Ele estava sempre a viajar em trabalho e eu já tinha aceite isso. Respondia-me tarde, chegava a casa esgotado, dizia que as reuniões tinham sido longas. Nunca lhe vasculhei o telemóvel, não lhe fazia perguntas desnecessárias. Confiava nele.
Uma tarde, enquanto dobrava a roupa no quarto, ele sentou-se na beira da cama ainda com os sapatos calçados e disse, com a voz embargada:
Quero que me ouças até ao fim, sem interromperes.
Logo ali percebi que algo estava errado. Disse-me que andava com outra mulher.
Perguntei-lhe quem era. Hesitou uns segundos, depois disse o nome dela uma Catarina qualquer que trabalhava perto do escritório dele. Mais nova, mais leve, talvez. Perguntei-lhe se estava apaixonado. Ele respondeu que não sabia, mas com ela sentia-se diferente, menos cansado. Perguntei-lhe se pensava ir-se embora. Ele olhou-me nos olhos e respondeu:
Sim. Não quero fingir mais.
Nessa noite dormiu no sofá. Saiu cedo na manhã seguinte e só voltou dois dias depois. Quando entrou, vinha já resolvido: tinha falado com um advogado, queria o divórcio o mais depressa possível, sem dramas. Enumerou o que queria levar, o que não queria. Fiquei calada, a ouvi-lo. Em menos de uma semana, deixei de morar naquela casa.
Os meses seguintes foram duros. De repente, tive de me desenrascar sozinha com tudo: papéis, contas, decisões. Comecei a sair mais, não por vontade, mas para não enlouquecer fechada em casa. Aceitava convites só para não ficar sozinha. Numa dessas saídas, conheci um homem na fila para o café. A conversa foi banal: o tempo, a confusão, o atraso.
Mais tarde, continuámos a cruzar olhares. Um dia, sentados a uma mesinha num café de bairro, disse-me a idade dele quinze anos mais novo do que eu. Não fez piadas nem comentários estranhos. Perguntou-me a minha idade e continuou como se fosse apenas um detalhe. Voltou a convidar-me para sair. Aceitei.
Com ele, tudo era diferente. Não havia promessas grandiosas nem discursos açucarados. Perguntava-me como estava, ouvia-me, ficava comigo quando desabafava sobre o divórcio, sem mudar de assunto. Um dia disse-me, sem rodeios, que gostava de mim e sabia que vinha de uma história difícil. Eu respondi-lhe que não queria repetir erros, não queria voltar a depender de alguém. Ele disse que não estava ali para controlar, nem para me salvar.
O meu ex-marido soube pela boca de outrem. Ligou-me meses depois de não falarmos sequer. Perguntou-me se era verdade que andava com um homem mais novo. Respondi-lhe que sim. Perguntou-me se não tinha vergonha. Respondi-lhe que vergonhosa foi a traição dele. Desligou sem dizer adeus.
Divorciei-me porque ele me trocou por outra. Mas depois, sem procurar, encontrei alguém que me ouve e me valoriza. Terá sido isto um presente da vida?







