Mariana cresceu numa aldeia a algumas centenas de quilómetros de Lisboa. Para chegar à cidade durante o verão, tinha que apanhar um barco para atravessar um rio impetuoso, enquanto no inverno enfrentava estradas cobertas de neve.
Ainda assim, nessa aldeia vivia muita gente. Todos se conheciam, conversavam, partilhavam os seus desafios e ajudavam-se uns aos outros como podiam.
Mariana era a filha aguardada com esperança pela família, mas… a mãe deu-lhe à luz fora do casamento.
O pai da rapariga era João um homem alto e bem-apessoado, marido da melhor amiga da sua mãe. Mas ninguém suspeitava quem era realmente o pai da criança. João tinha já três filhos e nunca quis abandonar a família. Quant à mãe de Mariana, também não queria destruir o lar da amiga.
Desde o berço, Catarina (filha de João) e Mariana tornaram-se amigas, brincavam juntas e até frequentaram a mesma turma na escola. Desde pequena, Mariana revelava ouvido apurado para música, e ambas foram juntas à escola de música. Concluíram a formação com distinção e sonhavam entrar no conservatório de música na capital.
Porém, ao terminar a escola, os caminhos das duas irmãs por parte do pai (que não sabiam deste laço) separaram-se: Catarina partiu de vez enquanto Mariana permaneceu na aldeia. Comunicaram-se cada vez menos até perderem completamente o contacto durante muitos anos.
Claro, aqueles sonhos de infância revelaram-se simples devaneios nenhuma ingressou numa escola de música. Catarina estudou tecnologia alimentar, e Mariana tornou-se cabeleireira. O tempo passou, Mariana casou-se, teve dois filhos e só de vez em quando se recordava dos tempos passados com Catarina.
Já nessa altura, os médicos descobriram que a mãe de Mariana tinha um tumor, e a filha fez tudo o que pôde para a ajudar. Como é habitual, segredos acabam por vir ao de cima. Quando a mãe de Mariana se despediu deste mundo, fez uma confissão:
O teu pai… o teu pai… Aproxima-te, minha filha…
A revelação deixou Mariana transtornada. Descobriu que crescera toda a vida ao lado da própria irmã sem nunca o saber! Não era por acaso que tinham gostos tão semelhantes os genes do pai explicavam muito.
Encontrar o número da irmã exigiu grande esforço de Mariana. Afinal, o pai já há muito deixara a aldeia Catarina levara os pais para viver em Lisboa, perdendo-se os traços da família. Mas, com a ajuda de conhecidos, Mariana conseguiu finalmente o contacto de Catarina.
Ao marcar o número, ouviu logo a alegria do outro lado. Catarina ficou muito contente por receber um telefonema daquela amiga de infância. Mas Mariana achou importante contar pessoalmente o que sabia, e propôs-se encontrarem-se.
Dias depois, Catarina veio até à aldeia natal. As irmãs conversaram longa e demoradamente, recordando os tempos de escola e de infância. Ficaram imensamente felizes por se reencontrarem depois de tantos anos. Desde então apoiam-se mutuamente, visitam-se sempre que podem e, claro, Mariana passou a conviver com o pai.
João pediu desculpa à esposa, que o perdoou. Agora, ele e Catarina visitam Mariana, e vão também ao local onde descansa a mãe dela. João brinca com os netos, que adoram ter um avô presente. Assim foi o destino a verdade veio ao de cima depois de tantos anos, sem trazer dor a ninguém.







