Escrevo estas linhas para pôr em ordem aquilo que ainda me buli na cabeça. Hoje soube a verdade. Mas, para chegar a ela, tenho de recuar até à infância.
Lembro-me bem da nossa mercearia da aldeia, a que todos chamavam simplesmente a loja. As crianças passavam por lá para comprar rebuçados ou bolachas. A mim, raramente me calhava dinheiro. A minha mãe, Madalena, dava-me uns cêntimos às escondidas do Manuel.
Antes de eu entrar, a minha amiga da vizinhança espreitava sempre pela janela para ver se o Manuel estava lá dentro. Se o encontrava sentado ao balcão, eu virava costas e ia para casa, porque sabia que ele ficava zangado com a minha presença. Mas, se em vez dele estivesse o tio Joaquim, o nosso vizinho, tudo mudava.
Ele via-me logo da porta, sorria com sinceridade e pedia à Fátima, a mulher do balcão, que me desse o maior chocolate que houvesse. Dizia sempre que ele pagava, e tirava a carteira do bolso. A Fátima até lhe perguntou uma vez por que razão comprava doces à filha da Madalena, quando aos outros miúdos pesava apenas cem gramas de rebuçados. O tio Joaquim encolheu os ombros e disse que simplesmente tinha pena da criança que tão raramente via uma guloseima daquelas. A Fátima não respondeu, porque para ela o mais importante era o dinheiro da caixa ao fim do dia.
Em nossa casa, a paz nunca era verdadeira. O Manuel não escondia que não gostava de mim; eu sentia-o desde pequena. Bastava um par de sapatos fora do sítio, um prato mal lavado, ou um simples olhar meu, para ele se incendiar. Quando levantava a voz, a minha mãe tentava pôr-se entre nós. Fazia um escudo com o corpo, pedia-lhe que se acalmasse e que não tocasse na criança. Ele ficava ainda mais irritado, dizia que ela tinha trazido para o lar não se sabia quem, e que ainda tinha o descaramento de falar contra a palavra dele. Muitas daquelas palavras não faziam sentido para mim, mas doía-me ver a minha mãe encolhida.
Da beleza da minha mãe restam umas fotografias antigas, guardadas numa caixa de madeira no fundo do armário. Nas imagens, ela sorri, com o rosto fresco e alegre. Muitas mulheres da aldeia, na idade dela, ainda estavam bonitas; ela, não. Murchou cedo, e a culpa foi da vida de casada.
O Manuel arranjava sempre motivo para um reparo, mesmo quando tudo estava perfeito. Os vizinhos perguntavam uns aos outros o que faltava àquele homem. Tinha uma boa quinta, uma casa sólida, o quintal arranjado. Eu tirava boas notas na escola, portava-me bem e, mais tarde, entrei sem dificuldade no instituto, em Coimbra. A minha mãe nunca o contrariava; seguia as ordens dele em silêncio, para não acender mais uma discussão.
Quando finalmente fui estudar, respirei fundo pela primeira vez. Mas a cidade não me afastava da ideia de a minha mãe ter ficado sozinha com ele. Nos telefonemas raros ou nos fins de semana em casa, perguntava-lhe por que motivo o Manuel era tão duro connosco. Dizia-lhe que não sentia nele uma gota de amor e que, no fundo, ele também não amava a mãe. Ela baixava os olhos, tentava mudar de conversa e respondia que ele tinha um feitio difícil, que com o tempo tudo se havia de compor. Pedia-me para não pensar no mal e para me concentrar nos estudos.
Depois de acabar o curso, decidi que não voltava para a aldeia. Consegui um lugar de economista numa grande fábrica no Porto. Deram-me um quarto pequeno numa residência; era o meu canto, onde ninguém me podia mandar. Foi lá que conheci o Tiago, um jovem engenheiro que também trabalhava na empresa. Começámos por nos cruzar no trabalho, depois passámos a almoçar juntos e a dar voltas pela cidade quando saíamos da fábrica.
Quando o Tiago me pediu em casamento, ao fim de um ano, senti uma felicidade imensa. Comecei logo a imaginar o casamento, o vestido branco, a dança, a minha mãe a alegrar-se comigo. Queria acreditar que talvez aquela notícia amolecesse o coração do Manuel e o levasse a mostrar um pouco de afeto paterno.
No sábado seguinte, fui à aldeia para contar aos meus pais o meu plano. Durante o jantar, disse com calma que ia casar. A minha mãe desatou a chorar, mas de alegria; os olhos brilharam como há muito não via. Começou logo a falar no que era preciso preparar e como havia de organizar tudo. O Manuel não disse palavra. Pousou o garfo, levantou-se da mesa e saiu para fora. Nessa noite, não voltou a entrar em casa.
Mais tarde, quando ficámos sozinhas na cozinha, a minha mãe suspirou fundo e disse-me que ele recusava dar dinheiro para o casamento e não queria saber do assunto.
Quando voltei ao Porto e contei tudo ao Tiago, ele abraçou-me e disse que não precisávamos do dinheiro de ninguém, que havíamos de fazer tudo sozinhos. Eu sentia-me magoada e envergonhada diante dos pais dele. Imaginava o que pensariam da minha família e da forma como o meu pai me tratava. Acabámos por marcar um almoço simples no refeitório da fábrica, com os amigos mais próximos e com a família do Tiago. O Manuel não apareceu. A todos os convidados que perguntavam por ele, a minha mãe respondia que ele tinha adoecido de repente e não aguentara a viagem.
Antes do almoço, ficámos as duas num quarto, e a minha mãe ajudava-me a acertar o véu. As mãos tremiam-lhe e os olhos enchiam-se de lágrimas. Olhou para mim com uma tristeza tão funda que me deixou sem jeito. Sussurrou que tinha um pecado muito grande diante de mim e pediu perdão por tudo. Na altura, pensei que ela estivesse abalada por o Manuel não ter vindo e pela simplicidade do nosso casamento. Abracei-a e disse-lhe que não se preocupasse, que a ausência dele ficava na consciência dele e que o Tiago e eu haveríamos de ser felizes. Ela acenou que sim, mas ficou pálida e triste o resto do dia.
Depois do meu casamento, a minha mãe começou a definhar. Emagreceu muito, os movimentos ficaram lentos, e ela queixava-se de um cansaço constante. Veio visitar-nos algumas vezes. Sentava-se na nossa cozinha, começava uma conversa importante, mas parava a meio, sem nunca dizer o que trazia na alma. Não chegou a tempo.
No funeral, o Manuel comportou-se de um modo estranho. Não tinha qualquer expressão no rosto, não chorou, não falou com ninguém da aldeia. Custou-me muito olhar para aquele gelo. Depois de o enterro acabar, fomos à casa vazia para eu apanhar as minhas coisas. Ele parou-me à porta, olhou-me com aqueles olhos duros e disse, com rancor, que agora que a mãe tinha morrido, ninguém me esperava naquela casa e que eu não tinha lá nada que fazer. Essas palavras acabaram com tudo.
Os anos passaram. O Tiago e eu construímos uma família sólida; tivemos dois filhos maravilhosos. Mudámo-nos para um apartamento novo, e a vida seguiu em paz. Mas nunca me esqueci da minha mãe. Ia à aldeia muitas vezes, tratava da campa, levava flores e ficava um tempo ao lado dela. Quando passava pela quinta, via o Manuel a trabalhar no quintal, mas nunca parei. Aquela casa tornou-se-me estranha. Pensava que, no lugar dele, qualquer pai se orgulharia da filha, dos netos, das visitas; mas ele não.
No outono passado, voltei ao cemitério. O dia estava frio, o céu carregado de nuvens cinzentas. Ao longe, vi um homem junto do monumento da minha mãe, a mexer em qualquer coisa. A princípio, julguei que fosse o Manuel, e o coração apertou-se-me. Quando me aproximei, reconheci o tio Joaquim, o nosso antigo vizinho. Vestia um casaco velho e tirava com cuidado as flores secas que a primeira geada tinha queimado.
– Bom dia, tio Joaquim – disse eu, com calma, parando à beira da campa. – Não esperava encontrá-lo aqui. Veio ajudar a limpar?
Ele endireitou-se devagar, pôs as mãos nas costas e suspirou. O rosto estava cheio de rugas e o olhar cansado.
– Olá, pequenina. – A voz era rouca e usava o diminutivo com que me tratava em criança. – Resolvi dar uma ajuda, porque o mato seco já está a estragar a vista. É melhor limpar antes de a terra congelar.
– Ora essa, pequenina, tio – respondi, sorrindo para manter a conversa simples. – A minha filha mais velha já fala em casar. Não tarda, temos um casamento em casa. O tempo passa muito depressa.
– Pois passa. – Ele esfregou as costas e suspirou outra vez. – Ai, estas costas têm-me dado cabo de mim. Principalmente quando o tempo muda. Vê as nuvens? À noite temos neve.
O tio Joaquim tossiu, baixou os olhos para o chão e depois voltou a olhar para mim. O olhar dele ficou sério, quase tenso. Mudou os pés de sítio, limpou as mãos nas calças de trabalho e aproximou-se.
– Sabes, Inês – começou, e o facto de me chamar pelo nome inteiro deixou-me inquieta. – Há muitos anos, dei a uma pessoa a minha palavra de que nunca abriria a boca, que ficaria calado. Cumpri durante muito tempo. Mas agora que a Madalena já cá não está e que os meus dias também se aproximam do fim, sinto que não posso carregar mais este peso. Preciso de me confessar, para que conheças a verdade. Tens todo o direito de saber por que motivo o Manuel te tratou assim, a ti e à tua mãe. Ele simplesmente não é teu pai.
Aquelas palavras foram tão inesperadas que, a princípio, nem lhes entendi o sentido. Fiquei parada, a olhar para aquele homem, com o frio a subir-me por dentro.
O tio Joaquim continuou a falar, com a voz baixa e sem emoção, como quem conta uma história antiga. Disse que, em novo, ele e a minha mãe se tinham amado muito. A Madalena vivia então no tal bairro dos ricos da aldeia, onde só os melhores lavradores construíam casa. A família dela era orgulhosa, desprezava os vizinhos mais pobres e sonhava com um noivo de posses para a filha. A minha mãe tinha medo dos pais, por isso escondia o namoro com o Joaquim com toda a discrição. Nem a amiga mais próxima sabia. Toda a gente estranhava que uma rapariga nova, que trabalhava na Junta de Freguesia, recusasse os rapazes da terra. Pensavam que ela esperava por um pretendente da cidade.
A verdade veio ao de cima quando a minha mãe percebeu que ia ter um filho. Quando contou aos pais, foi um escândalo. A avó, em desespero, estava pronta a tudo para evitar que a filha casasse com o vizinho pobre. Começou a procurar um homem que aceitasse casar depressa com a Madalena e ficar com a criança de outro. O avô apoiou a mulher, disse que dariam qualquer dote, dinheiro e bens, mas que o Joaquim nunca entraria naquela casa.
A escolha recaiu no Manuel. Era bem mais velho, tinha um feitio sombrio, mas era prático e gostava de dinheiro. Quando lhe ofereceram uma boa quantia e a quinta em troca de silêncio e casamento, aceitou logo. Só pôs uma condição: não queria viver no mesmo pátio que os sogros. Foi assim que os avós tiveram de deixar a casa nova para o casal e mudar-se para um casebre no outro fim da aldeia.
A notícia foi um choque para toda a gente. Ninguém percebia como uma rapariga bonita casava com um homem tão rude e de poucas palavras. O tio Joaquim lembrou-se de que, no dia do casamento, choveu desde cedo, uma chuva fria, e que aquilo tinha sido a maior provação da vida dele. Desde o primeiro dia, o Manuel mostrou o que sentia. Não amava a Madalena e, quando eu nasci, a irritação dele só fez crescer. Ela também nunca se perdoou por ter cedido. Não amava o marido, culpava-se por não ter lutado pelo amor verdadeiro e já não queria ter mais filhos dele, com medo que saíssem àquele gênio.
Com o tempo, o tio Joaquim também constituiu família. Casou com uma mulher que já tinha um filho de outro casamento, criou o rapaz como seu e ainda tiveram outro filho juntos. Tentou viver normal, mas cada vez que me via na rua ou perto da loja, doía-lhe. Sabia que a filha crescia sem amor e não podia mudar nada. A única coisa que podia fazer era comprar-me o chocolate na venda, para mostrar à sua maneira que se lembrava de mim. Os meus avós tinham-no avisado com muita dureza: se ele alguma vez se aproximasse de mim ou contasse a verdade, faziam-no ficar sem casa.
– É esta a história, Inês – terminou o tio Joaquim, num suspiro pesado. – Agora sabes tudo, como foi.
Fiquei sem palavras. Na minha cabeça, os factos não encaixavam; mudavam por completo aquilo que eu julgava saber sobre a minha infância. De repente, entendi o ódio do Manuel, o medo da minha mãe, o pedido de perdão antes do meu casamento.
– Não julgues a tua mãe com demasiada dureza – disse ele, baixinho, ajeitando o barrete. – Para ela, foi muito difícil.
O homem virou-se devagar e seguiu pelo caminho estreito. Parou junto do portão, levantou o rosto para o céu escuro onde já caíam os primeiros flocos de neve, murmurou qualquer coisa, benzeu-se e continuou a andar na direção da aldeia. Ficou tudo em silêncio, e eu ali, sozinha, com as minhas perguntas e com a memória da minha mãe.







