Esta manhã, uma jovem de 18 anos chamada Filipa deu à luz uma menina. Mal nasceu a bebé, Filipa escreveu um pedido, chamou um táxi e deixou a maternidade de Lisboa sem olhar para trás. Mal sabia ela qual seria a surpresa à espera da pequena recém-chegada
Quando eu e o meu marido Tiago chegámos ao hospital no final do dia, já meio esgotados com as contrações, sentíamos no peito aquela alegria e nervoso miudinho da chegada do nosso quarto filho. A nossa família já era um mini-clube: em cada divisão da casa, uma criança a correr ou a gritar.
É preciso dizer que os nosso segundo e terceiro filhos são gémeos coisa rara na família, e que nos pregou um grande susto (e uma despesa extra em fraldas!). Desde aí, sempre que engravidava, lá vinha a piada: E se vierem gémeos outra vez?. Os meus pais, quando souberam, quase compraram logo stock de bodys e biberões! Foram uma ajuda preciosa quando nasceram.
No segundo ecografia desta gravidez, porém, lá nos deram a notícia: desta vez vinha só um, fiquem descansados. Suspirámos de alívio e, vá, um bocadinho de desilusão.
O nosso quarto ninja chegou então sozinho ao mundo e, logo após o parto, fomos instalados num quarto particular, que o Tiago já tinha pago cuidadosamente (e chorado os euros, claro, porque em Portugal não se brinca com cotas hospitalares).
Algumas horas depois, trazem-me a bebé para amamentar. Quando menos espero, entra o director do serviço, com aquele ar de quem vai anunciar que acabaram as natinhas na cantina, e diz: Olhe, temos aqui um pequeno problema.
A tal Filipa, de 18 anos, acabara de ter a bebé, assinou o papel a abdicar da menina e desapareceu num táxi, sem cerimónias. Nem a costura a impediu de fugir não ficou mais um minuto do que era obrigatório. Tivemos de a deixar ir.
A menina nasceu saudável, linda como todas as recém-nascidas (mesmo com aquela cara enrugada digna de avó de Trás-os-Montes). Fiquei a pensar: Ó Leonor, tanto sonhaste com gémeos E se ficasses com esta pequenota?.
Podemos sempre fingir que foste tu que a tiveste, ninguém nota… brincou a enfermeira-chefe, a Dona Amália, que eu conhecia já do café da esquina.
Mas eu não quero que a menina acabe num lar de crianças. Como vai ser a vida dela? Parte-me o coração… Claro que não era legal nem recomendável, mas o coração às vezes fala mais alto que a lei.
O processo de adoção formal pode ser iniciado, mas sabe-se como é em Portugal: papelada, reuniões, meses de espera e nenhuma garantia de que pode ficar mesmo com a criança. E enquanto isso, a bebé teria de ficar num instituto.
Fiquei de rastos. A Dona Amália, sempre atenta e com um coração maior que a sala de espera, já me apontava caminhos e fazia perguntas, mais por compaixão que por protocolo.
Enfim, a jovem mãe escolheu sair sozinha do hospital, deixando uma bebé saudável que só precisava de braços e leite. Adotar por vias legais não é rápido, nem fácil.
Esta história, com todos os seus altos e baixos dignos de novela portuguesa, mostra que o nascimento de uma criança é sempre um acontecimento, cheio de ansiedade, esperança e, às vezes, muitas voltas inesperadas. Mas lembra-nos também que precisamos de humanidade especialmente nos dias difíceis.
No fundo, estas histórias são lembretes de como a vida pode ser delicada, difícil mas, acima de tudo, cheia de possibilidades para aqueles que não desistem de cuidar. Porque, vá, se não formos nós a tomar conta uns dos outros, quem será?







