Quando eu tinha uns 10 anos, e o meu irmão mais novo apenas 3, o nosso pai decidiu desaparecer do mapa. Arranjou uma mulher nova, certamente mais bonita que a nossa mãe, pelo menos segundo ele. O meu pai deixou-nos o apartamento claro, a pagar ao banco até não poder mais, porque isto de viver em Portugal tem sempre o seu quê de drama imobiliário.
Na altura em que os meus pais ainda estavam juntos, frequentava uma boa escola, participava em concursos, clubes e até jogava basquetebol. Mas depois do divórcio, a vida virou-se de pernas para o ar. A minha mãe teve de arranjar dois empregos ao mesmo tempo: de manhã limpava casas e à noite corria para cuidar de uma senhora doente no bairro. Mudámos-me de colégio para uma escola mais perto de casa, onde conhecia menos gente e os professores não eram propriamente um poço de simpatia. Basquetebol? Esquece lá isso! A minha mãe deixava-me sempre a tomar conta do meu irmão durante o pouco tempo livre que tinha.
Tudo ficou completamente diferente. Acabei o secundário, entrei na faculdade à rasca e, mal pude, comecei a trabalhar para ajudar nos encargos (com o ordenado mínimo em euros, claro está). A minha infância feliz? Ficou lá atrás, tal como aquelas séries boas de antigamente na RTP.







