Libertando-se do domínio materno: Aos 35 anos, Varvara descobre sua força para viver longe do controle da mãe autoritária e encontra felicidade e amor verdadeiro com o apoio de amigos, superando anos de submissão, tristeza e falta de carinho.

Sob o domínio da mãe

Aos trinta e cinco anos, Beatriz era uma mulher reservada e, como se costuma dizer, reprimida. Nunca tinha namorado com homens e, apesar de trabalhar há anos como contabilista, desde que terminou o curso, mantinha-se no mesmo emprego.

Cuidava pouco de si mesma, usava roupas largas, era um pouco acima do peso, mantinha sempre um olhar triste e os cantos dos lábios caídos. A mãe de Beatriz, Leonor, teve-a com dezoito anos, sem que se soubesse bem quem era o pai, pois a filha nunca chegou a conhecer o progenitor. Cresceu no campo, em casa da avó. Foi lá que terminou a escola, só se mudando para junto da mãe quando entrou para o curso técnico.

Enquanto Beatriz era criada pela avó, Leonor divertia-se na cidade, sempre a procurar festas, embora trabalhasse. Trocava de namorado frequentemente, era bonita e irreverente. Ia visitar Beatriz apenas uma vez por mês ou em dois em dois, levava-lhe um brinquedo qualquer e desaparecia novamente. A avó era severa, por isso Beatriz nunca sentiu ternura nem carinho nem por ela, nem pela mãe.

Até hoje, Beatriz continua a dividir o apartamento com Leonor. A mãe, já com mais de cinquenta anos, aparenta juventude, é magra, usa cosméticos caros, frequenta salões de beleza e ainda vai a encontros de vez em quando. A filha é o completo oposto.

Finalmente, ao terminar o trabalho, Beatriz entrega os papéis à colega que a vai substituir durante as férias e sai do escritório.

Pronto, lá vou eu de novo para férias pensa Beatriz, o subsídio de férias está na carteira. Que pena, a mãe vai outra vez ficar com o dinheiro E eu passo as férias em casa. Já não aguento isto Por que não consigo impor-me? Já não sou criança, mas a mãe não me larga. Ela exige sempre dinheiro, até ao último cêntimo, não posso dispor do meu salário Não vejo saída para a minha vida

Quando entra em casa, vê Leonor à espera dela no corredor.

Finalmente chegaste diz Leonor. Então, já recebeste o subsídio de férias? Dá cá.

Recebi, responde Beatriz, já te dou, deixa só eu tirar o casaco.

Tens tempo para tirar o casaco

Beatriz abre a mala e começa a procurar a carteira.

Credo, vais sempre com essa mala velha, parece coisa de velhota! Não tens vergonha? atira a mãe, impaciente.

Beatriz fica sem reação, as lágrimas afloram aos olhos.

E eu tenho dinheiro para uma mala nova? Tu levas tudo de mim, até ao último tostão sai-lhe de repente, surpreendendo-se por rebater a mãe.

Não é só a mala, tu também estás toda desleixada e gorducha! Aprende a emagrecer, cuida-te! diz Leonor, gozando abertamente. Dá-me vergonha sair contigo à rua!

Vergonha? grita Beatriz. E não te dá vergonha ficar com o meu dinheiro? Nem contigo eu me dou ao trabalho de sair já estava a perder o controlo, virou costas e saiu do apartamento.

Com os olhos cheios de lágrimas, desceu a correr as escadas e foi sentar-se num banco, cobrindo o rosto com as mãos. Não sabia quanto tempo tinha passado, mas de repente ouviu uma voz.

Beatriz, estás aqui? ao levantar a cabeça, reconheceu a vizinha, Dona Ana Maria, que morava no rés-do-chão do prédio ao lado. Estás a chorar? sentou-se ao lado dela, segurando-lhe a mão. Que aconteceu, menina? Está tudo tão mal assim?

Beatriz não aguentou e contou tudo a Ana Maria.

A minha mãe fica com todo o dinheiro, compra cosméticos caríssimos e roupa boa para ela, eu ando sempre com trapos. A culpa é minha, sempre fui tímida, nunca contradisse nem a avó nem a mãe. A minha mãe é dura, manda em tudo Ana Maria abanava a cabeça, mas Beatriz começou a sentir vergonha.

Ai, estou a falar assim da minha própria mãe Deve achar que sou fofoqueira, mas fracassada sou mesmo.

Ana Maria conhecia Leonor há anos e nunca a tinha respeitado, olhando sempre para Beatriz com compaixão. Compreendia que Beatriz vivia sob o domínio rígido da mãe.

Olha, Beatriz, deixa de chorar e pensa um pouco. Tu já és uma mulher adulta, já devias cuidar de ti.

Mulher? Que mulher sou eu, Dona Ana Maria Nunca ninguém me amou, nem eu também, não faço falta a ninguém

Ouve, tu tens mesmo de sair de casa da tua mãe Beatriz olhava para a vizinha, assustada.

Para onde? O meu salário é pequeno, não dá para pagar uma casa. E a minha mãe vai zangar-se. Ainda tenho de lhe dar o subsídio de férias. Só não aguentei mais, ela atacou-me, fiquei magoada e saí de casa num impulso.

Então ainda tens o subsídio contigo? Não te preocupes com a tua mãe, ela sabe cuidar dela própria, dinheiro não lhe falta. Pensa em ti. Olha, podes ficar uns tempos na minha casa da aldeia. É uma casa boa, o meu falecido marido construiu de raiz, pensava em lá viver muitos anos E já que estás de férias, vai lá passar uns dias, não te vou cobrar nada.

Dona Ana Maria, não tem receio de me deixar ficar lá?

Claro que não, conheço-te bem. Espera um pouco, vou buscar as chaves e vou-te dar o endereço e o meu contacto.

Beatriz foi até à estação, comprou o bilhete na bilheteira e, já sentada na CP, olhava para os passageiros. Nunca tinha saído do seu concelho, era sempre casa e trabalho. Ninguém lhe prestava atenção, acalmando-se aos poucos, observando paisagens a passarem pela janela. Saiu na paragem certa e caminhou rapidamente até à casa. Abriu a porta com a chave e entrou.

Foi invadida por um silêncio agradável, olhou em redor e sentou-se numa poltrona antiga.

Que paz, é bom estar só, que liberdade desconhecida e silêncio pensava.

A mãe não estava a controlar cada passo, nem a provocar. Beatriz ligou o televisor. Dava um daqueles talk-shows que a mãe nunca lhe deixava ver, trocando sempre para as novelas ou programas da sua preferência, sem ligar ao gosto da filha.

Tu só gostas de programas tolos, és uma desajeitada gozava Leonor, sem permitir-lhe sequer argumentar, insultando-a logo de seguida.

Beatriz nunca respondia, baixava cada vez mais a cabeça perante as palavras da mãe. Nunca sequer pensara em enfrentá-la.

Rapidamente explorou a casa, ligou o frigorífico e arrumou lá comida: uma embalagem de rissóis, queijo flamengo e iogurte, tudo comprado antes da viagem, na loja junto à estação.

Foi preparar os rissóis, comeu e finalmente sentiu-se tranquila.

Que maravilha estar só pensava cheia de alegria.

Recebeu uma chamada, era Leonor.

A fugir, não foi? Vi-te ali na conversa com a Ana Maria, vais ver, sozinha não aguentas nada. Escusas de ouvir estranhos, ninguém te vai ajudar, não sabes viver sem mim. Vais dar por ti perdida

Beatriz desligou o telemóvel antes de ouvir mais insultos. Estranhamente, não ficou tão abalada. À noite, recebeu chamada de Ana Maria.

Então, Beatriz, já estás bem instalada? Sentiste-te confortável?

Sim, muito obrigada, Dona Ana Maria.

Amanhã vai lá o meu sobrinho, Estêvão, levar-te as tuas coisas.

Que coisas?

A Leonor apareceu aqui à porta, trouxe um saco grande com o que era teu e disse: Já que levas a minha filha, levas o resto também!

Está bem, Dona Ana Maria. Como reconheço o Estêvão?

Oh, ele vem de carro, sabe bem onde é a casa, é alto e usa óculos

Isso não é incómodo?

Beatriz, pára com essas perguntas, tu já és crescida. Aproveita para começar a tua vida independente e aprende a gostar de ti. Cuida-te, compra coisas novas; no fundo, és bonita, só te deixaste ficar. Vá, descansa

Pela manhã, orvalho brilhava na relva, ouvia-se um cão a ladrar ao longe, e pássaros cantavam
Beatriz ficou a pensar nas palavras da vizinha, aproximou-se do espelho.

Realmente, descuidei-me Se reparar bem, tenho olhos bonitos, apesar de tristes, o cabelo é forte, e mantenho-o sempre preso como uma velha. Preciso mesmo de emagrecer, disso a mãe tinha razão.

Dormiu como uma pedra na nova casa. Quando acordou, reparou no raio de sol a atravessar a cortina. Abriu a janela, sentiu o cheiro de campo, viu o orvalho na relva, ouviu o cão ao longe e ouviu o canto das aves.

Que maravilha, um começo de dia maravilhoso pensou, esticando-se.

Logo estava na varanda a saborear um café achado na despensa. Depois deu-se a sonhar: podia mudar de trabalho, alugar um apartamento, já que dali da aldeia era difícil ir à cidade. Nem se lembrou da mãe. O coração batia com esperança de uma vida nova.

Agora vou mesmo viver por mim, não depender da mãe os pensamentos foram interrompidos por uma batida suave à porta.

Quem será? pensou, abrindo cautelosamente.

Viu um homem alto, de óculos e mala grande na mão.

Bom dia sorriu ele, simpático. Eu sou Estêvão, e você é Beatriz?

Bom dia, sim, sou Beatriz. Entre, fez-lhe sinal.

A minha tia Ana pediu-me para entregar as suas coisas, e ajudar se precisar de ir a algum lado, tenho carro à porta perguntou Estêvão, com voz amável. Não se iniba, Beatriz, disse ele já sei, pela tia, que és tímida e reservada. Ela contou-me desculpa contou-me um pouco da tua história.

Assim Beatriz conheceu o futuro marido. Estêvão apaixonou-se genuinamente por ela, o primeiro casamento dele não tinha corrido bem. E Beatriz, ao apaixonar-se, mudou da noite para o dia: perdeu a postura acanhada e o olhar triste, emagreceu, procurou ser cuidada para agradar ao namorado. Foi ao salão de beleza, renovaram-na completamente, nem acreditava ser a mesma pessoa.

Sou mesmo eu? sorria ao espelho, com brilho nos olhos.

Pouco depois, Estêvão levou-a para o apartamento dele em Lisboa.

Beatriz, sempre sonhei com uma mulher como tu meiga, honesta e carinhosa. Não vamos fingir que não sabemos, já não somos miúdos, casa comigo.

Beatriz disse que sim, sentia-se de sorte com Estêvão, tinham até semelhanças um com o outro. Casaram discretamente, em cerimónia íntima à portuguesa, convidaram Leonor mas esta, como habitual, meteu-se e fez comentários ácidos à mesa. Ana Maria rapidamente pôs-la na ordem. Leonor saiu cedo, ninguém deu pela falta, nem Beatriz se lamentou.

A família de Estêvão acolheu Beatriz com carinho. Ele olhava para ela apaixonado, pensando:

Mais cedo ou mais tarde, a felicidade acaba por chegar às pessoas. Chegou a mim e à Beatriz.

Em pouco tempo, Beatriz esperava um filho, e sentia-se duplamente feliz. Mesmo que tarde, encontrou o seu caminho. Já se esquecera da vida limitada e ansiosa que levou, encontrou coragem para mudar a sua história. Não só ganhou beleza exterior, como floresceu por dentro, porque finalmente aprendeu a amar-se e a amar Estêvão.

Obrigado por lerem, por apoiarem e pela vossa força. Desejo felicidade a todos!

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Libertando-se do domínio materno: Aos 35 anos, Varvara descobre sua força para viver longe do controle da mãe autoritária e encontra felicidade e amor verdadeiro com o apoio de amigos, superando anos de submissão, tristeza e falta de carinho.
— Мамо, разиграхме се в нашата вила и тръгвайте обратно, — невестката изгони свекърва от нейния дворТъй като вратата се затвори, вилата остана пуста, а изненадаващият крик от задната градина разтърси цялото село.