No outro dia, a tia Rita viu-se perante uma tragédia doméstica: o seu serviço de jantar, aquele oferecido no casamento para doze pessoas, estava todo partido, irremediavelmente. Adeus, fitinhas douradas nas faianças e o carimbo Fabricado na Alemanha no verso de cada prato. O tio António, ao tentar descer as caixas do sótão, perdeu o equilíbrio e o desastre aconteceu.
Ai, valha-me Deus, murmurou a tia Rita, tentando soar mais curiosa do que preocupada, mas rapidamente compreendendo a perda.
Era porcelana fina! lamentou-se, como se a porcelana fina fosse imune à tragédia.
Depois, desabou na poltrona, olhos marejados, a implorar:
Ó Manuel, vai buscar o comprimido da tensão!
Pegou no telefone, ligou à família inteira até a mim, em Lisboa só para chorar por esses cacos e pela juventude que, como o serviço, se espalhara em mil pedaços no chão.
Os pais do António ofereceram-nos isto há vinte anos, nunca o usámos. Só para um momento mesmo especial, quem sabe as bodas de porcelana, vê lá tu. E agora? O meu pai já partiu, o António saiu disto com o tornozelo torcido e eu, cheia de tensão alta! Ainda por cima, repara: nunca ninguém comeu neste serviço. Enfim que disparate!
Não consegui evitar um momento de reflexão. Porque razão guardamos louças, jóias, perfumes caros, e até palavras bonitas, sempre à espera de um dia especial? Por que motivo deixamos as velas aromáticas para uma noite diferente, escondemos a pulseira de ouro na gaveta, ralhamos com os filhos quando querem petiscar da mesa antes da hora, ou guardamos um gosto tanto de ti apenas para datas como o Dia dos Namorados?
O que faz de um dia ordinário menos digno das nossas melhores coisas? Será que amanhã chega mesmo ou, como tantas vezes, o amanhã foge-nos por entre os dedos?
Tenho lido relatos das últimas mensagens enviadas das Torres Gémeas: em quase todas, havia apenas declarações de amor. Pessoas ligavam para casa, deixavam recados nos atendedores:
Amo-te, era isto o mais importante a dizer antes do fim.
Segundo os livros, realidade é aquilo que de facto existe, o instante entre o passado e o futuro, este mesmo momento. Então porquê guardar para depois o que pode, já hoje, dar-nos prazer, alegria, ternura?
O amanhã, na verdade, ninguém nos garante. Só temos o agora, tão especial quanto a noite da Passagem de Ano ou o 8 de Março.
É preciso aproveitar. Fazer as pazes, ver o mar, correr atrás do filho, abraçar a filha, e dar à mãe mais um frasco de Chanel N°5 não só para dias festivos, mas para pôr todas as manhãs, porque todos os dias são importantes.
Devíamos correr a experimentar mais. Ler aquele livro empoeirado, provar sopa de santola ou caracóis com amigos, rever o nosso filme predileto e esquecer por momentos a louça suja na cozinha.
Comprar à tia Rita um novo serviço e organizar um grande jantar de família, com mesa cheia, conversas e gargalhadas.
Não vale a pena adiar os gestos de carinho e as palavras bonitas. Urge dizê-lo, antes que fechem as cortinas, antes do cair dos créditos finais.
Hoje, percebi: viver é não esperar.







