Perdoa-me, filho.
Esta é a história de uma família desestruturada, como se dizia por cá antigamente. A mãe criava o filho sozinha, sem marido, pois se separara quando o miúdo ainda mal fazia um ano. O tempo passou, agora o filho já contava catorze anos, ela tinha trinta e quatro e trabalhava de contabilista numa repartição pequena ali num bairro de Lisboa.
O último ano foi um tormento. Até ao quinto ano, o Rodrigo ia tendo boas notas, mas depois vieram os suficientes, e a seguir piorou. Ela só queria uma coisa: que o Rodrigo acabasse, pelo menos, o nono ano e aprendesse um ofício qualquer!
Era raro o dia em que não era chamada à escola. As reuniões com a diretora de turma eram de cortar o coração falava-lhe duramente, muitas vezes à frente dos outros professores, que aproveitavam logo para relatar as traquinices e as más notas do Rodrigo. A Ana saía de lá sem forças, sentindo-se incapaz de mudar fosse o que fosse. Os ralhetes dela ele ouvia em silêncio e de sobrolho franzido. Os trabalhos de casa continuavam por fazer, nem sequer ajudava nas tarefas lá de casa.
Nesse dia, ao chegar a casa, tudo estava de novo desarrumado, apesar de ter sido bem clara ao sair de manhã: Quando vieres da escola, arruma a casa! Colocou o bule em cima do fogão e, cansada, lá começou a pôr a ordem possível. Ao limpar o pó, reparou que já não estava ali a jarra de cristal aquela que as amigas lhe tinham oferecido no aniversário, única coisa de valor que tinha! Ficou gelada. Teria o Rodrigo levado? Teria ele vendido?
Os pensamentos sobrepunham-se, cada um mais terrível que o anterior. Ainda há pouco tinha-o visto com um grupo de rapazes de ar duvidoso. Quando perguntou quem eram, ele disse qualquer coisa incompreensível, com uma expressão no rosto clara de isso não é da tua conta!. Aquela companhia só podia trazer desgraça, pensou cheia de ansiedade. Deus me livre, e se lhe puseram ideias na cabeça? E se se meteu noutras coisas? Fugiu escadas abaixo. Já era noite no largo do bairro, poucas pessoas apressavam-se na rua.
Voltou para casa devagar, mergulhada em culpa: A culpa é minha só minha! Aqui em casa já nem tem sossego até de manhã o acordo aos gritos! E à noite, é sempre a ralhar Meu querido filho, que mãe te calhou! Chorou muito tempo, depois atirou-se a arrumar com afinco não conseguia ficar sentada sem fazer nada.
Ao limpar atrás do frigorífico, encontrou um jornal amarrotado. Puxou-o ouviu-se o tinido do vidro e dali saíram pedaços da velha jarra de cristal, embrulhados cuidadosamente.
Teria partido? Teria! E sentiu um nó no peito, mas agora lágrimas de alívio caíram-lhe. Ou seja, ele partira a jarra e, envergonhado, escondera os cacos não os levara para lado nenhum. E, com certeza, não volta para casa de vergonha. E pensou: Não, ele não é nenhum tolo! Se eu tivesse visto os pedaços, se calhar só teria feito mais um escândalo Suspirou fundo, preparou o jantar com outra disposição, colocou a mesa, estendeu as toalhas e dispôs os pratos com carinho.
O Rodrigo só apareceu quase à meia-noite. Parou na porta, calado. Ela correu para ele: Rodriguinho, onde estiveste tu tanto tempo? Estava preocupada, estava desesperada! Vens gelado! Pegou-lhe nas mãos frias, aqueceu-as entre as dela, beijou-o na face e disse: Vai lá lavar as mãos fiz o teu prato preferido. Sem perceber nada, ele lavou as mãos e foi para a cozinha.
Mas a mãe, dessa vez, disse-lhe com ternura: Hoje servimos na sala. Ele entrou e achou tudo mais arrumado e bonito do que nunca, sentou-se com cuidado. Come, filho! disse-lhe a voz suave da mãe. Já nem se lembrava da última vez que ela falara assim com ele. Sentou-se, de cabeça baixa, e não tocou em nada.
Então, filho?
Ele ergueu a cabeça e, com a voz a tremer, disse:
Fui eu que parti a jarra.
Eu sei, filho respondeu ela. Não faz mal. Tudo se parte, um dia.
De repente, Rodrigo deixou cair lágrimas sobre a mesa. Ela chegou-se a ele, abraçou-lhe os ombros e também chorou baixinho. Quando se acalmou, ela disse:
Perdoa-me, filho. Grito contigo, passo-me. Tenho tido dificuldade, a vida está dura. Achas que não vejo que andas menos bem vestido que os teus colegas? Ando exausta, cheia de trabalho, até trago trabalho pra casa. Perdoa-me, juro que nunca mais te faço sentir mal!
Jantaram em silêncio. Foram dormir sossegados. Na manhã seguinte, ele levantou-se sozinho, sem ser preciso chamá-lo. Quando saiu para a escola, ela não disse vê lá se…, deu-lhe um beijo e murmurou: Até logo à noite!
Nessa noite, ao regressar, encontrou o chão limpo, o jantar pronto o Rodrigo tinha feito batatas fritas.
Desde então, proibiu-se de lhe falar de notas ou da escola. Se para ela era penoso ir ali de vez em quando, imagine-se para ele.
Quando um dia o filho anunciou que, afinal, queria entrar no décimo ano, não revelou as dúvidas. De vez em quando, espreitava o caderno já não via lá negativas.
Mas o dia que nunca esqueceu foi aquele em que, depois do jantar, abriu os cadernos de contas e o Rodrigo sentou-se ao lado dela, dizendo: Deixa-me ajudar-te, mãe. Depois de quase uma hora, sentiu a cabeça dele repousar-lhe no ombro.
Ficou imóvel. Já em pequeno, ele gostava de a ter por perto, cansado acabava por adormecer no seu colo. Percebeu então: tinha recuperado o seu filho.







