Fada
Já no sexto ano, toda a gente percebia que a Inês Morgado iria ser uma excelente médica. Na altura, um rapaz vizinho caíu do baloiço e rasgou o joelho e até a cabeça. Aquilo estava longe de ser coisa para gente sensível, mas a Inês, com apenas 12 anos, não se deixou ir abaixo.
Sandra, vai buscar água, gaze e água oxigenada! disse ela à melhor amiga, que morava mesmo em frente ao parque infantil. E lá foi a Sandra a correr para casa.
Quando chegou a dona Teresa, mãe do rapaz, completamente alarmada, a Inês já tinha limpo, desinfetado e enfaixado as feridas dele tal e qual uma profissional. Quando a Teresa percebeu quem lhe tratou o filho, ficou mesmo boquiaberta. Depois de muito agradecer à Inês, disse logo:
Vais ser médica, minha menina. E não é uma médica qualquer, vais ser mesmo daquelas que fazem a diferença. Olha que nem sempre vemos médicos a fazer as coisas bem feitas. Tu sim!
Em acampamentos e escuteiros, toda a gente queria ter a Inês à mão. Ninguém queria magoar-se, mas com a Inês Morgado por perto, até os acidentes metiam menos medo.
Depois vieram os anos duros em Medicina, internato, especialidade, sempre a investir em cursos e formações. Um dia, já médica de nome, calhou-lhe assumir a chefia do serviço de Diagnóstico Funcional. Todos no Hospital de Santo António apreciavam e respeitavam a Dra. Inês Margarida Morgado, agora de apelido Duarte tinha casado, finalmente.
A equipa era fantástica. A única exceção era o velho subdiretor clínico, Dr. Manuel Martinho chato, sempre de cara fechada e um verdadeiro vampiro energético. Só estava bem a arranjar drama e picardias. A Inês tentava não entrar nos jogos dele, mas só ela sabia o que lhe custava aquilo tudo.
O que a salvava era que, cruzavam-se pouco. Lá se viam uma vez por semana, nas reuniões clínicas, sempre a discutir diagnósticos dos doentes que tinham acabado de chegar. Mas mesmo nessas poucas vezes, bastava para lhe tirar a paciência.
O Martinho adorava confrontá-la, lançar bocas venenosas à frente de toda a gente. E notava-se no olhar dele como ele gostava de ver a Inês a fazer de conta que não ligava só lhe dava mais vontade de a picar.
Homem impossível, desabafava Inês à mesa do jantar com o marido, Miguel. Juro, tento levar isto com calma, mas ele faz tudo para me meter os nervos em franja.
Aposto que respondes à altura, sorria o Miguel. És das pessoas mais diplomáticas que conheço.
Mãe, é mesmo, entrava logo o filho, o Tiago, de 13 anos. Quando te fartares de ser médica, vai para diplomata! Pagam melhor!
Olha, pode ser mesmo! ria a Inês.
A Inês sempre foi pessoa diplomática, mas é humana, não é de ferro. E já sentia: um dia, mais tarde ou mais cedo, não se ia conter.
Na reunião seguinte, tudo decorreu como habitual. Até ao momento em que a Inês, seguindo o protocolo, fez o relatório do caso da Dona Alice, uma senhora na casa dos sessenta, sentada à espera, nervosíssima. O costume era: primeiro a apresentação, depois a doente ficava à porta enquanto a equipa discutia entre si.
Mas desta vez a Dona Alice perguntou, mesmo aflita:
Doutora, diga-me só a verdade… isto é muito grave? Vou sobreviver? Ainda quero criar a minha neta, que ficou sem mãe.
O tom da dona Alice estava prestes a transformar-se em lágrimas. Aqueles olhos cansados, mas cheios de esperança, partiam o coração.
A Inês ia logo responder, tentando acalmar a senhora, quando o Dr. Martinho atirou, num tom alto e pouco delicado:
Com esse diagnóstico?! Ó minha senhora, isto já vai tão avançado que nenhum médico com bom senso faz promessas! Devia ter vindo mais cedo, não sei o que andou a pensar…
A senhora ficou paralisada, a tremer. Mas ele não parou:
Já sei como é Primeiro aguentam, depois andam atrás de remédios caseiros. Só aparecem quando não aguentam mais! E depois querem milagres…
Coitada da dona Alice, saiu lavada em lágrimas. A Inês culpa-se ainda hoje por nem ter conseguido travar o Martinho naquele momento ficou paralisada de choque. Gritar assim com uma senhora frágil e desesperada era tudo menos humano. Até a chefe de serviço abanava a cabeça, indignada.
Todas ali sabiam que havia algum fundo de razão sim, quanto mais cedo, melhor mas nada desculpava o tom. Nem pelo respeito, nem pelo bom senso.
Foi aí que a Inês explodiu. Chegava! Tinha de o pôr no lugar.
Dr. Martinho, com todo o respeito, acha normal tratar assim os doentes?
O que disse de errado? encolheu os ombros o Martinho. Não somos mágicos! E os doentes têm de perceber isso. Sabe bem que só curamos cedo…
Aquele ar satisfeito indicava bem que ele achava que tinha ganho a provocação. Mas a Inês não lhe ia dar esse gozo.
É verdade, ninguém pode fazer milagres. Mas, sabia o esforço que fiz para que esta mulher aceitasse finalmente ser tratada? A senhora voltou a acreditar que tinha hipótese… E agora, com meia dúzia de frases, desfaz tudo em pó. Parabéns.
A Inês abanou a cabeça, frustrada. O Martinho ainda bufou mais qualquer coisa, a chefe de serviço saiu do gabinete para não rebentar, e a Inês ficou ali, sozinha com aquele “vampiro”, a sentir-se asfixiada. Como se partilhar o mesmo ar lhe custasse a vida.
Sentou-se, abriu o bloco de registos. Por mais que lhe custasse, o trabalho continuava.
De repente, ouviu um passo tímido. Só percebeu que era o Dr. Martinho quando ergueu os olhos e o viu ali, atrapalhado, a segurar um frasco de valeriana.
Doutora Inês… tome isto, faz-lhe bem. E… desculpe. Escusava de ter falado assim. A senhora tem razão.
E o senhor também, Dr. Martinho, respondeu Inês, já mais serena. Só que às vezes, tudo o que nos resta é dar esperança. E essa esperança, por vezes, faz milagres. O senhor também sabe isso.
Pois, pois, claro… murmurou ele, todo desarmado.
Essa mudança dele deixou-a genuinamente surpreendida. Mas nem valia a pena especular, a hora era de esclarecer as regras.
Dr. Martinho, lembre-se disto: nunca admitirei faltas de respeito ou dúvidas sobre a minha competência à frente dos doentes. Seja ele quem for.
Claro, Dra. Inês. Tem toda a razão.
“Se assim for, ainda bem”, pensou, olhando o relógio. O dia estava só a começar.
Mais tarde, foi ver a Dona Alice Alice Baptista, afinal. No criado-mudo, um ramo de tulipas frescas: o Dr. Martinho tinha-lhe levado flores e pedido desculpa. Diz ele: “Vamos fazer o impossível e o possível para a tratar, dona Alice”.
Ótimo, dona Alice, ainda temos muito que fazer por si. Nem pense em desistir, está a ver? Ainda vamos ter aqui uma ‘rapariga’ de nova, disse Inês, a dar-lhe um miminho.
Ai, doutora, você brinca comigo, soltou-se a mulher a rir.
Um mês depois, a Dona Alice estava a recuperar. No dia em que teve alta, o Dr. Martinho apareceu com uma caixa de bombons Arcádia, para a neta, e um ramo de rosas.
Para si, e para a menina, sorriu ele.
Obrigada, filho. Olhe que há anos que ninguém me dava flores. Vocês, médicos, são uns anjos! agradeceu ela.
Vou-lhe dizer como se diz nos filmes: “Volte sempre.” Mas é a brincar! Só para visitas, está bem? gracejou ele. Cuide-se.
Até os mais descrentes no hospital estavam parvos com aquilo. “O que deu ao homem?”, pensavam. Nunca se vira o Dr. Martinho a ser tão gentil.
A relação entre a Inês e o Martinho tornou-se nada má, até amigável. Muitas vezes, ficavam à conversa a beber café depois das reuniões. Às vezes, encontravam-se na pastelaria ao lado do Hospital.
Não há felicidade na vida, doutora, lamentou-se certa tarde o Martinho. Talvez por isso seja assim. Os anos foram passando… e ficou tudo por fazer.
Como assim? O senhor é subdiretor clínico, tem uma carreira brilhante!
Pois, carreira sim. Mas queria era outra coisa. Já fui feliz, mas ficou para trás.
“Está tudo explicado”, pensava Inês. O homem só precisava de se confessar a alguém.
Acreditem, a Inês até o começou a ver com outros olhos. No hospital, o pessoal não deixou de reparar na aproximação, mas ninguém se atrevia a falar mal ela não dava confiança, e ele, sedutor, era coisa que não tinha nada a ver com ele.
Que fizeste tu ao Martinho? perguntou uma tarde a enfermeira Celeste, enquanto as mulheres faziam lanche na copa.
Todas ficaram à espera da explicação do século. No hospital, ao fim da semana, era tradição: cada uma trazia um bolo, uns pãezinhos de azeite, um doce qualquer. O lanche era um acontecimento. Naquele dia, bebiam chá com doce de ameixa feito pela governanta, a dona Amélia.
Meninas, é simples! O segredo está nas nossas mãos: autoestima e confiança! atirou Inês.
Fala fácil, doutora. Uma chefe pode ter esse à-vontade, agora nós… duvidou a jovem auxiliar Rosa.
Olha, Rosa, nunca digas que tens menos valor do que ninguém, respondeu a Inês. Todos fazemos falta, todos merecemos respeito. E a confiança em nós próprios faz toda a diferença contra vampiros energéticos como o Martinho, acredita.
Pois é, assentiu a psiquiatra Margarida Lopes. Gente assim só ataca se sentir que nos põe a jeito, mas com firmeza não se metem.
Eu cá acho que o Martinho é só um homem triste, murmurou a cozinheira Lurdes.
Todas concordaram, só a Inês sabia mesmo o que se passava.
Meninas, perdi algo? entrou a costureira, a dona Carminda, afogueada.
Nem por isso, está tudo quentinho! Falamos do Martinho! respondeu a Celeste.
Já ouviram? O Martinho vai casar! anunciou Carminda.
A sério?!
Que novidade! Só vendo para crer!
O hospital ficou em polvorosa.
Inês, aposto que sabias! provocou a Amélia.
Nem por isso! sorriu a Inês, genuinamente surpreendida. Ele nunca me disse nada.
É típico. Homens assim nunca falam dos sentimentos, decretou a psicóloga Carla.
“Bem pensado, ele é mesmo assim”, pensava Inês.
Mas afinal, com quem casa? quis saber a Rosa.
Não sei bem, ouvi que é com uma doente.
Nem acredito!
A Inês fez-se de parva, mas já desconfiava da resposta.
Então meninas, esta notícia merece mais do que chá! sugeriu. Que tal um copinho de vinho do Porto?
Foi logo aprovado. Beberam à saúde do futuro noivo. Quem sabe, aquilo não lhe abrandava o feitio?
No dia seguinte, a Inês tomava o café quando aparece o Martinho, com um ar radiante.
A Inês fez-se desentendida:
Está a brilhar hoje, Dr. Martinho!
Nem imagina, Dra. Inês! Vou casar. É verdade! Caseiro de primeira.
A sério? Com quem? Conte lá, se não for segredo. Espero que seja boa pessoa.
É especial. Para mim, a melhor do mundo. É a Alice, lembra-se? Aquela senhora daquele dia… Gostei dela. Fui atrás e… pronto.
Olhe, nunca pensei vê-lo assim. Parabéns! Que bom!
E você está convidada ao casamento, com toda a família. Se não fosse por si, nunca a teria conhecido. Devia ir para diplomata!
Nada, são as voltas da vida. Eles acabam sempre por se encontrar.
No casamento, viam-se todos diferentes e felizes. O fato de noivo ficava-lhe bem, a Dona Alice parecia uma outra mulher mais nova, cabelo novo, cheia de brilho. Ela também agradeceu mil vezes à Inês.
E assim, minha amiga, até no meio dos dramas hospitalares, pode haver finais felizes à portuguesa. E sim, até um velho resmungão pode mudar, com um pouco de esperança e um toque de fada… Ou melhor, de médica de mão e coração.






