A VIDA INCRÍVEL
No casamento da nossa querida amiga Mónica, a festa durou dois dias inteiros: uma celebração regada a bom vinho, comida farta e gargalhadas sem fim. O noivo, Tiago, era um verdadeiro encanto, com uma beleza digna de galã de novela, mas surpreendentemente humilde para alguém com aquele porte atlético e traços de Adónis. Toda a gente, disfarçadamente, não tirava os olhos do rapaz: olhos azul-claros, pestanas compridas e espessas (de dar inveja às mulheres mas para que é que Deus deu isso a um homem, sinceramente?), queixo decidido, nariz ao estilo romano e pele impecável, com um toque de bronze, claramente moldado pelas tardes de sol em Trás-os-Montes. O impacto final? Quase dois metros de altura e ombros largos, daqueles de meter respeito. Se não adorássemos a Mónica, aquela mesa de casamento virava cenário de empurrões e disputas pelo Tiago. Ele era irresistível, isso era certo.
Ó pá, como é que tu arranjaste este Adónis? atacámos a Mónica, cada uma a tentar puxar o olhar mais infeliz e solitário, só para o caso de o Tiago ter uma família cheia de primas solteiras igualmente deslumbrantes.
Meninas, nem imaginam! Eu apaixonei-me por ele pela sua simplicidade. O Tiago é de aldeia, cresceu com a avó, trata da casa, sabe fazer de tudo. Conheci-o por acaso, quando os meus pais compraram uma casa de campo lá no vilarejo. Ele é super sensível, gentil e confiável. O homem é um verdadeiro mestre da bricolage, minha nossa. Custou-me quase dez noites de conversa para o convencer a mudar-se para a cidade, um drama digno de novela, digo-vos!
Tiago adaptou-se à vida urbana com uma facilidade invejável: aprendeu sobre vinhos bons, perfumes caros, política, arte, viagens, até investiu na bolsa de Lisboa, ficou perito em desportos e perdeu o sotaque cerrado de Vila Real. Sentou-se ao volante do carro confortável que o sogro lhes ofereceu, ocupava um excelente lugar ao lado do mesmo sogro na empresa. Quanto ao presente mais valioso adivinhem vocês, não sou eu que vou contar!
No segundo ano de casamento, surgiu uma peculiaridade: Tiago apaixonou-se por meias brancas. Só usava meias brancas, reluzentes, tanto em casa como em visitas, sem chinelos, metia-as nas galochas, e enfrentava sem medo qualquer chão sujo, sempre com as suas meias imaculadas.
Mónica não partilhava esse entusiasmo pelas meias, mas lavava o chão duas vezes por dia e comprava toneladas de lixívia. Assim nasceu o apelido Meias.
A descoberta de uma amante aconteceu no oitavo mês de gravidez da Mónica. Curiosamente, a amante estava grávida há exatamente o mesmo tempo. Meias foi posto fora de casa, despedido, maldito e chorado durante um dia inteiro. Depois vieram dias pegajosos, escurinhos, daqueles de outono chuvoso. Mónica passava os dias deitada na cama que agora parecia gigantesca, a olhar para o teto com olhos secos:
Eu choro depois. Agora não faz bem para o bebé.
Mónica, como uma estátua, deitava-se silenciosa na tal cama ridícula, e nós, em revezamento, fazíamos turno ao seu lado, apoiando a amiga com o silêncio.
A vontade era de chorar alto, folhear o livro dos destinos e rasgar as páginas do traidor. Mas era preciso calar e esperar.
No dia da saída da maternidade, transformámo-nos num batalhão barulhento, com balões, a implorar ao pessoal de saúde para ceder-nos um chazinho e fugir conosco para a festa com ursos e ciganos, desejando a todos saúde e felicidade. O avô recém-promovido era o mais emocionado: na véspera, depois de prometer às enfermeiras que resolveria qualquer confusão, escreveu com giz, debaixo da janela do quarto da Mónica: Obrigado pelo neto!, e tentou cantarolar alguma coisa, mas acabou travado pelo segurança, que gentilmente aceitou partilhar um copinho de aguardente na sua sala para não perturbar a ordem pública.
No dia da alta, o avô brilhava, parecia até rejuvenescido, chorava de felicidade e orgulho. Era um choro sincero e moderado. Nós chorámos todos, rimo-nos, beijámos a Mónica, espreitávamos o bebé no envelope azul e evitávamos comentar o nariz romano do recém-nascido Hugo. Só a Mónica não chorava, nem na felicidade:
Depois. Vai que se nota no leite?
Mónica ficou calada mais dois meses, até que resolveu visitar Tiago. Sem fósforos nem ácido mas com uma vontade danada de gritar e desabafar. Repreender, bater nas paredes, envergonhar e tentar aliviar aquela dor que a prendia à cama, despejando num só golpe sobre o traidor. No destruidor das suas esperanças, do mundo deles, do menino pequeno, onde ela Mónica se imaginava, nas noites tranquilas a tricotar meias para todos, a ouvir as gargalhadas do Hugo, a passear de mãos dadas com o Tiago, e o Tiago, o homem da casa, o pai, tão amado e tão necessário.
E Mónica queria olhar nos olhos daquela criatura descarada, dormindo com o marido alheio olhos que de certeza seriam atrevidos, provavelmente lindos. E Mónica decidira: iria cuspir nesses olhos. E se necessário, arranharia.
O destino do escândalo soube ela, por acaso, graças às velhas sabidas do prédio, durante uma caminhada com o bebê. As senhoras pararam-na, lembraram que Tiago era de pouca confiança, desenharam o mapa até ao ninho dos amantes e sugeriram mil maneiras de vingança. Mónica ficou paralisada, a chorar por dentro, quase quis ir embora sem ouvir o número da porta, mas, por alguma razão, ficou.
Lá estava Mónica em frente ao prédio antigo, faltava só subir ao quinto andar e então podia cuspir ou berrear.
No primeiro andar, achou que com a sua sorte, provavelmente não estaria ninguém em casa e estava a perder tempo. No segundo, pensou que até era bom se ninguém estivesse em casa. No terceiro ouviu um choro infantil desesperado vindo do quinto.
Abriu-lhe a porta uma rapariga magra e chorosa, nada a ver com a imagem daquela mulher fatal que teria enfeitiçado o marido cordeiro. Enquanto Mónica observava a concorrente de quarenta quilos a fungar, o bebé continuava a chorar fundo dentro do apartamento.
Olá, Mónica. Tiago já não está, saiu há duas semanas. E não faço ideia de onde murmurou a rapariga, sentando-se no chão, a chorar.
Mónica perdeu a vontade de discutir. Só queria ir até ao quarto e acalmar aquela criança da mãe desnorteada. Depois, talvez espetar uma frase: Gostas de andar de carrinho, aprende a empurrar também, sua maria-vai-com-as-outras! Ah, tinha de dizer isso! E olhar com desprezo, claro. Afinal, tinha direito, era a parte traída.
O bebé estava seco, pálpebras inchadas, veia na testa, voz rouca. Claramente, queria comida. O rapaz gritava de fome, a mãe inconsequente chorava no chão.
Enquanto ela abria desesperadamente as portas vazias da cozinha à procura de leite ou misturas, e mexia no frigorífico pelado, Mónica só lembrava vagamente do resto.
No final, achou uma nota em cima da mesa: Peço na minha sm assustadoramente incompleta.
A rapariga chorava, contando a Mónica, como a uma amiga, que não tinha para onde ir quando o contrato de aluguel acabasse dali a dias. O leite secou, Tiago sumiu, dinheiro não há. E que tinha pena. E vergonha. E era tarde. E não sabia de nada. E pedia desculpa. E que podia bater-lhe se quisesse, até devia. E que o bebê se chamava Rafael, e era para Mónica guardar esse nome, só por precaução. Rafael era apenas 9 dias mais velho que o Hugo.
Mónica voltou para casa numa pressa em vinte minutos o Hugo iria pedir a mama. Não foi fácil: duas malas gigantes da Ana puxavam-lhe os braços, a própria Ana corria ao lado, com o Rafael alimentado, e Mónica só pensava onde pôr mais duas camas.
Três anos depois, celebrámos o casamento da Ana; quatro anos depois, foi a vez da Mónica. O marido da Mónica não suporta meias brancas, acha que a vida é para ser vivida com cor, e adora a esposa, o filho e as duas filhas. Ana, mãe de quatro rapazes, mantém o marido firme no sonho de uma menina…






