Contas Erradas — Quando a Irmã Mais Nova Rouba o Marido, Mas Esquece Quem é Dona da Casa

Beatriz vai cá passar hoje, por volta das sete. Não te importa, pois não?

Helena deixou a escova de cabelo no toucador e virou-se para o marido, que lutava com o comando da televisão. Maurício assentiu, os olhos colados ao ecrã.

Claro. Que venha.

Helena esboçou um sorriso e voltou para junto do espelho. Sentia-se afortunada por o marido e a irmã se darem tão bem. Beatriz aparecia muitas vezes, às vezes duas ou três vezes por semana, ficando sempre até tarde, enchendo o apartamento com gargalhadas, mexericos e pequenas discussões animadas. Helena ouvia-os debater a última novela ou trocar argumentos sobre política e sentia-se como uma espectadora privilegiada da sua própria vida perfeita. Marido dedicado, irmã querida, família forte. Como nos filmes, mas real.

Às vezes, uma comichão pequenina perturbava-lhe a alma. Coisas parvas, pensamentos passageiros. Como Maurício se inclinava para Beatriz, ouvindo uma das suas histórias do escritório. Como a irmã roçava no ombro dele ao rir de uma piada. Como cochichavam na cozinha, calando-se logo que Helena entrava. Ela afastava esses pensamentos como se fosse pó debaixo do tapete. Parvoíces. Era a Beatriz, sangue do seu sangue, a irmãzinha protegida desde a escola. E Maurício, o seu Maurício, companheiro de cinco anos. Estavam quase a celebrar o aniversário de casamento.

…Nessa tarde fatídica, Helena saiu do trabalho mais cedo. Tinha em mente comprar ingredientes para o jantar especial, queria que a noite seguinte fosse inesquecível.

A chave girou na fechadura sem resistência. Helena entrou no hall e imobilizou-se. O silêncio do apartamento era estranho, viscoso, como se o ar tivesse ganhado densidade. Da sala vinha um rumor abafado.

Pé ante pé, avançou pelo corredor, empurrou a porta e estacou à soleira.

Beatriz estava sentada na sua poltrona. Com a pose de quem pertence ali desde sempre. Maurício estava de costas à janela; ao vê-la, virou-se ainda mais, tentando esconder-se dentro da ombreira.

Que acontece? Helena forçou um sorriso, mas a boca não a obedecia. Alguma coisa se passa?

Beatriz ergueu os olhos. Helena quase não reconheceu nela a sua menina delicada, sempre hesitante, sempre pedindo conselhos, chorando-lhe no ombro nas desilusões de namoro. Ali estava outra mulher, estranha, olhar de mármore, quase vitoriosa.

Acontece sim. Estou grávida do teu marido Beatriz disse, numa serenidade tétrica. Vai preparando as tuas coisas, que eu vou ficar cá agora.

Passou uma mão pela barriga ainda lisa, mal visível sob a camisola larga.

Helena não se mexeu. Ouviam-se buzinas distantes em Campo de Ourique. Na casa ao lado, a televisão articulava sons insensíveis ao drama. O mundo continuava, mas ela não conseguia respirar.

O quê? murmurou, rouca, partidas as palavras.

Ouviste bem. Beatriz recostou-se, olhos de lontra satisfeita. Maurício e eu já decidimos tudo. Já não dá para fingir, chega.

Helena olhou para o marido. Maurício continuava a fugir-lhe, encurvado, as mãos crispadas na pedra do parapeito.

Maurício… Arriscou aproximar-se. Olha para mim.

Virou-se por fim. Nos olhos, nem arrependimento, nem vergonha. Só cansaço e um alívio assustador.

Lena… Encolheu os ombros. As coisas dão-se assim, desculpa.

“Dão-se assim”? Era como se falasse do fundo dágua. Cinco anos, Maurício, as coisas dão-se assim?

Vamos deixar de teatros impacientou-se Beatriz. Já somos todos crescidos. O amor acaba, faz parte. Agora temos o nosso, Maurício e eu.

Mauricinho. Chamou-lhe Mauricinho, tal como Helena fazia nas noites quentes do verão.

Há quanto tempo? Cada sílaba custou a sair.

Beatriz olhou para Maurício e encolheu os ombros, num sorrisinho seco.

Um ano, ou coisa parecida. Que interessa isso?

Um ano. Todas aquelas noites em que Beatriz ficava até tarde. Todas aquelas piadas cúmplices na cozinha. Todos aqueles olhares, que Helena pensou serem de carinho familiar.

Pensei que fosses minha irmã. E agora o tom saía-lhe firme. Pensei que me amavas.

Amo, sim. Beatriz deu de ombros, desdenhosa. Mas amo-me mais. E ao Maurício. Tu sempre foste certinha demais, Lena. Dás sono, percebes?

Helena atirou-se a Maurício, agarrou-lhe a camisa, obrigando-o a encará-la.

Diz que ela está a mentir! Diz que isto é uma brincadeira de mau gosto!

Maurício tentou afastar-se, mas Helena segurou-o ainda mais forte.

Lena, larga… tu sabes…

Não sei nada! Helena empurrou-o contra o peitoril, trementes as mãos. Cinco anos! Por ti, recusei aquele emprego em Braga, cuidei da tua mãe no hospital, tu…

A mão de Helena apalpou o sofá, apanhando uma almofada que voou, falhando Maurício por pouco.

Dormiste com ela na nossa cama! Malvado!

Chega, Lena, estás a perder o juízo! Beatriz ergueu-se, ajeitando devagar a blusa. Que fúria é essa? Parece que não és tu.

Helena agarrou uma moldura da prateleira: uma fotografia das três no último Natal, abraçadas junto ao pinheiro, ela rindo de felicidade por ter família.

Fui eu que te criei! Atirou a moldura, que explodiu vidro contra a parede. Fiz-te os trabalhos de casa enquanto a mãe trabalhava noites! Defendi-te dos rufias lá do bairro! E retribuis assim?

Outra vez esse drama, Beatriz bufou. Já ouvi essas histórias. O Maurício sempre gostou das mais novas e tu só estavas ali porque tinha pena de ti. Ao menos eu sou honesta, não andei a cochichar nas tuas costas.

Honesta? Helena soltou uma gargalhada aguda que fez Maurício estremecer. Um ano de mentiras, e é honestidade?

Agarrou a pesada taça de cristal presente da sogra na mudança de casa e levantou-a:

Lena, deixa isso! Maurício saltou para a travar, mas foi tarde demais.

A taça desfez-se no aparador, copos a voar em estilhaços pelo chão.

Isto é só o começo arfava Helena, suores a escorrer na testa. Nem sequer sabem o que está para vir.

Avançou para o móvel, derrubando álbuns, bonecos de porcelana, os souvenirs de viagens com Maurício.

Helena, pára! Maurício tentou segurar-lhe o braço.

Não me toques! Não voltes a tocar-me, jamais!

Beatriz recuou para a porta; pela primeira vez, o desassossego dança-lhe no rosto.

Olha, sentemo-nos, conversamos… Tu é que vais ter de sair, precisamos desta casa, vamos ter um bebé. Vai buscar as tuas coisas…

Eu? Helena parou no meio do caos, olhos cravados em Beatriz com tal intensidade que esta recuou ainda mais. EU?

De repente, por entre tantas feridas, uma lucidez fria irrompeu.

Esqueceram-se de um pormenor… enganaram-se nas contas passou a mão pelo rosto, ajeitando o cabelo. Este apartamento é meu. Comprei-o antes sequer de casar. Fiquei com o contrato na altura. O Maurício nunca te disse, Beatriz?

As duas trocaram um olhar. As faces de Maurício perderam cor.

Que interessa isso agora? Beatriz tremeu. Vamos ter família, precisamos mais da casa do que tu sozinha.

Família? riu-se Helena, amarga como fel. Vão fundar a vossa, mas noutro lado qualquer. Agora, rua.

Não podes fazer-nos isto! Beatriz elevou a voz Isso é desumano, estou grávida!

Mais devias ter pensado nisso antes de te meteres com o marido da tua irmã, Helena abriu a porta de par em par. Rua, já.

Maurício tentou aproximar-se.

Lena, espera… podemos falar… não tenho onde ir, as minhas coisas estão todas aqui, posso ir ao tribunal!

Faz o que quiseres. A casa é minha, comprei antes do casamento, não tens nada a reclamar. Vais buscar as coisas depois, eu aviso.

Mas…

Fora! Helena disse-o com tal firmeza que Maurício emudeceu. Tu e a tua amante grávida. Fora da minha casa.

Beatriz pegou na mala e saiu, lançando ao sair:

Quando a mãe souber como me trataste, nunca te vai perdoar.

Logo se vê.

Helena fechou a porta com estrondo e encostou-se, chorando sem conseguir parar, os nervos a sacudi-la.

…Três dias depois, a mãe ligou. Helena pegou no telemóvel, pronta para o pior.

Filha, a voz cansada da mãe do outro lado de Lisboa. A Beatriz já me contou tudo. Da maneira dela, claro.

Mãe, eu…

Deixa-me acabar. Ouvi-a. E disse-lhe para não me aparecer à frente enquanto não meter juízo e não te pedir perdão de joelhos.

Helena engoliu em seco.

Mas… estás do meu lado?

Claro que sim. O que a Beatriz fez não tem desculpa. E o teu… ex-marido, pouco melhor. Agora aguenta. Vais divorciar-te e recomeçar. Tens a casa, ele nem um euro recebe. Aguenta, minha filha. És forte. Vais conseguir.

Helena escorregou para o chão, soluçando. Nessa batalha, já não estava sozinha. A mãe dera-lhe a mão e era mais do que alguma vez esperou.

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Tenho 50 anos e ainda vivo com os meus pais desde que engravidei. O meu filho já tem 20 anos.