Tive uma melhor amiga chamada Filomena. Éramos amigas de longa data, desde tempos imemoriais, como se o tempo nunca tivesse existido entre nós. Muitas vezes, Filomena me contava, com voz embargada e olhar distante, sobre o peso que carregava nos ombros. Tudo parecia se misturar numa nuvem densa porque ela passou vinte anos vivendo com o marido e com a mãe, numa casa de azulejos brancos em Lisboa.
A mãe, que se chamava Delfina, era daquele tipo de mulher que aproveitava a bondade dos outros sem remorsos, nem sequer a da própria filha. A vida estava sempre do avesso para ela, tudo era um fado desafinado. Delfina já tinha 85 anos, mas, curiosamente, nesse tempo ainda andava de um lado para o outro, como se fosse dona das ruas calcetadas.
Delfina estava convencida de que Filomena lhe devia, como se a filha fosse uma dívida pendente, uma promessa nunca cumprida. Isso vinha do passado: quando Delfina engravidou, o esposo partiu à francesa, arranjando outra paixão e deixando apenas saudades amargas. Toda a sua ira repousava sobre Filomena, que era a cara chapada do pai.
Filomena nunca foi filha amada; era criada, empregada doméstica, prisioneira da obrigação, mas jamais filha. Trabalhava incansavelmente em dois empregos o escritório por manhã, o café à noite. Ao regressar a casa, ainda de madrugada, lançava-se a lavar o chão e preparar o jantar. Delfina recusava-se a tocar nas tarefas da casa, e muitas vezes fazia birras se Filomena cozinhava algo fora do seu gosto. Imagine: a pobre filha largou o trabalho em pleno centro para atravessar a cidade só para cozinhar uma sopa de feijão como a mãe queria.
Nesse dia era o aniversário de Filomena. Sentámo-nos todos à mesa, onde ela serviu bacalhau à Brás e doces de ovos, mas percebi que a tristeza se escondia no sorriso dela, como sombra que escapa à luz. Confessou-me que houve um escândalo com Delfina, um tumulto de palavras amargas. Acabámos por nos despedir cedo, como se a festa fosse uma miragem.
Na manhã seguinte, soube que Filomena havia desaparecido. Descobri que, depois de todos saírem, Delfina voltou a iniciar um novo acesso de fúria, como se fosse um ciclo sem fim. O coração de Filomena falhou, e ninguém chamou o INEM. Morreu durante a noite, num silêncio profundo, como se fosse guiada por mãos invisíveis. Assim foi que a mãe conduziu a filha pelas sombras da noite, numa Lisboa onde sons ecoam distorcidos e o tempo se desfaz em memórias fragmentadas.







