo, sabes que não preciso de ti para nada, certo? disse-lhe naquele dia em Lisboa, tentando não deixar que me visse trémula. Fazes melhor em voltares para a cidade e cuidares dos teus assuntos.

Ele encolheu os ombros, mostrando aquele ar cansado e cínico com que me habituei a lidar nos últimos tempos. No fim das contas, tinha sido eu quem dera tudo pelo nosso negócio: vendi o meu apartamento em Almada e usei o dinheiro para investir. Ele contribuiu apenas com o quarto que herdara na casa da mãe, mas Deus sabe que o meu trabalho e dedicação puseram a empresa de pé. Sobrevivemos anos a saltar entre rendas e empregos temporários, até conseguirmos estabilidade.

Mas o Ricardo, esperto como era, acabou por passar todos os bens para o seu nome sem que eu desse conta. Quando tudo estava garantido do lado dele, apresentou o pedido de divórcio.

Achas isto justo, Ricardo? perguntei-lhe, dececionada e exausta.

Não comeces… disse ele, indiferente. Ultimamente só sabes reclamar, não fazes nada. Eu faço tudo!

Foste tu que me sugeriste parar um tempo para cuidar de mim respondi-lhe, calmamente.

Ele soltou um suspiro impaciente.

Já nem quero discutir isto. Aliás, lembras-te daquela quinta velha no Alentejo que recebi do patrão, o senhor Ventura? Aquilo ficou às moscas quando ele morreu. Perfeito para ti. Se não quiseres, não levas nada.

Sorri, já sem forças para combater. Doze anos de vida com alguém de quem, afinal, sabia tão pouco

Aceito, com uma condição: quero que passes tudo para o meu nome já.

Sem problema. Assim até poupo no IRS respondeu ele, com aquele sorriso trocista.

Não insisti mais. Arrumei o meu essencial e fui para uma pensão em Évora. Decidi que começaria do zero, mesmo sem saber o que ia encontrar ao chegar à tal quinta. Se não valesse o esforço, procurava trabalho noutro lado e reconstruía a vida à minha maneira.

Levei no carro apenas o indispensável. O resto deixei para trás, com o Ricardo e a sua nova namorada, uma rapariga insuportavelmente convencida, que mal cheguei a conhecer.

No dia em que assinei os papéis, ele entregou-me tudo com desdém.

Boa sorte, Mariana.

Igualmente, Ricardo.

Não te esqueças de me mandar uma fotografia das tuas vacas! gracejou, antes de sair.

Deixei Lisboa com o coração pesado, era impossível evitar as lágrimas. O tempo pareceu travar enquanto eu chorava, até que alguém bateu de mansinho no vidro do carro.

Está tudo bem, menina? Eu e o meu marido vimo-la aqui parada e ficámos preocupados disse-me uma senhora idosa, com olhar terno.

Limpei os olhos e esforcei um sorriso.

Está sim, só precisava de respirar um pouco.

Ela assentiu, compreensiva.

Voltamos agora do hospital de Évora. A nossa vizinha está sozinha na enfermaria Mãe solteira, sabe como é.

Está a seguir para Vila Viçosa? perguntei, surpreendida ao ouvir o nome da aldeia onde ficava a quinta.

Sim, embora agora ali só haja um casebre, não se pode chamar aquilo quinta. O antigo dono faleceu, ninguém trata de quase nada. Só alguns vizinhos dão comida ao que resta dos animais.

Sorri, maravilhada com a coincidência. É mesmo para lá que vou. Entrem, faço-lhes companhia.

No carro, a senhora D. Conceição Oliveira, e o marido, o Sr. António contaram-me tudo sobre a terra. Quem ainda cuidava das vacas, quem roubava, os rumores das últimas colheitas. Estava preparada para o pior, mas ao chegar, doeu ver os campos vazios, os telhados caídos do celeiro e só uma dúzia de vacas meio esquecidas pelo pasto seco.

Mesmo assim, jurei a mim própria ficar. O Alentejo tem esta coisa única de pôr tudo em perspetiva. Vendi as minhas joias, usei as minhas últimas poupanças para comprar ração, tratei das vacas, arrumei a casa Fui trabalhando, dia após dia, sem desistir. Não foi fácil, mas agora, passados doze meses, olho para as pastagens e vejo oitenta vacas a pastar debaixo do sol.

Todo o dinheiro que ganhava era em euros, claro, mas fazia cada cêntimo render como nunca. O leite começou a ser conhecido em toda a região; já havia cafés de Estremoz a pedir a nossa manteiga e o nosso queijo.

Esta semana, a Joana, uma das novas ajudantes, trouxe-me o Jornal do Alentejo. No fim, vinha lá um anúncio de camiões frigoríficos a preço de ocasião. Reconheci o número era da empresa do Ricardo. Ri-me sozinha, depois pedi-lhe que ligasse e oferecesse 5% acima do valor, mas só se ele não mostrasse os camiões a mais ninguém.

No dia seguinte fui vê-los e lá estava ele, incrédulo.

Vais mesmo comprar? perguntou-me Ricardo, atarantado.

Sim. Para a quinta. Cresceu tanto que já precisamos de transportar os nossos produtos em condições respondi-lhe, tranquila.

Ele ficou sem palavras. Agora era eu que mandava no meu destino, e, finalmente, consegui deixar o passado para trás.

O melhor é que conheci alguém especial: o João, mecânico na oficina lá do sítio, que me ajudou a devolver vida a esta terra. Juntos batizámos a nossa filha e fizemos uma festa linda, cheia de amigos e vizinhos.

O Ricardo? Soube, por terceiros, que o vejo às vezes no café, a olhar para mim à distância. Ele escolheu o caminho dele. Eu, finalmente, encontrei o meu.

Há dias em que parece tudo irreal. Os olhos enchem-se-me de lágrimas agora de alegria. Talvez, afinal, precise mesmo da paisagem do Alentejo e do cheiro a terra molhada para me lembrar que, sim, recomeçar é possível.

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Durante o divórcio, um marido rico decidiu deixar à esposa uma quinta abandonada no interior de Portugal. Mas, um ano depois, aconteceu algo que o surpreendeu completamente.
Седем дни подред мъжът ми постоянно ме унижаваше, но веднъж не се стърпях, поканих всичките му роднини у нас и направих нещо шокиращо.