Não. Decidimos que é melhor não trazeres a tua esposa e a criança para este apartamento. Não vamos suportar o incómodo por muito tempo e, no fim, vamos pedir-vos que saiam.
E a tua esposa depois vai contar a todos que nos expulsaram à rua com o bebé. Isso vai manchar a nossa reputação, e eu não quero que falem mal de nós. Então nem penses em trazer a Lurdes e o miúdo aqui. Resolve o assunto de outro modo.
A vizinha da porta ao lado reparou imediatamente que a Lurdes tinha regressado da conversa com o marido com o rosto abatido. As duas tinhamse tornado mães há três dias e ainda iam ser dadas de alta depois de amanhã. Grande alegria! Não havia razão para tristeza.
Lurdes, não tens expressão. O que se passou? perguntou a senhora da porta.
O Tiago disseme que a senhorita da casa mandounos sair imediatamente. Diz que o apartamento foi alugado a um casal sem filhos e nós vamos chegar com um bebé. Vai haver choro à noite, os vizinhos vão queixarse e ela não quer problemas. respondeu Lurdes, ainda surpresa.
E então? Não têm mais onde ficar? indagou a vizinha.
O pai do Tiago tem um apartamento de três quartos, mas lá vive ainda a irmã mais nova. E os meus pais moram numa aldeia a vinte quilómetros de Lisboa. respondeu Lurdes.
Então, poderiam ficar uma semana ou duas na casa dos pais, enquanto procuram um novo lar sugeriu a senhora.
O Tiago já estava à procura, mas os senhores, assim que sabem que há um bebé, recusamnos de pronto. lamentou Lurdes.
É um imprevisto, mas ainda faltam dois dias; o teu marido vai inventar alguma solução. tentou animar a vizinha.
Mas Tiago não inventou nada. Telefonou a vários anúncios, recebeu recusa após recusa e acabou por transportar as coisas da casa alugada para o apartamento dos pais.
Os pais e a irmã mais nova não ficaram nada contentes com a ideia de receber a família do Tiago, ainda mais com um recémnascido a fazer tanto barulho.
Filho, lembrate que, antes do teu casamento, acordámos que não vais viver connosco com a tua esposa lembrou a mãe, sentada na cozinha. Tens todo o direito de ficar no teu quarto, mas não queremos estranhos na nossa casa.
A Lurdes é uma estranha para nós. Para ti é esposa, para nós é pessoa de fora. Tu a escolheste, nós não a escolhemos. acrescentou a mãe, apontando para a porta.
Mas, mãe, é temporário, até encontrarmos algo melhor implorou Tiago.
Sabes bem que nada é mais permanente que o temporário. Primeiro ficarão aqui uma semana, a semana vira mês, e o mês transformase em eternidade. advertiu ela.
Não, além disso, eu e o pai trabalhamos, a irmã estuda. Queremos descansar. Com um miúdo na casa não conseguimos: não se fala alto, não se vê televisão, tem de estar pronto a acordar a qualquer hora por causa do choro. explicou Tiago.
Vamos tentar encontrar algo mais depressa prometeu o filho.
Quando Lurdes recebeu a notícia, Tiago apareceu no hospital.
Lurdes, penses ficar na casa dos teus pais com o bebé por enquanto? perguntou ele, tentando ser diplomático.
Não vai a tua mãe querer ver o neto? exclamou Lurdes, surpresa.
Não sei, a minha mãe dissenos para não ir. respondeu Tiago, confuso.
Perfeito! As outras mães são recebidas com flores, presentes e alegria, enquanto nós somos como semabrigo, nem queremos ser vistos. desabafou Lurdes, sentindose rejeitada.
Numa tarde Lurdes telefonou aos pais. No dia em que ela e o filho foram dados de alta, chegou o pai dela.
Vamos, filha, leva o neto e vamos para casa. disse ele, dirigindose a Tiago. Leva todas as coisas da Lurdes e tudo o que comprámos para o bebé.
Chegaram à aldeia de Caldas da Rainha em trinta minutos. Lá já estava tudo pronto para o pequeno: um quarto diminuto com um berço forrado de lençóis de ursos e coelhinhos, um candeeiro de parede, um guardaroupa para as roupinhas e uma cadeira de amamentação confortável.
Na sala de jantar esperava uma mesa posta para um almoço festivo. Não havia estranhos, só os pais de Lurdes, a avó, e a irmã mais nova, a Irene.
Os parentes de Tiago não foram mencionados, mas animadamente debatiam o nome do menino. Decidiram chamaro Ílian.
Tiago saiu logo após o almoço, prometendo voltar no dia seguinte com as caixas restantes. Quando regressou, esperavamlhe boas novas.
Lurdes, Tiago anunciou o pai, quando toda a família estava reunida à volta da mesa. A mãe e eu decidimos vender a casa da avó e o dinheiro será para vocês.
Iremos formalizar como presente da nossa família à Lurdes. Há uma condição: a casa onde vivemos agora ficará, por testamento, para a Irene. Concordas? perguntou o pai.
Claro que sim. respondeu Lurdes, aliviada.
Então, amanhã publicarei o anúncio de venda. concluiu ele.
A casa foi vendida em três meses. Nesse período Lurdes e Ílian ficaram na aldeia, enquanto Tiago vivia na cidade, no apartamento dos pais, mas nos fins de semana era sempre ao lado da esposa e do filho.
Mais um mês e meio foram gastos a procurar um apartamento, a contratar um crédito à habitação e a fazer a reforma. Finalmente, chegou o dia em que Lurdes, Tiago e o pequeno Ílian mudaramse para a sua nova habitação. Passaram quase um mês a acomodarse, e quando tudo estava no seu devido lugar, organizaram a casanova.
Convidaram os pais de Lurdes, as amigas dela e os amigos de Tiago. Porém, os pais de Tiago não apareceram. Na verdade, nem sequer souberam que o filho tinha comprado um imóvel; pensaram que mudariam apenas para outro apartamento alugado.
Quando Tiago estava a recolher as suas coisas, a mãe exclamou:
Olha tu, filho, convidas a família do campo para a festa de inauguração e nem nos dizes que já tens casa própria? Poderias ternos convidado também!
Ainda não tínhamos visto o neto, afinal. Não se comportam como família, não é, filho? retrucou a mãe, ao telefone.
E impedir a minha esposa e o recémnascido de entrar na vossa casa, isso é ser familiar? indagou Tiago, irritado.
Eu já vos expliquei: somos pessoas idosas, precisamos de paz. Mas agora podemos vir à visita? insistiu a mãe.
Porquê?
Porquê não? O Ílian é o nosso neto. respondeu Tiago.
O nosso filho já tem quase seis meses, mas de repente decidiste querer vêlo agora. Estranho, não? comentou a mãe.
Não é estranho. Quando era muito pequeno, não havia nada a que olhar respondeu a avó.
Eu acho que a razão é outra. Vocês temiam que eu trouxesse a minha família para a vossa casa e estavam a proteger as suas paredes como uma fortaleza. sugeriu Tiago.
Enquanto a Lurdes e o Ílian viviam na casa dos pais, vocês não se apressaram para conhecer o neto. Agora que temos a nossa própria casa, querem aparecer como convidados. Desculpa, mas ainda não estamos preparados para vos receber disse Tiago.
Então ficaram ofendidos? perguntou a mãe. Eu, aliás, queria convidar a tua esposa e o bebé para ficar no nosso quintal durante todo o verão.
Porque? ficou surpresa o filho.
A criança precisa de ar fresco. Na cidade, em maio, já faz muito calor, e no verão o calor e a poeira são insuportáveis. explicou a mãe.
A tua esposa poderia viver no quintal, sozinha, sem incomodar ninguém; eu e o pai só viríamos nos fins de semana. sugeriu Tiago.
Eu tenho licença em outubro e ele em novembro. Não vamos cobrar nada; a Lurdes pode cuidar das hortas, colher os pepinos para não ficarem demasiado grandes concluiu a mãe.
Entendi, mãe! Precisam de uma ajudante de verão para a quinta. Não, façam como quiserem. Se quiserem levar o Ílian para o ar fresco, a Lurdes levará ele para a casa dos pais. respondeu Tiago, resignado.
Foi só quando o Ílian já tinha dois anos e meio que a mãe e a irmã de Tiago o viram por acaso num centro comercial. Ficaram a observar à distância, mas não se aproximaram.
Essas são as histórias de avós e mães.
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