Quarto de Arrumos
Hoje escrevo sentada ao final do dia, de mãos ainda a cheirar a pó, e penso que esta casa carrega mais memórias do que eu imaginava. Esta manhã, o Miguel chegou do Leroy Merlin carregado: dois rolos de papel de parede com padrão discreto, um balde de tinta branca e um saco de massa para tapar fissuras. Não tirou sequer os sapatos ao empilhar tudo no corredor e insistiu em abrir a porta do nosso famoso quarto de arrumos. A porta bateu contra algo mole, travou a meio e ele bufou, o típico ar de cansaço do trabalho a sair-lhe pelos ombros.
Pronto, olha para isto murmurou, nem ligando se eu ainda estava na cozinha. Outra vez igual.
O quarto, cimentado entre o tempo e as desculpas, continuava cheio: sacos com roupas velhas, caixas de eletrodomésticos, o velho colchão da cama de solteiro encostado à parede, e a estante a servir de montra desordenada para frascos de compota vazios, livros esquecidos, carregadores e fios que ninguém sabe para quê guardamos. Só havia um corredor estreito até à janela, onde até a caixa das bolas de Natal já acumulava pó.
A Leonor apareceu atrás de mim, as mãos ainda húmidas do pano de cozinha.
Já trouxeste os papeis de parede? perguntou, olhando não para os rolos, mas para dentro do quarto, como se esperasse encontrar lá vegetação nova.
Trouxe. E tinta. E massa respondeu o Miguel, encostando os rolos contra a parede, para não estorvarem. Mas para começar, é preciso conseguir entrar.
Leonor não contestou, agachou-se e puxou um saco, arrastando-o uns centímetros. A porta abriu-se mais um pouco.
A sério, vamos lá como deve ser disse ela. Hoje arrumamos isto. Amanhã as paredes. Nada de depois se vê.
O Miguel assentiu, mas já vinha aquele velho desconforto de família. O nosso depois sempre foi a maneira de evitar discussões. Enquanto o quarto fosse de ninguém, tudo ficava suspenso, a espera não magoava.
Da cozinha, a voz serena da Matilde:
Se precisarem de ajuda, digam o que posso mexer.
A Matilde está connosco há quase dois anos, desde que a mãe partiu e venderam-lhe o quarto alugado em Benfica. É discreta, meticulosa, e mesmo que não se veja, sente-se a casa diferente quando ela está: como se alguém tivesse aberto as janelas. Não pesa, mas muda os gestos.
Tudo, Matilde atirei demasiado rápido. Depois corrigi: Quase tudo, vá.
O Miguel entrou devagar no quarto, saltando por cima da caixa onde alguém, numa caligrafia apressada, escreveu cabos. Pegou no colchão, ainda de pé, para o tentar empurrar. O colchão ficou preso por uma das pegas do velho baú de viagem.
Dá-me uma ajuda pediu ele à Leonor.
Ela segurou no colchão. O Miguel fez força e lá conseguiu tirar o baú. Era pesado, nos cantos o verniz já se soltava. O fecho estava embrulhado numa velha arame.
De quem é este baú? perguntou ele.
A Leonor afastou o olhar:
Era da minha mãe respondeu tão baixo que parecia temer que o próprio baú escutasse.
Matilde entrou com um maço de jornais atados com cordel.
Isto para o lixo? perguntou ela.
Os jornais sim respondeu o Miguel. Mas mete num saco, senão ainda ficamos a apanhar folhas até ao Natal.
Ele deixou o baú à entrada. Passou o dedo na arame do fecho, a tentar ver se abria, reflexo automático. A Leonor viu e cortou-lhe o impulso:
Deixa para já.
O Miguel olhou-a de lado:
Leonor, combinámos Hoje.
Ela apertou os lábios, agarrou a caixa das bolas de Natal e saiu para o corredor, como se fosse a tarefa mais importante do dia.
A Matilde desdobrou um saco de lixo e foi esvaziando os jornais. O barulho do papel a mexer trouxe-me nervos que nem sabia ter, mais do que o próprio caos do quarto.
Peguei numa caixa à sorte. No topo, fita cola, por baixo Tiago Escola rabiscado a caneta. O tempo já tinha soltado a fita, abri a tampa. Dentro, cadernos, um diário, diplomas de natação, uma régua de plástico. No topo, uma t-shirt pequena, com número nas costas.
Fiquei a olhar. Era roupa de miúdo, mas não tão pequena aquela idade em que ainda usam tudo às cores, sem vergonha.
Isto comecei.
A Leonor aproximou-se, viu e disse só:
Não mexas.
Porquê? quis o Miguel. Estamos a limpar
Não completou: ele não volta não se diz em voz alta, mesmo se se pensa.
Matilde, sempre de forma delicada, ergueu a cabeça do saco:
Ontem o Tiago telefonou disse, numa precaução. Ouvi-te falar com ele, Leonor.
A Leonor rodou depressa:
Estavas a ouvir à porta?
Não, Matilde ergueu as mãos. Só falaram alto. Ele perguntava por ti.
O Miguel ficou calado. O Tiago vive em Coimbra, tem emprego, aluga um T1. Aparece cada vez menos. Cada vez que vem é um acontecimento: a Leonor passa dois dias a preparar tudo, como se ele fosse o Presidente da República. O quarto dele já só existe porque ainda não ganhámos coragem de lhe dar outro fim.
Então? o Miguel perguntou. Vem?
A Leonor encolheu os ombros:
Disse: talvez na Primavera. E repetiu as palavras como um refrão que já se ouve há meses.
A caixa ficou aberta, a camisola vermelha lá no topo, o olhar a pesar.
Vamos fazer o meu escritório, disse o Miguel, farto. Não quero mais trabalhar entre tachos. Quero fechar uma porta.
A Leonor olhou-o como se ele tivesse sugerido sacrificar um animal de estimação.
Escritório. E se ele vier? Dorme onde?
No sofá da sala, como toda a gente! Ele já não é um miúdo.
A Matilde, voz baixa:
Comprei há tempos uma poltrona-cama lançou. Cabe ali a um canto, sempre dá para desenrascar.
O Miguel queria responder: o problema não é uma cama. É a Leonor guardar a promessa de que o filho terá sempre ali um refúgio.
Pegou noutro saco. Dentro, casacos fora de moda, cachecóis de tricot, mantas. Ao fundo, uma sacola de ferramentas: martelo, chaves de fendas, fita métrica, caixa de parafusos.
Isto é meu disse ele, finalmente com satisfação.
A Leonor acenou:
Fica. Disse-o como quem faz um favor.
Entretanto a Matilde resgatou uma mesa rebatível, tentou abri-la. Balançava péssima.
Vai fora, disse o Miguel.
A Leonor, rápida:
Espera, talvez dê jeito
Para quê, Leonor? Só serve para apanhar pó! Não vivemos num museu
Mal saiu a frase, arrependi-me. Ela baixou o olhar, foi colocando livros numa caixa sem sequer ver os títulos.
Não faço de museu, murmurou. Só que
Parou. De repente, vi-lhe as mãos a tremer enquanto fechava a caixa. Queria abraçá-la, mas nesse instante a Matilde encontrou uma pasta de cartão atrás da estante.
Aqui estão papéis, não sei se meto no lixo…
A pasta, com fitas, tinha cartas alinhadas, fotografias. Reconheci a letra da Leonor nas primeiras, mas não eram para o Miguel.
Vi-o ficar branco.
O que é isto? perguntou.
A Leonor ergueu os olhos, encontrou pelo menos dez anos de cansaço, depois só serenidade.
São antigas.
De quem? Miguel agarrou a carta como se queimasse.
A Matilde percebeu o erro e afastou-se à francesa:
Vou pôr água para chá.
Ficaram os dois no quarto, sentados entre caixas amontoadas, e o Miguel percebeu que as primeiras renovações começavam neles, não nas paredes.
São do André, disse a Leonor, acabando com o suspense. Recordas-te dele.
Como não se há de lembrar? Era colega de faculdade, namoro antes do Miguel. Casaram depois, tiveram o Tiago, fizeram uma vida igual à de toda a gente. O nome do André era só uma nota de rodapé, quase sem existência.
Porquê guardar isto? Miguel perguntou.
Leonor encolheu os ombros:
Porque não consegui deitar fora. É parte de mim.
E deixas isto no quarto proibido, como tudo o resto respondeu o Miguel. Sempre à espera.
A Leonor aproximou-se, tirou-lhe a pasta das mãos:
Não finjas que és diferente disse ela, ferina. Encontraste aquela folha de pedido de transferência para Lisboa que nunca chegaste a entregar. Eu já vi.
O Miguel pestanejou.
Qual pedido?
Aquele para ires para Lisboa. Imprimiste, assinaste, mas guardaste para depois.
Sentia-lhe a vergonha a crescer, misturada com raiva. De facto, pensou em ir trabalhar para Lisboa quando tudo lhe corria mal. Depois habituou-se, depois teve medo de mudar.
Não é a mesma coisa.
É, sim insistiu ela. Vamos enfiando tudo aqui: tu os teus projectos, eu os meus medos.
O Miguel olhou de esguelha para a caixa do Tiago.
E o Tiago disse por fim.
A Leonor inspirou fundo:
Nem penses.
Não é só dele que falo explicou-se o Miguel, mãos erguidas. Falo de nós. Guardamos espaço para ele, como se fosse pequeno. Mas já não é.
A Leonor sentou-se no colchão, a madeira a protestar:
Achas que não sei? Sei. Mas se largar tudo, sobra vazio.
O Miguel sentou-se de frente, numa caixa desconfortável.
Fica-me o vazio a mim também disse. Só não o embalo em cartas.
A Leonor olhou para a pasta, hesitou:
Pensas que é sobre o André? Não é. É sobre ter sido outra pessoa. Às vezes fico assustada de não ter vivido o suficiente. Não por tua culpa. Porque a vida passa.
O Miguel não respondeu. Olhou para ela sem aquela amarra da esposa agarrada ao passado, mas como uma mulher assustada por admitir que o futuro e o passado já quase não se tocam.
No corredor, passos cuidadosos. A Matilde voltou com três canecas de chá, ajeitou-as no parapeito.
E isto, onde ponho? sinalizou a pasta.
A Leonor, firme:
Não tens de nos salvar, Matilde.
Ela parou um instante. Depois, anuiu:
Não salvo ninguém. Só também queria entender o que vai ser disto.
O Miguel percebeu então: para a Matilde, o quarto de arrumos era também a espera do que fazer com ela própria. Talvez um dia temesse ouvir o agora tens de ir.
Arranjamos este quarto para viver disse o Miguel, sem pressa. Não para expulsar ninguém. Para viver.
A Leonor ergueu-se:
Vamos combinar então propôs. Hoje decide-se o que fica e o que sai. O que somos daqui para diante.
O Miguel acenou.
Escritório, vá. Mas com recanto para hóspede. Assim o Tiago pode vir. E a Matilde tem onde se fechar, se precisar.
Matilde esboçou um sorriso:
Não preciso de me fechar. Mas sim, de vez em quando sabe bem um canto só meu.
A Leonor foi buscar a fita métrica:
Vamos medir disse ela. Se puseres a secretária junto à janela e o sofá ao lado da estante…
Impressionou-me a rapidez com que ela pôs mãos à obra. Sempre foi a maneira de não afundar agir logo.
Começámos a esvaziar: Miguel foi levando sacos de roupa para o contentor da roupa usada. Eu separei livros para a biblioteca solidária e outros para ficarem. Matilde empacotava frascos de vidro que um dia hão de servir.
Os frascos vão fora, disse o Miguel.
Ficam, respondi. Comprei marmelos, este ano faço compota.
Miguel calou-se. Acho que percebeu: discutir frascos era sobre tudo menos frascos.
Ao entardecer, até o chão se via. O vinil velho, já ensacado. No canto, fotos antigas numa caixa esquecida. Sentei-me no chão, fui folheando.
O Miguel agachou-se ao meu lado.
Isto guardamos?
Guardamos respondi. Mas noutra parte. Não quero esconder, quero lembrar.
Separei algumas. Um Tiago pequeno, gorro azul, bochechas coradas do frio. Outra, eu e o Miguel novos, à porta do prédio em obras, futuro por construir.
O Miguel olhou a fotografia, murmurou:
Pensávamos que a vida era mais simples…
Sorri:
Pensávamos que sobrava tempo, espaço, tudo.
A Matilde regressou com o velho baú de viagem.
Onde deixo isto? e ali ficou à espera.
Olhei para o Miguel e depois para ela:
Vamos abrir.
O Miguel pegou nas tenazes, desenroscou o arame. O fecho cedeu. Lá dentro, lenços antigos, um álbum gasto, cartas, e no fundo, um cobertor de bebé, cuidadosamente dobrado.
Agarrei-o ao peito.
Trouxeram-me da maternidade nisto murmurei.
O Miguel pareceu aliviado. Não havia ali fantasmas, só ternura.
Guardamos? perguntou.
Não tudo. Fazemos uma caixa pequena, para a prateleira de cima: lembrança, não rotina.
Matilde sugeriu:
Etiquetamos: Da mãe.
Acenei:
Sim, Mãe.
Fizemos a caixa, dobrámos o cobertor e o álbum, algumas cartas. O resto foi para fora. Miguel subiu ao escadote, colocou a caixa lá em cima. Agora a estante, encostada à parede, era o canto das memórias mas só nos cantos. Em baixo, documentos, uma ou duas caixas para as épocas. Mais nada.
Nova regra propus, sentámo-nos no soalho. Tudo o que cá se meter, vem identificado e com prazo. Daqui a um ano, revê-se.
O Miguel arqueou as sobrancelhas.
Prazo?
Sim. Nada de águas paradas. E se alguém quiser guardar só por guardar, explica. Sem esconder.
Matilde acrescentou, em tom tímido:
E avisa-nos aos outros.
Miguel anuiu.
Feito.
No dia seguinte, Miguel arrancou o vinil velho e levou para o lixo municipal. As costas doíam-lhe de manhã à noite, mas estava sereno. Leonor tapava buracos nas paredes, cheia de pó. Matilde limpava os vidros, tirava camadas de muitos anos.
No final, pendurámos um candeeiro. O Miguel em cima da escada a tratar da eletricidade, eu a segurar fitas e a Matilde com a lanterna, porque a luz ainda faltava.
Liga pedi.
O Miguel foi ao quadro, subiu o disjuntor. Uma luz limpa, sem oscilar. O quarto mudou: deixou de ser de reserva, passou a ser um quarto.
A secretária ficou junto à janela. O Miguel pousou o portátil que sempre flutuava pela casa. Comprei um sofá-cama fininho, levei ao ombro do AKI. Matilde trouxe um candeeiro pequeno, encostou ao canto da Caixa da Mãe.
Levei o último saco de lixo à rua. No regresso, houve aquele silêncio habitado na casa. Fechei a porta, encontrei a Leonor a olhar o quarto novo.
E então?
Ela virou-se e disse só:
Parece futuro.
Ao passar, Matilde espreitou à porta:
Se o Tiago vier, eu desocupo.
A Leonor abanou a cabeça:
Ninguém desocupa nada. Não há destes ou daqueles quartos. Partilhado. Olhou para o Miguel. Seja quem for que fique, ou queira partir, fala. Não esconde.
O Miguel apagou a luz do corredor, deixando a do quarto acesa. Observou a mancha amarela no chão, a secretária, o sofá arrumado e a caixa alinhada na estante lá em cima.
Combinado disse.
A Leonor, antes de sair, endireitou o candeeiro. E esse gesto breve foi a primeira coisa nova ali: não proteger o passado, mas cuidar do que há de vir.





