Os amigos vieram visitar-nos à aldeia e sentiram-se ofendidos por não os termos recebido com carne de vaca

Porque é que queriam mudar-se? Ainda por cima para o campo. Toda a gente sonha ir viver para Lisboa ou para o Porto, mas vocês fazem precisamente o contrário. O que pode haver de bom ali? Não percebo mesmo. No campo só se aproveita o verão, no inverno parece que o mundo acabou, não há nada para fazer.

Tenho uma amiga, Leonor, que fez de tudo para nos dissuadir de nos mudarmos para a aldeia. Isso deixou-me profundamente magoada, a mim e ao meu marido. Como se tivéssemos de fazer tudo como ela quer.

Depois de quase um ano a procurar, finalmente encontrámos uma casa de pedra à nossa medida e mudámo-nos. Apesar disso, Leonor ligava-me quase todos os dias, num tom sarcástico, a perguntar se já tinha arranjado emprego ali. Apesar de ela saber perfeitamente que eu trabalhava em teletrabalho e que isso nunca mudaria. Não parava de perguntar também: “Ainda apanhas rede naquele lugar?”

No início de outubro, Leonor decidiu fazer-nos uma visita. Já tinha passado mais de um ano desde que nos tínhamos mudado. Passeou-se pelo nosso terreno como quem não quer a coisa e, no resto do tempo, ficou em casa a beber vinho verde com o marido, durante os dois dias que lá estiveram.

Durante essa visita, apesar das visitas, eu continuava com as minhas tarefas ia à adega buscar os legumes para armazenar, fechava os frascos de doce e compotas. No terceiro dia, Leonor e o marido começaram a fazer as malas para apanhar o autocarro de volta à cidade à noite. Não tinhamos pensado em lembranças ou presentes. Mas, de repente, foi a própria Leonor que me pediu um saco de batatas e umas maçãs.

Disponibilizei-me a descer à nossa adega para ir buscar tudo, mas ambos recusaram, queixando-se da ressaca. Dei-lhes um saco e uns baldes e sugeri que fossem eles mesmo apanhar as maçãs. Resmungando por causa do aspeto delas, acabaram por ir ao pomar. Perguntei-me como levariam aquilo tudo no autocarro, mas pouco depois percebi tinham pedido ao meu marido para os levar de carro à cidade.

Era uma viagem de quase três horas ida e volta até Coimbra. O meu marido percebeu logo a manobra e justificou-se dizendo que já tinha aberto uma garrafa de vinho. Assim, acabaram por sair à mesma, de mala cheia. Depois disso, desapareceram do mapa durante uns bons anos. Só nos falávamos por telefone. Nunca mais voltaram. Pode parecer amargo, mas eu cá acho que não fazem falta no meu campo.

Mas, no fim de novembro, reapareceram à porta, sem sequer avisar. Queriam fazer-nos uma surpresa, disseram. Chegaram ao fim de semana, mas eu e o meu marido nem tempo tínhamos para respirar. Andava a tratar das encomendas de Natal, toda a semana atarefada. Tinham acabado de limpar três perus nesse dia. Surpresa é surpresa.

Preparei rapidamente a mesa. Leonor e o marido comeram e beberam como se o tempo não contasse, enquanto nós, como sempre, levantámo-nos a ajudar. Mas valeu-me a experiência: não sabiam depenar galinhas, nem nada disso. E nós, criados na aldeia, já estávamos habituados.

As aves que tinha em casa já estavam todas encomendadas. Tínhamos decidido separar para nós e para os pais antes do final de dezembro. Não estava confortável em dar-lhes nenhuma. Ainda assim, ofereci-lhes um ganso, mas deixei bem claro: teriam de o depenar sozinhos. Disseram que fariam isso no dia seguinte.

No dia seguinte, silêncio absoluto. Pensei: “Podiam pelo menos agradecer”. Desta vez vieram de carro. Antes de irem embora, ofereci-lhes legumes e conservas, para levarem o que quisessem. Encheram o porta-bagagens. Não me importo, podem comer à vontade, não nos faltam produtos, temos reservas para vários invernos.

Mas a pergunta seguinte da Leonor deixou-me abalada. Não tens um pouco de carne de vaca para nos dares?

Respondi que não. A sério, não tínhamos carne de vaca extra. Só depois de entregarmos as encomendas é que pensávamos nas necessidades lá de casa. Não nos sobra tempo nem dinheiro, mas pelo menos sobrevivemos. E, a ter carne, primeiro iríamos partilhá-la com os pais, os irmãos, toda a família.

Devem ter ficado ressentidos connosco. Até hoje, Leonor nunca mais me ligou nem escreveu. Uma conhecida comum ainda comentou que éramos forretas vieram à aldeia e nem carne trouxeram de volta, que vergonha, disse ela.

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Os amigos vieram visitar-nos à aldeia e sentiram-se ofendidos por não os termos recebido com carne de vaca
Честит рожден ден!!! Тате!