– Mas para quem és necessária? Sem dentes, estéril, sem descendentes ClaraClara, caminhando pelas ruas de Lisboa, percebeu que sua falta de dentes, fertilidade e descendentes era a chave para desvendar o mistério que a cidade sussurrava.

E pra quem serve? gritou Paulo, cuspindo ao se virar e marchando para a porta.
Ela correu até a janela e observou a figura que havia compartilhado quinze anos de vida desaparecer no corredor. Pensou que eram almas gêmeas, mas ele saiu apenas porque era conveniente.

O apartamento de Lurdes, no coração de Lisboa, era um refúgio perfeito: a casa era impecável, a dona, uma mestra da cozinha, disposta a fazer tudo por ele. Lurdes se perguntou se não deveria ter aberto a janela, gritar para que não a deixasse. Até suportaria qualquer humilhação, permitir que ele vivesse sob o mesmo teto, ainda que passasse dias fora, dividindo o tempo entre ela e outra

Era melhor que enfrentar, aos quarentaecinco anos, a solidão de uma vida abandonada. Quando já havia aberto a janela, seu olhar pousou num retrato do pai, uniformizado, que, com o queixo erguido, encarava a lente com orgulho. De repente, Lurdes sentiu uma vergonha profunda, um peso de fraqueza que a fez recuar.

Ela viu, novamente, o marido elegante, de sobretudo, subir ao carro luxuoso, rodeado de malas. Seguiu para a cozinha, passando pelo corredor onde se erguia um espelho alto, herança da avó. No reflexo, uma mulher robusta, cabelos grisalhos, olhos apagados.

Lurdes sabia que não era uma beleza de revista; a saúde falhava, os dentes rangiam, o bolso não cabia numa dentadura nova. O marido precisava de um carro novo e, no trabalho, exigia vestes caras e impecáveis.

Que absurdo! escutou sua colega Luísa. Teu Paulo está vestido como ator, e tu só com o suéter esticado, saia à moda da era jurássica, duas blusas gastas, sapatos amassados e, ao invés de botas, chinelos. O sobretudo com gola que nem minha avó ousaria usar. O cardápio que lhe impões parece de restaurante cinco estrelas: bife, almôndegas ao vapor, panquecas recheadas, carne E ainda ele sai assim? Não dá pra ficar assim, amiga!

Lurdes escutou, mas fez à sua maneira. O marido então anunciou que partia para viver com uma jovem de vinte e sete anos, mãe de quatro filhos.

Ela é jovem, suspirou Lurdes depois.

A colega, também amiga, vasculhou as redes sociais, interrogou vizinhos e soltou:

Não dá pra colocar nenhum teste nessa mulher! Chamou-te de estéril! Tu vens de família nobre, mas cá está tudo ao fundo! Nunca trabalhou um dia. Todos os filhos de diferentes homens. No oitavo mês nem secou. A mãe é ainda mais imoral. Melhor calar sobre a juventude. Dizem que aos homens agrada a leveza, mas família não se constrói só com isso. Surpreendeu o teu Paulo. Segura-te!

Lurdes segurou-se. Herdara do pai um apartamento espaçoso no centro da cidade. O pai, como que pressentindo algo, organizara tudo de modo que Paulo nunca tivesse direito a metros quadrados. Lurdes decidiu alugar um quarto para aliviar as contas.

Na vizinhança, obras novas surgiam. Um engenheiro apareceu: barba aparada, sorriso amável, muito educado. Chamavase Vítor Sousa. Olhou atentamente para Lurdes e disse, de repente:

Deixe-me pagar adiantado! Vá, faça os dentes. Você é uma senhora bela, não se torture!

Lurdes ficou estupefata. Não se considerava formosa, mas precisava resolver os dentes. Vítor ofereceu mais dinheiro, prometendo que ela devolveria depois, se quisesse. Então chegou o irmão dele, um homem de jaqueta canarinho, calças violeta e penteado extravagante.

Chamome Carlos, sou estilista apresentouse.

Carlos ficou sob a guarda do irmão e, enquanto Lurdes servia tortas aos hóspedes, propôs mudar sua imagem. Ele cumpriu: cabelos iluminados, maquiagem que realçou traços delicados, dentes alinhados. Passou a caminhar até o trabalho sem precisar de carro; os quilos a mais sumiram, e ela começou a correr ao amanhecer no parque. Transformouse numa mulher doce, sorriso suave, covinhas nos cantos da boca, como uma borboleta que emerge de um casulo discreto.

Um dia, o telefone disparou. O vizinho atendeu e gritou:

Lurdes, tem alguém à porta!

Na soleira, apareceu o exmarido. Lurdes mal o reconheceu; Paulo havia envelhecido num ano, pálido, magro, desorientado. O brilho dos olhos havia sumido. Ao lado, malas empilhadas.

O que queres? perguntou Lurdes.

Lembravase de tentar ligar para ele no início, mas ele não atendia e acabou colocandoo na lista negra. Agora, ele estava ali.

Que mudança! exclamou Paulo, admirado.

Os elogios de Paulo não mexeram em Lurdes. Ela recordava noites sem sono, contas a acertar, lágrimas intermináveis, pânico.

Lurdes, eu sofri tanto! Essa hora só me tirou dinheiro. Os filhos pareciam normais, depois indisciplinados, gritando o tempo todo, sem querer mudar. Vivem no telefone, não cozinham. Compraram-me uns dumplings, fizeram macarrão! Imaginas? Macarrão! As roupas lavadas todas juntas, elas desbotaram. Eu não comprei nada para mim, gastei tudo neles. Sintome como se estivesse num manicômio. Lurdes eu ainda te amo. Quero recomeçar, tá? implorou ele.

Mas nos ouvidos de Lurdes ecoou a frase que ainda lhe martelava:

E pra quem serves? gritou Paulo, a voz amarga. Sem dentes, sem filhos, estéril.

Lurdes olhou novamente para o exmarido, quando as portas se abriram. Surgiu Vítor, preocupado, com a mesma voz:

Lurdes! Precisa de ajuda? O que há, senhor?

Paulo se ergueu e gritou:

E quem é você?

Sou o marido, Vítor. Não volte aqui! Lurdes fechou a porta na cara de Paulo, que ficou boquiaberto.

Ela pediu desculpas ao vizinho. Vítor suspirou e, com firmeza, disse:

Chegou a hora de esclarecer tudo. Amote, Lurdes! Como pude abandonar uma mulher tão incrível? Casa comigo de verdade.

Ele, manca, seguroua. Em dois meses, o homem inundoua de rosas, compraram uma casa de campo. Lurdes raramente percebe o exmarido observandoa da esquina, murmurando, arrependido por ter trocado uma pessoa boa por um vazio.

No fim, Lurdes e Vítor caminham de mãos dadas pelas ruas de Lisboa, felizes e apaixonados, aguardando a chegada de um filho.

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– Mas para quem és necessária? Sem dentes, estéril, sem descendentes ClaraClara, caminhando pelas ruas de Lisboa, percebeu que sua falta de dentes, fertilidade e descendentes era a chave para desvendar o mistério que a cidade sussurrava.
O Sabor da Liberdade – Terminei as obras cá em casa no outono passado – começou Vera Ignátia, sorrindo. Passámos meses a escolher papéis de parede, a discutir o tom dos azulejos da casa de banho e a recordar, com carinho, como há vinte anos sonhávamos com este nosso T3. – Pronto, agora está tudo, – disse o marido, radiante na celebração do fim das obras – até já podemos casar o nosso Manel! Ele traz cá a mulher, os filhos vêm a caminho, e a casa finalmente transforma-se num lar animado e cheio de vida. Mas os sonhos não se realizaram. A nossa filha mais velha, Catarina, voltou para casa com duas malas e dois filhos. – Mãe, não tenho para onde ir – disse, anulando todos os nossos planos. Demos o quarto do Manel aos netos. Ele não se queixou, só encolheu os ombros: – Não faz mal, logo terei o meu. “O meu” era o apartamento da minha mãe, onde também se fez reforma há pouco tempo e que alugávamos a uma jovem família. Cada mês entrava uma modesta, mas preciosa, mesada – aquele “pé-de-meia” para quando eu e o meu marido já não pudermos cuidar um do outro. Um dia vi o Manel com a namorada, Leonor, de mãos dadas, de olhos no céu, a falar sobre aquela casa. Percebi logo as intenções, mas deixei correr. Até que um dia ouvi: – Dona Vera, o Manel pediu-me em casamento! Já encontramos o salão! Imagine: há uma carruagem verdadeira! E uma harpa! E um terraço de verão! Os convidados vão poder passear no jardim… – E depois, onde vão viver? – não resisti, – tal casamento deve custar um balúrdio! Leonor olhou para mim, como se eu tivesse perguntado pelo tempo em Marte. – Ficamos cá por uns tempos. Depois… logo vemos. https://clck.ru/3RKgHm – Aqui, – disse eu devagar –, já mora a Catarina com os filhos… Fica um hostel, não uma casa. Leonor fez beicinho. – Pois. Aqui não vale a pena. Vamos mesmo a um verdadeiro hostel. Pelo menos aí, ninguém se mete na nossa vida. Aquela frase tocou-me. Alguma vez me meti? Só queria evitar asneiras… Depois ainda tentei falar com o Manel: – Filho, para quê essa extravagância? Casem-se no civil, usem o dinheiro no sinal de uma casa! – A voz falhou-me… O Manel olhou pela janela, rosto fechado. – Mãe, então porque celebram vocês o aniversário de casamento sempre no “Dragão Dourado”? Podiam ficar em casa, ficava mais barato. Calou-me. Sorriu, malicioso: – Vocês têm a vossa tradição. Nós queremos a nossa. Comparou o nosso jantar de família, de cinco em cinco anos, à festa deles, meio milhão de euros! No olhar do Manel vi julgamento. Chamou-nos hipócritas. Esqueceu que ainda pagamos a prestação da carro dele. Nem sonha com o nosso “pé-de-meia”. E agora quer casamento, e dos caros! No fim, ele e a Leonor ficaram magoados. Principalmente porque não cedi a chave do apartamento da avó. *** Certa noite voltava a casa num autocarro quase vazio e vi uma mulher cansada refletida no vidro, com medo nos olhos. De repente, percebi: tudo o que faço é por… medo! Medo de ser peso morto. Medo de ser abandonada pelos filhos. Medo do futuro. Não nego o apartamento ao Manel por mesquinhice, mas por medo de não me sobrar nada. Obrigo-o a desenrascar-se, pago-lhe a vida por receio que falhe e fique desiludido. Quero que cresça, mas trato-o como a criança que não entende nada. Só querem começar a vida com pompa. Carruagem e harpa. É fútil, sim, mas têm direito. Se for com dinheiro deles! Primeiro, falei com os inquilinos – pedi que procurassem casa rapidamente. Um mês depois liguei ao Manel: – Venham cá. Vamos conversar. Chegaram desconfiados, prontos para discussão. Eu servi chá e… pus as chaves da casa da avó em cima da mesa. https://clck.ru/3RKg9f – Levem. Não façam festa: não é presente. Fica à vossa disposição por um ano. Nesse tempo, decidam: ou pedem empréstimo, ou ficam, mas noutras condições. O valor das rendas perco, mas pronto. É uma aposta. Não na vossa boda. No vosso futuro como família, não como vizinhos do refeitório. Leonor arregalou os olhos. O Manel olhou as chaves, sem saber o que fazer. – Mãe… e a Catarina? – Também há surpresa para ela. Vocês já são adultos. Agora a vida é vossa responsabilidade. Não somos o vosso colchão nem a vossa carteira. Só pais. Amamos, mas não salvamos. O silêncio foi ensurdecedor. – E o casamento? – perguntou Leonor, pela primeira vez incerta. – Casamento? – encolhi os ombros –, não sei. Façam como quiserem. Se arranjarem dinheiro para uma harpa, tenham harpa. *** O Manel e a Leonor foram-se embora, e eu fiquei com medo. Medo de que não resultasse, de que nunca me perdoassem. Mas pela primeira vez em anos respirei fundo. Porque finalmente disse “não”! Não a eles. Aos meus próprios receios. E deixei o meu filho partir para a vida adulta, livre, difícil e independente. Seja como for… *** Agora o olhar do Manel. Sonhávamos com um casamento de sonho. Mas a separação da minha irmã deitou tudo por terra. Quando a mãe disse que gastar num casamento de luxo era absurdo, senti-me derrotado. – Então porque vão sempre ao restaurante no aniversário de casamento? – disse, a magoar. – Ficavam em casa, era mais barato! Ela empalideceu. Era essa a intenção. Fiquei magoado. Sim, ofereceram-me um carro. Mas eu nunca pedi nada! Agora lançam-me à cara a prestação. Não pedi! Fizeram, agora aguentem. Fizeram obras no apartamento, diziam que era para nós. Mas afinal já não podemos lá viver. O apartamento da avó… é um “bem sagrado”, mais valioso que o casamento do filho! E agora? Como mostrar ao mundo – e a nós próprios – que somos uma família? Leonor, envergonhada, disse: – Manel, não te posso dar nada. Os meus pais não podem ajudar. Têm empréstimo. – Tu dás-me a ti – respondi, tentando confortá-la. No fundo, irritado. Não com ela. Com a injustiça. Porque é tudo à custa dos meus pais? Porque ajudam com má cara, como se cada euro lhes tirasse anos de vida? Esse tipo de ajuda sabe a culpa, não aquece o coração. Nunca conversámos abertamente com os pais: “Mãe, pai, percebemos o vosso medo. Como avançar unidos sem vos despedaçar?” Não. Só esperamos que adivinhem e realizem os nossos desejos, sempre sorridentes, sem condições. Como em pequenos. – E o casamento? – Leonor perguntou, nervosa. – O vosso casamento? – encolheu os ombros –, se conseguirem dinheiro para harpa, tenham harpa. Saímos. Eu rolava as chaves no bolso. – E agora? – perguntou a Leonor. Não sobre a casa. Sobre, mesmo tudo. – Não sei – admiti. – Agora é connosco… Nesse peso assustador da responsabilidade, senti uma liberdade nunca antes vista. O primeiro passo era este: será que mesmo queremos tudo isso, carruagem e harpa? Tradições são importantes, mas têm de se construir sobre algo mais do que um dia especial… *** E então? A vida a dois do Manel e da Leonor começou logo no dia seguinte. Finalmente juntos! Vivem num T1 simples. Não é deles, mas é só para eles. Obras recentes. Só que… ninguém os incomoda! No início, casa cheia de amigos! Como não? Liberdade! Depois, passado um mês, veio a vontade de um cão – e dos grandes! A Leonor sempre sonhou com um, nunca teve: a mãe não deixava. O Manel já tivera um – mas fugiu ainda no tempo da escola. Uma tragédia para ele… Assim, o elo do sonho entrou pela porta: um simpático labrador chamado Mercedes. https://clck.ru/3RKgGM Esse filhote fez das suas. Rasgar cantos, roer pernas da mobília, fazer disparates… por todo o lado. Quando Vera Ignátia veio visitar, ficou pasmada: nem sabia do novo morador. – Manel! Leonor! Como puderam?! Nem avisaram! – quase chorou, a olhar a casa – e para quê? Um cão destes é preciso vigiar, e está sempre sozinho! Claro que estraga tudo. Tantos pelos! Nem limpam? E o cheiro! Não dá! Têm de devolver o cão! Amanhã mesmo! – Mãe, – saiu seco do Manel, – afinal deste-nos a casa por um ano. Agora vais controlar-nos também? Queres as chaves de volta? – Nem pensar – exclamou Vera Ignátia –, dou minha palavra. Um ano é um ano. Mas têm de devolver a casa tal como receberam. Percebem? – Sim, – concordaram ambos. – Até lá, não me chamem. Não quero ver isto. *** A mãe cumpriu. Não apareceu. Mal ligava. Passados quatro meses, o Manel voltou para casa: a relação acabou. Contou tudo – ela era péssima dona de casa, não sabia cozinhar, não cuidava do cão. Tiveram de devolver o Mercedes ao criador, e com um saco de ração para três meses, como foi pedido. E isso custa dinheiro! – Apressaste-te com a Leonor, filho? – perguntou Vera Ignátia, disfarçando um sorriso – queriam casamento com carruagem e harpa… – Casamento, mãe?! Por favor! Podes alugar outra vez a casa da avó. – Para quê? Não queres lá morar, já te habituaste? – Prefiro aqui, em casa – abanou a cabeça – ou és contra? – Sempre a favor, – respondeu Vera Ignátia –, ainda por cima, desde que a Catarina saiu com os miúdos, voltou a reinar o silêncio…