Diário, 28 de março
Hoje, olhando pela janela do meu pequeno apartamento junto à praia da Figueira da Foz, deixo os meus pensamentos correrem soltos preciso desabafar comigo mesmo. Tenho 72 anos e sempre vivi com as mãos calejadas. Argamassa, tijolo, cimento, telha portuguesa: tudo passou pelo meu toque. Foi essa a minha força, o meu sustento, o meu orgulho.
Há vinte anos, depois de perder a minha Rosa, jurei diante da sua campa que, acontecesse o que acontecesse, não deixaria a família dispersar-se. Prometi-lhe que ia construir uma casa grande para todos: filhos, netos, gerações por vir. Ninguém ficaria sozinho. Seríamos unidos, sob o mesmo teto.
Meti mãos à obra. Trabalhei desde o romper do dia até ao lusco-fusco, sem férias nem domingos. Cada cêntimo que juntava ia para cimento, tijolo, ferragem. No bairro em Coimbra, todos sabiam de mim o senhor António, o pedreiro que levantava sozinho uma moradia de três pisos.
Quando terminei, dei um andar a cada filho. O Filipe ficou com o rés-do-chão, a Andreia com o primeiro, o Tiago com o segundo. Eu fiquei num pequeno T1 ao lado do jardim, junto à laranjeira da qual tanto gostava.
No dia em que entreguei as chaves, todos me abraçaram, choraram, disseram que jamais me deixariam sozinho. Foi a primeira vez, em toda a minha vida, em que me senti totalmente rodeado de amor.
Nos primeiros anos, a casa vibrava. Jantares longos, domingos com cheiro a pato no forno, primos a correr pelas escadas acima e abaixo, risadas misturadas ao chilrear dos pássaros lá fora. Eu sentava-me à sombra da minha laranjeira e agradecia a Deus por aquela alegria.
Mas o tempo o tempo leva tudo devagarinho. Não rasga, mas vai desfiando as costuras.
Uma noite, o Filipe pediu-me que ficasse no meu quarto porque tinha amigos em casa e não queria que eu me chateasse. A Andreia sugeriu que guardasse os meus medicamentos porque o cheiro não era agradável. O Tiago avisou que precisava da cozinha grande para filmar uns vídeos e pediu que cozinhasse no meu pequeno fogão lá em baixo.
Ninguém foi grosseiro. Mas as palavras começaram a queimar. Aos poucos, deixaram marcas.
Quando queria sentar-me na sala, diziam que iam ver novelas. Se tratava de fazer algo no jardim, pediam-me para ter cuidado para não atrapalhar. Quando tentava arranjar qualquer coisa, diziam que era melhor chamar um profissional, para eu não me cansar.
Sem dar conta, comecei a existir numa casa que era minha, mas que já não sentia como minha. Comia sozinho, ouvindo vozes e gargalhadas que vinham de cima, como se fossem ecos distantes de quem fui um dia.
Até que veio o golpe final. Era o meu aniversário. Ninguém se lembrou.
Fui à cozinha buscar água e deliberei junto à porta, de ouvido apurado: os três filhos conversavam sobre mudanças na casa. Falavam em transformar o rés-do-chão num ginásio. Diziam que eu precisava de um lar mais calmo, onde houvesse quem olhasse por mim.
Nada soava cruel. Era tudo lógico, prático. Talvez por isso doeu ainda mais.
Foi então que entendi: já não faziam planos comigo, mas para mim. Eu deixara de ser parte do dia a dia passara a ser um problema a resolver.
No dia seguinte, levantei-me cedo, vesti o fato do meu casamento e agarrei na pasta mais importante de todas: os papéis da propriedade. Sempre estiveram no meu nome nunca lhes passei nada, oficialmente.
Fui até uma imobiliária conhecida em Coimbra. Mostrei os documentos, os desenhos da casa, expliquei a história. O agente fez contas rápidas e ofereceu-me uma quantia em euros suficiente para me garantir uma velhice digna e independente.
Aceitei sem hesitar.
No mesmo dia, tratei de tudo: arranjei uma empresa de mudanças, escolhi as recordações da Rosa, ferramentas, fotografias, poucas roupas e deixei o resto para trás.
Esperei-os em casa, sentado no sofá do antigo salão, com a mala aos pés a sala que já era interdita para mim há tanto.
Assim que chegaram, ficaram perplexos. Perguntaram o que fazia ali.
Falei calmamente: tinha vendido a casa. Precisavam de a desocupar porque os novos donos a queriam para outra finalidade. Não os acusei, não gritei. Disse apenas a verdade.
Consulta de rostos perplexos. Como pudeste? Onde vais? perguntaram em uníssono.
Respondi apenas que cada pessoa tem o direito de viver onde se sente respeitada. Que não lhes guardava rancor, mas que deixara de pertencer ali. Que era altura de cada um seguir o seu caminho, como tem de ser.
Levantei-me, agarrei a mala, olhei uma última vez para a casa que construí pedra a pedra e fui embora.
Agora, neste cantinho à beira-mar, desperto com o som das ondas e a luz serena das manhãs de Portugal. Sinto uma paz e uma liberdade que se esquecem durante anos passados a querer agradar a todos.
É verdade, tenho saudades do passado: do bulício da casa, das gargalhadas das crianças, do cheiro a pão quente aos domingos. Sinto falta do lar que ergui com amor. Mas não sinto falta de ser invisível numa casa que já não era minha.
Por vezes a vida só começa mesmo quando temos coragem para nos escolher a nós próprios.







