Querido diário,
Hoje acordei com as articulações a latejar e os tornozelos tão inchados que mal conseguia virar-me na cama. Sinto-me exausta de consultas, de exames, de farmácias. O cansaço do corpo pesa mais quando se atravessa tudo sozinha. Nunca me casei, e o meu filho nasceu de um amor antigo, intocado pelo tempo e pelo destino.
E, de repente, um toque impaciente na campainha interrompeu o silêncio da manhã. Arrastei-me lentamente até à porta e ali estavam: o meu filho Tiago, a nora Filipa, o meu neto Simão, de apenas quatro anos, e um enorme cão de ar bondoso.
Mãe, prometemos que vai ser rápido. Temos de tratar de uns assuntos em Lisboa e não fazia sentido arrastar o Simão e o cão atrás. Só vão ficar uns cinco dias! explicou Tiago, apressado.
Mas eu mal ando, mal posso tentei argumentar, já sentindo o coração apertado.
Sabemos, mas não havia outra solução. Nem pensar em levar a criança e o cão para o velório da minha mãe, disse Filipa, e desfez-se em lágrimas.
Simão começou a chorar também e o cão, que descobri chamar-se Tremoço, baixou as orelhas, triste. Olhei para aquelas caras pequeninas e soube que não me podia negar. Haja força, Senhor! Eles precisam de mim agora.
A doença apanhou-me há quase seis meses. Só tenho sessenta anos, mas já conheço bem a cena comum dos velhotes apoiados em bengalas pelas ruas de Cascais. O corpo falha quando menos se espera. E a sogra da Filipa foi-se cedo demais. Tão nova ainda Enquanto refletia, Tiago e Filipa já tinham saído e só restávamos nós os três.
Simão aninhava-se no grande Tremoço, que o lambia de mansinho. Suspirei.
E esse cão não morde? Parecia mais sensato escolherem um caniche! O que é que ele é?
É um bulldog inglês, avó! E é muito meiguinho. Chama-se Tremoço porque adora tremoços! explicou o Simão, cheio de orgulho, alisando-lhe o pelo.
E tem de ir à rua, certo? perguntei, já sentindo o corpo a protestar.
Eu apenas tive uns gatos, há muitos anos, mas o coração cedia rapidamente à pena que sentia pelos outros.
Tinha o coração apertado pela perda da sogra da Filipa, mas não fazia ideia de como ia dar conta de um neto tão espevitado e de um cão daqueles, com as dores todas que carrego.
Avó, Tremoço come carne e arrozinho! E tem de ir à rua! Vá, vamos! insistiu o Simão, calçando sozinho as botas.
Saí de casa sem me lembrar como, com Simão a puxar-me pela mão e a entregar-me a trela. Não punha o pé fora à dias, mas hoje não havia como recusar. As lágrimas corriam-me pelo rosto, mas continuei. Rezei baixinho, pedindo forças; só eu restava para cuidar daquele menino e daquele cão.
Tremoço acompanhava-nos tranquilo. Não me deu um único puxão, nem sequer olhou para os outros cães do bairro. A certa altura, passei pelas vizinhas na praceta, ávidas de novidades.
Então, Teresa? Agora com visitas? Dizias que estavas tão doente! Como fazes com uma criança e um bicho desses? Os teus que te largaram aqui um peso! intrometeu-se dona Gina, sempre tão despachada.
Senti o Simão agarrar-me com força, e até o Tremoço pareceu reprová-las.
Fiquem sossegadas! Pedi expressamente ao Simão que viesse, estavam a precisar de apoio. O cão é de raça, campeão de exposições! declarei, erguendo-me com uma confiança que já não sentia há meses. E vão calar-se, sim? Só sabem falar dos outros! Minha família foi a Lisboa acompanhar a minha consogra na sua última viagem. Não a descansar!
No elevador, abracei o Simão.
Não ligues, querido. A avó está sempre à tua espera.
Ele olhou-me com lágrimas nos olhos.
Avó tu prometes que não sobes para o céu como fez a avó Irene? O pai e a mãe disseram que ela foi viver lá para cima. Mas agora só tenho a ti. Não vás embora, está bem?
Fiquei com o coração em pedaços. Oh, meu amor! Não chores! Não vou para lado nenhum! Ainda te vou buscar à escola, à faculdade, esperar pelo regresso da tropa, tudo! Sempre contigo, Simão! jurei, apertando-o nos meus braços.
Mesmo cansada, preparei-lhes o jantar e, não sei como, ainda fui ao mini-mercado. Ao fim do dia, levei o Tremoço à rua mais uma vez. Dormiam ambos profundamente, e deixei-os assim enquanto ia buscar os medicamentos tudo doía, mas não podia parar. Lembrava-me do choro do Simão, do medo de ficar sozinho.
Rezei. Senhor, dá-me só um pouco de alívio, por ele, não por mim. Só para não o deixar desamparado.
Na manhã seguinte, brincámos com carrinhos reparei que estava sentada no chão com ele, coisa que não fazia há mais de uma década. Cozinhámos juntos o arroz do Tremoço. No final do dia, dei por mim a beijar o cão, a rir das suas tropelias pelas poças de água.
Simão, porque lhe chamam Tremoço?
O pequeno riu-se e explicou-me:
Porque ele adora tremoços! No início tinha um nome inglês, mas Tremoço é muito mais engraçado!
Os dias voaram. Lemos histórias, o Simão ensinou-me a ver desenhos animados no tablet, já junta letras, já faz palavras! E o Tremoço sempre por perto a pedir gelados ou queijo.
O Tiago telefonou, preocupado:
Mãe desculpa por te impormos isto, mas não te podíamos deixar sem alternativa. Aguentas-te? Como tens estado?
Está tudo ótimo! Fiquem lá descansados. Apoia a Filipa, agora ela precisa muito de ti. Aqui cá me desenrasco, sou avó, não é? respondi, com a energia que nem sei de onde vinha.
Quando voltaram, imaginei-os preocupados com o meu estado. Mas, quando chegaram ao bairro, lá estava eu no jardim, desajeitada, a correr atrás de uma bola, o cão e o neto atrás de mim a rirem-se.
Na despedida, o Simão agarrou-se a mim, chorou sentido.
Calma, querido! Dentro de duas semanas é a tua vez de me receberes! Vamos passear à beira-mar, comer bolas de Berlim! Espera por mim, está bem? prometi, pegando-lhe ao colo, orgulhosa de ser ainda capaz.
Mãe! Ele é pesado! protestou Tiago.
Bah, faz parte! Até já, Simão! Até já, Tremoço! Daqui a pouco estou cá de novo, vamos correr outra vez!
Sou a Teresa Maria, a vizinha da porta ao lado, e esta é a minha história. Vi-me a definhar mas com amor e necessidade de cuidar, renasci. Quando a dor aperta, penso neles. Não há remédio melhor do que sabermo-nos necessários.
Sei que posso cair de novo, mas enquanto houver alguém que dependa de mim um neto, um filho, um cão até tenho sempre força extra para me levantar e viver mais um dia.
Por isso, peço: não se deixem ficar! Os netos, os filhos, até os animais todos precisam de nós. E nós deles! Há milagres que as farmácias nunca podem vender. Só o amor faz verdadeiros milagres.
Se puderem, partilhem as vossas histórias. É assim que também eu ganho ânimo para continuar.







