«Que se lixem! Não sou criada de ninguém». O desabafo de Maria, de 52 anos, sobre os homens que conhece depois dos cinquenta

«Que se lixem! Não sou criada de ninguém». Desabafo de Beatriz, de 52 anos, sobre os homens que conheceu depois dos cinquenta

Recordo ainda hoje as conversas com a minha amiga Beatriz, uma mulher de espírito leve e sorriso fácil, que sempre soube rir da vida sem perder a esperança. Após uma década sozinha, decidiu por fim voltar ao convívio e aceitar os conselhos dos amigos experimentar, pode ser que tenhas sorte, já chega de estares sozinha. Assim começou uma nova etapa, repleta de encontros e desencontros que, se não fosse pela partilha bem-humorada, poderiam até parecer episódios de uma tragicomédia à portuguesa.

Primeira impressão: servir à mesa, ou à vida?
O primeiro encontro decorreu como tantos outros em Lisboa, num café entre o cheiro forte do bica e o pão com manteiga ainda quente. O senhor, já de cabelo grisalho, folheava o menu com ar compenetrado, como quem estuda um relatório importante. Soltou um suspiro e disse:
Sabe, não consigo viver sem uma sopa de cozido bem feita em casa.
Beatriz sorriu, achou que seria ironia. Só que logo percebeu o tom sério quando o discurso virou para a ex-mulher, que já não sabe fazer camas como deve ser, arrematando: Procuro uma senhora de mãos e cabeça arrumadas. Com ênfase nas mãos.
E ali ficou ela a matutar: em que momento o tema das camas bem feitas se tornou motivo de conversa num primeiro café?

A lista de requisitos do manual do lar
O segundo encontro começou ameno, com conversa civilizada, até o homem desatar num discurso interminável sobre o que espera de uma mulher: que saiba acarinhar, criar harmonia, ser paciente e sábia. Seria bonito, se não fosse a secura dos detalhes.
Desfiou queixas sobre tensão alta, mostrou prescrições do médico e perguntou, quase como a quem procura enfermeira a tempo inteiro, se Beatriz sabia cozinhar sopas dietéticas. Mais parecia recrutamento para técnica de saúde e chefe de cozinha, a cargo inteiro.
Falava dos sentimentos como quem lê instruções de um ferro de engomar, tudo por tópicos, zero emoção confidenciou-me Beatriz.

Nada de faíscas por ali.

A sabedoria que só serve para calar as mulheres
O terceiro candidato entrou com aquela frase que ainda hoje Beatriz recorda:
Por favor, não discuta comigo. Na nossa idade, a mulher tem que ser sempre a mais sensata.
Ela não resistiu:
E a sua sabedoria, qual é?
A resposta foi difusa, mas o recado estava dado: queria paz. Paz desse género em que a mulher sorri, acena, aquece a casa e não coloca perguntas incómodas. Onde não há espaço para igualdade, só para consentimento silencioso e fórmulas certas.
Beatriz percebeu ali: não procurava parceira, só aceitação sem reservas.

Não procura mulher, procura mãe
Na quarta vez, escusou-se o cavalheiro de subterfúgios:
Preciso de mimos, percebe? Daqueles mimos de infância, de mãe.
Foi partilhar memórias dos bolos que a mãe fazia, das meias dobradas à maneira e de que chinelos gostava nos pés. Tudo isto dito com seriedade.
Beatriz escutava incrédula. Era menos uma mulher, mais um serviço de entrega nuvem de infância, pronto a receber e reconfortar.

Entrevista de emprego em vez de romance
O quinto encontro parecia entrevista para administrativa. O candidato questionou:
Fica doente com frequência?
Tem família por perto?
O seu salário é certo?
Beatriz contou-me isto entre troça e cansaço: nunca ouviu quem és tu?, só o que podes dar-me?. Não eram encontros. Eram filtros para ver se passava nos requisitos.

E afinal, o que se passa com estes homens?
Depois do décimo encontro, Beatriz ligou-me tarde, voz resignada:
Não querem relação nenhuma. Querem segurança e conforto. Só isso.
Nada de raiva, apenas constatação.
Homens de certa idade temem ficar sós, mas temem ainda mais mudar. Só querem garantias: uma enfermeira, uma cozinheira, uma confidente, tudo em um. E que ela ainda agradeça a sorte de ser escolhida.
Quando Beatriz perguntava:
E eu, o que ganho com isto?
O silêncio era instantâneo, seguido de um espanto: Então… eu sou homem! Não chega?

São todos assim? Vale a pena esperar?
Sempre ouvi de Beatriz:
Eu sei que nem todos são iguais. Existem homens inteligentes, interessantes, generosos mas já estão todos com alguém. Já estão ocupados.
A fé não se perdeu, apenas mudou nela a forma de estar. Tornou-se mais atenta aos próprios limites.
Agora traz consigo uma regra simples: não é criada de ninguém. Não negoceia o respeito próprio. Não vai agradar a qualquer preço.
Ainda ri das histórias dos senhores de espectativas elevadas, mas é um riso firme. Não volta a viver a vida de outro por uma ilusão de proximidade.

Afinal, o que sobra?
Dez encontros não foram perda de tempo. Foram lições. E o melhor? Ensinaram-na a escolher-se primeiro.
Beatriz aprendeu a lição maior: a liberdade de ser quem se é, vale mais do que qualquer ligação fundada em serviço unilateral.
O amor não se compadece com horários. Chega, quando percebemos bem: abaixo de respeito, interesse e reciprocidade, nada serve.
Chegou o tempo de fazer escolhas diferentes. E de nunca aceitar papel de criada seja qual for a idade.

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«Que se lixem! Não sou criada de ninguém». O desabafo de Maria, de 52 anos, sobre os homens que conhece depois dos cinquenta
O meu primeiro voo como comandante de avião tornou-se um pesadelo. Depois de salvar um passageiro, o meu passado apanhou-me.