Como é que isso vender?! exclamou, desconcertada, Sofia Almeida, encarando o filho. E eu, onde é que vou morar? No corredor? Na estação? Ou pretende transformar a minha casa num lar de idosos?
Mãe, por que é que estás a começar tudo isto outra vez suspirou o filho, Tiago.
Ou pretendes oferecerme a caixa da máquina de lavar? elevou a voz, já mais alta. Perdideste a cabeça, Tiago?!
Não grites. Só queria discutir as possibilidades
O que há para discutir? Casa não é mercadoria a que se vende quando a vida complica! afastouse bruscamente da mesa. Nasci aqui, cresci aqui. E tu decidiste pôr tudo à venda!
Nesse instante entrou na casa sem bater a vizinha, Lídia Vasconcelos.
Sofia! Por que é que estás parada como pedra? Tu mesma diste o voto de que este ano ia plantar todas as hortas. No inverno passado quase ficaste sem nada! Onde está o teu plano para o pomar?
Lídia, eu estava a tentar, honestamente baixou o olhar. Só os rebentos começaram a surgir e eu não consigo sequer arrancálos.
Nem precisarás de arrancálos! Há um mês doute o número do Joaquim, o tratorista de Vila Nova de Cerveira! Ele ara o campo inteiro e ainda faz a colheita! Plantarias algo útil, não só rosas a admirar nos teus anos
Tiago dizia que, talvez, no verão, chegariam os amigos. Churrasco, fogueira. E eu só tenho azinheiras, rosas
Ah, essas tuas rosas! riu Lídia. Nos últimos cinco anos o teu filho só apareceu três vezes. E sempre com cerveja, nunca com o churrasco.
Ele trabalha. Tem muito a fazer
E o inverno, lembraste quando nevou? Nem comida, nem remédios! Ainda bem que eu apareci. E o teu filho trabalhador, onde é que esteve? Nem ao telefone responde!
Ele vem sempre quando eu chamo
Sofia, és como uma menina: acreditas e esperas. O tempo não pára. Tens de usar a cabeça, não só o coração. Agora o que precisas são canteiros, não arbustos de rosas!
Talvez faça as hortas. Onde a azinheira já está a morrer
Isso mesmo. E a tua filha, como vai?
Tudo como sempre. Tiago fala-lhe de vez em quando feliz aniversário, bom Ano Novo E nada mais.
Cada vez menos Tiago aparece, menos preocupações. Não quero assustar, mas o futuro só vai ficar mais calmo
Sofia Almeida vivia na aldeia da Oliveira, perto do Porto. Ficou só com os filhos há vinte anos, depois que o marido morreu numa acidente na autoestrada. A primeira filha, Eurídice, era sensata, aprendeu a lavar roupa e a cozinhar cedo. Tiago chegou mais tarde, quando a mãe já tinha quarenta anos, e foi o seu consolo. Quinze anos de diferença. Tempos diferentes, crias diferentes.
Eurídice foi a primeira a partir.
Mãe, quero fugir.
De quem? Do Rúben da aldeia? Não deixo! Não tem qualificação, nem educação, nem cultura!
É a minha vida, mãe. Já tenho dezoito.
Já viste o estômago dele? Não há alma lá dentro está tudo cheio de gordura!
Não é uma questão de aparência, ele é bom, inteligente. Trouxeram-lhe trabalho na cidade.
E vais ir com ele?! E eu aqui sozinha?
Vou estudar. E viver.
Sofia chorou, implorou. Mas Eurídice, arrumando a mala e saltando pela janela, desapareceu. Não deixou cartas, nem telefonemas. Só boatos de vez em quando, através de conhecidos.
Tiago ficou muito tempo com a mãe. Construiu um pequeno jardim para descansar: alpendre, baloiço, churrasqueira, relva. Flores. Mas nada de hortas, nada de batatas.
Mãe, porque é que precisas de hortas? Na Oliveira já há supermercado! Tem tudo batata, curgete, verduras. Porque te curvarias?
Bem, aqui sempre fizemos as coisas à moda antiga
Isso foi há muito! Estamos no século XXI!
Sofia acabou por aceitar. Vivia modestamente, mas confortavelmente. Tiago trazia mantimentos, remédios, levavaa ao médico. Depois conheceu a Marina e casouse. Sofia recebeua, mas nunca se deram bem. Não escondia o desprezo pela vida rural, e sobretudo pela nora.
Numa visita de rotina, Tiago, como sempre, abraçoua, pôs os mantimentos na mesa e sentouse.
Mãe, preciso falar. Tenho uma ideia Muito lucrativa.
Lá de novo a falar de negócios?
Mãe, na Oliveira estão a comprar a terra! Querem construir um conjunto de moradias. Infraestruturas, tudo pronto. Se vendermos a tua casa com o terreno, dános para comprar um apartamento de um quarto em Vila Nova de Gaia. E ainda sobram fundos para o início.
Espera E eu? Onde é que eu fico?
Mãe, não comeces a chorar. Podemos pensar numa casa de repouso ou alugar um apartamento. Não na rua!
Tu queres que eu vá para um apartamento? Num cortiço, onde cada cantinho tem história? O que é isto, estás a brincar? Esta é a casa da nossa família!
Mãe, é só uma casa. Velha, desconfortável. Enquanto o preço sobe tem de vender.
Jamais! apertou os punhos. Enquanto eu viver, a casa permanece. E não a incluo no testamento!
Tiago puxouse bruscamente, agarrou as chaves e saiu sem se despedir.
Sofia saiu ao quintal. No canteiro havia um arbusto de rosas a meioflor. Numa mão uma pá, na outra um machado. Decidiu revolver o canteiro para virar horta, mas não conseguiu mover nada.
Ainda nada? gritou Lídia do outro lado da cerca.
Não tenho forças. Nem nos braços, nem no coração.
Já é tarde! A época está perdida. E o teu Tiago, talvez nem volte.
O que me aconselhas?
Pensa com clareza. Faz tudo direito terás um apartamento em Vila Nova de Gaia. Hospital perto, supermercado, calor, vizinhos. Civilização.
Sofia não dormiu a noite inteira, pensava. De manhã apanhou o autocarro e foi para Vila Nova de Gaia, para Tiago. Decidiu ceder e conversar com calma.
Subiu ao terceiro andar. Parou à porta, hesitando.
Do interior ouviuse uma voz:
Vira, ela não quer vender! Teimosa como um trator!
Então vai trabalhar de carregador! Como é que eu vou manter o negócio?! Estamos à beira do abismo e tu fica a fazer drama! Que se dane a Oliveira!
Sofia ficou imóvel. Depois bateu a porta com furor.
Mãe?! respondeu Tiago.
Obrigada, filho, por me enterrarem! a voz tremia. Vim para conversar, reconciliar. Mas agora escuta: nunca vendo! Nunca! Melhor eu enterrar-me na terra do que entregar à tua empresa!
Mãe
Sai daqui com a tua ambição! gritou. Que os pais dela vendam os apartamentos! Mas a minha casa, não a toque!
Sofia voltou ao caminho e foi embora. Passou a noite na estação. De manhã regressou a casa. Três dias ficou deitada, depois levantouse, pegou o machado, mas não conseguiu chegar ao arbusto.
Ao amanhecer alguém bateu à porta.
Quem é?
Mãe, sou eu. Eurídice.
Eurídice?! ficou paralisada. Minha filha
Mãe, como estás?
Eu a voz falhou.
Tiago ligou. Diz que estás descontrolada, não queres vender a casa. Eu lhe respondi: Vai embora. Ele pensou que já tinhas decidido Mas eu percebi que é hora de voltar.
Filha mas nós
Quando foi isso? Tenho três filhos. E agora compreendo tudo!
Filhos?
Duas filhas e um filho. E o Romão, agora magro, pratica desporto, trabalha em TI.
E tu?..
Vamos visitarte nos finsdesemana. Trago mantimentos, tudo o que precisares. Agora estamos perto, mãe.
E as hortas?
Já não precisas de hortas. Agora tens netos.
Sofia chorou e abraçou a filha.






