Cresci sem pais, mesmo tendo os dois vivos. Em criança, via a minha mãe Ana apenas em fotografias ou em breves videochamadas, enquanto o meu pai Paulo vivia mesmo ao lado, mas nem assim se preocupou em participar no meu crescimento.
Parecia que o meu pai evitava olhar-me nos olhos, talvez com medo que lhe pedisse alguma coisa.
Antes, guardava mágoa da minha mãe, por me ter deixado em busca dos seus próprios sonhos. Agora compreendo-a melhor.
Deve ser complicado ficar com uma filha nos braços aos dezasseis anos, sobretudo quando o pai da criança é colega de escola e teu vizinho de porta.
Ao menos, teve coragem para me ter, porque podia simplesmente não me deixar nascer. Apesar de me ter deixado bebé aos cuidados dos meus avós maternos, sou-lhe grato, pois quem sabe o que me teria acontecido se tivesse ficado com ela, que nunca demonstrou grandes instintos maternais.
Mas a verdade é que tive uma infância feliz, rodeado de mimo e carinho.
Os meus avós, Joaquim e Leonor, faziam tudo por mim, e a minha mãe enviava roupas modernas e brinquedos de Lisboa quando podia.
Depois, quando a Ana foi viver para França e casou-se com um francês, ainda começaram a chegar mais encomendas e transferências de euros.
Por vezes, parecia que ela tentava, à distância, remediar a culpa que sentia.
No meu décimo oitavo aniversário, enviou mesmo dinheiro para o meu avô me comprar um apartamento em Coimbra.
Afinal, estava a preparar-me para a universidade, e ela considerou melhor que eu tivesse um cantinho só meu em vez de ficar num quarto de residência.
Passo a passo, sem nunca me pedir nada, a Ana queria mostrar-me que tudo o que fazia era para o meu bem.
Para espanto dos avós, nunca guardei rancor à minha mãe, mas também não sentia por ela grande ternura.
Nas poucas vezes que vinha cá, toda a gente pensava que eu e a Ana éramos irmãos éramos muito parecidos e ela cuidava-se de tal forma que, aos trinta e quatro anos, parecia ter vinte e cinco.
Então, Leonor, não queres vir comigo para França? perguntava-me a minha mãe.
Não, ainda quero estudar, respondi-lhe.
Muito bem! Ai quem me dera ser tão responsável como tu. Fica com o meu novo número, qualquer coisa que precises dinheiro ou outra coisa liga-me a qualquer hora.
Obrigado, mãe. Já me deste mais do que preciso, acho que me chega para muito tempo.
Não reparei, mas à palavra mãe, ela ficou desconfortável.
A Ana nunca esteve à altura de ser mãe e até chegou a mentir ao marido francês, dizendo que estava a ajudar os pais e uma irmã mais nova em Portugal, escondendo que, na verdade, por cá deixara um filho quase adulto.
Talvez me gostasse, mas de um jeito diferente, como se gosta de família longínqua ou conhecidos.
Quando o marido a trocou por uma mulher francesa, a minha mãe voltou logo a Portugal.
Leonor, importa-se se eu ficar contigo por uns tempos?
Claro que não, mãe. Até porque eu estou de casamento marcado, e depois de casar vou viver com o António.
Casamento? Não é cedo? Acabaste agora de fazer vinte anos
Ia responder-lhe: Tu também me tiveste aos dezasseis, mas calei-me. Não quis parecer deselegante, nem lembrar-lhe assuntos antigos. Já era adulto o suficiente para decidir por mim mesmo quando e com quem casar.
Muitas vezes comparava os pais do António à minha mãe. Eles trataram-me como filha, enquanto a Ana pouco quis saber com quem eu casava.
Eu venho ao casamento, mas preciso mesmo de descansar. Vou uns dias até à Grécia.
Grécia, hein Deve ser lindo por lá O António às vezes vai lá em trabalho também. Saiu ontem para uma reunião
O casamento estava à porta e eu andava exausto com todos os preparativos.
O António prendeu-se com trabalho, demorando a regressar. A minha mãe, desde que partiu, nunca mais me falou, deixando-me sem saber o que pensar.
Uma coisa era certa: o António ia ficar radiante quando soubesse que ia ser pai!
Não planeei filhos antes do casamento, mas, visto que faltava pouco para casar, ninguém se atreveria a dizer que foi por acidente.
Enfim! Já pensei que te tinhas apaixonado por uma grega e desistido do nosso casamento!
Nada disso, meu amor. Que grega? Sabes bem que não gosto de confusões.
Na verdade ele mentia. Houve uma aventure, dessas de verão
Foi quase como um vendaval, tão rápido quanto intenso.
Que segredos são esses?! Eu? Eu estou à espera do filho do António. Já lhe disse há muito tempo para te avisar!
O quê?! Tu estás grávida do meu marido?! Isto é uma piada?!
Pareço-te alguém para brincadeiras? Conheci o António na Grécia passámos lá várias noites juntos, e acabámos juntos ainda antes do vosso casamento António, diz-lhe quão bem estivemos juntos!
Vão-se embora os dois! Saiam dos meus olhos!
Perdoa-me, Leonor. Isso nunca devia ter acontecido!
O erro foi casar-me com alguém capaz de tamanha traição!
Pedi o divórcio. Não o consegui perdoar e acabei por cortar contacto com a minha mãe.
Voltei para a aldeia dos avós, onde trouxe ao mundo um rapaz saudável.
Da minha mãe e do ex-marido, nunca tive mais notícias, nem quis saber.
Mas, um mês depois de o meu filho nascer, recebo um telefonema do Hospital dos Covões, em Coimbra:
É a filha da Ana Freitas?
Sim, aconteceu alguma coisa?
Lamentamos informar, mas a sua mãe faleceu durante o parto. Nasceu uma menina, e ligamos para saber se quer ficar com ela, senão teremos de encaminhá-la para uma instituição. Leonor, está a ouvir-nos? Vai buscar a menina ou não?
Eu Eu vou buscá-la!
Fui buscar a bebé. Não me saía da cabeça: jamais poderia virar-lhe as costas.
O António nunca quis saber da criança e culpava sempre a Ana por tudo.
Para mim, a culpa era dos dois mas, afinal, as crianças não devem pagar pelos erros dos pais.
Filhos são felicidade, são o meu maior tesouro. E tesouros, todos sabemos, nunca são demais.






