Como é bom ser livre… – sussurrou Luísa, saboreando o café da manhã em silêncio, sem imaginar que o marido tão prestativo, exemplo de estabilidade e confiança, escondia segredos com a vizinha barulhenta do rés-do-chão – até ao momento em que uma porta se abriu e toda a ilusão de felicidade se desfez, levando Luísa a descobrir que, mais valioso do que qualquer rotina perfeita, era simplesmente pertencer a si própria.

Que bem que se está assim… sussurrou Clarinda.

Gostava de beber o café da manhã em silêncio, quando Artur ainda dormia e o céu lá fora começava a clarear. Nesses momentos, sentia que tudo estava no seu devido lugar. O trabalho seguro. O apartamento acolhedor. O marido de confiança. Que mais podia pedir à vida para ser feliz?

Não invejava as amigas, queixosas de maridos ciumentos ou discussões por ninharias. Artur nunca fora de fazer cenas, nem de lhe revistar o telemóvel, jamais lhe exigira relatórios dos seus passos. Estava apenas ali ao seu lado, sempre e isso bastava.

Clarinda, viste as minhas chaves da arrecadação? Artur apareceu na cozinha, ainda despenteado do sono.
Estão na prateleira junto à porta. Vais ajudar o vizinho outra vez?
O Manel pediu para dar uma vista de olhos ao carro dele. Encrencas no carburador, parece…

Ela acenou, enchendo-lhe a chávena de café. Era uma rotina familiar. Artur estava sempre disponível para os outros ajudava colegas nas mudanças, amigos nas obras, vizinhos em tudo o que fosse preciso. O meu cavaleiro, pensava Clarinda, enternecida. Um homem incapaz de ignorar as dificuldades alheias.

Essa faceta conquistara-a logo no primeiro encontro, quando o viu parar para auxiliar uma senhora idosa a carregar sacos até à porta do prédio. Outro teria passado adiante. Artur não conseguia.

A nova vizinha mudara-se ali há três meses, no andar de baixo. Clarinda nem lhe prestou atenção ao início. É normal ver gente a mudar-se para fora, em prédios grandes. Mas Dalila, assim se chamava, era daquelas mulheres que dificilmente passam despercebidas.

Ria alto nas escadas, saltitava de saltos a todo o momento, falava ao telemóvel num tom que ecoava por todo o prédio.

Sabes o que ele me trouxe hoje? Compras, um saco cheio! Sem eu pedir! dizia Dalila ao telefone.

Clarinda cruzou-se com ela nos correios e sorriu-lhe, educada. Dalila brilhava, irradiava aquele contentamento típico das mulheres apaixonadas.

Novo namorado? perguntou Clarinda, apenas por simpatia.
Não é bem novo… encolheu Dalila os olhos, maliciosa mas é um homem atento. Raro encontrar assim. Resolve tudo! Torneira a pingar? Ele trata. Tomada a faiscar? Ele ajeita. Até me ajuda a pagar as contas!
Que sorte…, comentou Clarinda.
Sorte é pouco! Bem, é casado, mas isso é só papel, não? O que importa é que comigo, ele sente-se feliz.

Clarinda subiu as escadas com uma sensação amarga. Não por questões de moral alheia, mas algo naquele discurso a inquietava de forma estranha, que ainda não sabia nomear.

As semanas seguintes viram os encontros fortuitos repetirem-se. Dalila parecia procurá-la de propósito, para partilhar as suas novidades com entusiasmo.

Ele é tão atencioso! dizia-lhe Pergunta sempre como estou, se preciso de alguma coisa…
Ontem trouxe-me remédios, assim que adoeci. Procurou uma farmácia aberta à noite!
Diz que o essencial é sentir-se útil. Que esse é o sentido da vida dele: ajudar…

Ali, Clarinda estremeceu.

“Sentir-se útil esse é o sentido da vida dele.”

Artur dissera aquilo, palavra por palavra, quando justificava, no aniversário de casamento, o atraso de ajudar a mãe de uma amiga na horta.

Coincidência, só podia. Quantos homens não têm esta mania de querer salvar o mundo? Mas os detalhes aliavam-se, um a um. O costume de trazer compras sem ninguém pedir igual ao Artur. O dom de arranjar tudo com as próprias mãos.

Clarinda afastou esses pensamentos. Parvoíces. Paranoias. Não iria suspeitar do marido com base em conversas de uma desconhecida.

Mas então, Artur mudou. Não abruptamente, mas aos poucos. Começou a sair por um instante, só voltava passadas horas. Passou a andar com o telemóvel até à casa de banho. Às perguntas mais simples, respondia seco, com impaciência:

Vais aonde?
Tratar de umas coisas.
Que coisas?
Ó Clarinda, estás a interrogar para quê?

Ainda assim, parecia… feliz. Um contentamento íntimo, novo. Como se enfim encontrasse, fora de casa, aquela sensação de indispensabilidade que lhe faltava dentro dela…

Numa noite, anunciou a intenção de sair:

O colega precisa de ajuda com uns papéis.
Às nove da noite?
Só pode ser agora, ele trabalha de dia.

Clarinda não debateu. Espreitou pela janela, viu que não saiu logo do prédio.

Pegou no casaco e, sem pressa, desceu ao rés-do-chão, parando diante da porta conhecida.

O dedo no botão da campainha. Clarinda não pensou em discursos, não ensaiou acusações. Tocou, esperou.

A porta abriu-se de imediato, quase como se o encontro fosse esperado. Dalila, num robe de seda curto e copo na mão, perdeu a expressão sorridente ao reconhecer a visita.

Atrás dela, no hall iluminado, Clarinda viu Artur. Sem t-shirt, cabelo húmido do banho, perfeitamente à vontade em casa alheia.

Olhares cruzaram-se. Artur estacou, boca aberta, congelado. Dalila alternou o olhar entre os dois, mas não se retraiu, nem desconcertada apenas encolheu os ombros, com displicência.

Clarinda virou-se e subiu as escadas. Atrás ouviu passos apressados, a voz de Artur: Clarinda, espera, eu explico… Mas não o deixou entrar em casa.

De manhã, Dona Isaura apareceu. Nem surpreendida estava claro que o filho correra para contar à mãe.

Clarinda, filha, não faças uma tempestade! A sogra sentou-se na cozinha. Os homens são como crianças; precisam sentir-se heróis. Essa vizinha, ela só… precisava de ajuda. O Artur não sabe dizer não.
Não soube também resistir ao quarto dela, é isso que me quer dizer?

Dona Isaura retorceu o rosto, como se Clarinda dissesse obscenidade.

Não compliques. O Artur é um bom rapaz. Tem um coração grande. Perdoa-se uma distração. O importante é a família. Com o tempo, tudo volta ao sítio, vais ver. És sensata, Clarinda. Não acabes com tudo por uma tolice.

Clarinda olhou para aquela mulher e viu-se ali tudo o que temia ser: complacente, demasiado tolerante, pronta a fechar os olhos só para manter a aparência do lar.

Obrigada, Dona Isaura, mas preciso de ficar sozinha.

A sogra saiu magoada, deitando-lhe ainda um olhar de reprovação sobre esta juventude que já não sabe perdoar.

Artur regressou à noite. Andou pela casa como um gato culpado, espreitando-lhe os olhos, tentou pegar-lhe na mão.

Clarinda, não é o que estás a pensar. Ela pediu-me para ajudar na torneira, depois ficámos à conversa, é tão infeliz, tão sozinha…
Estavas sem roupa.
Eu… molhei-me todo enquanto arranjava a torneira! Ela emprestou-me uma t-shirt, e foi quando chegaste…

Clarinda sentiu admiração como nunca reparara que ele era tão mau a mentir? Cada palavra soava falsa, cada gesto gritava desespero.

Olha, mesmo que… enfim, se aconteceu alguma coisa, não conta! Eu amo-te. Ela foi só… uma aventura. Parvoíce. Fraqueza de homem.

Sentou-se junto a ela no sofá, tentou abraçá-la.

Esquece, sim? Não volto a errar. Juro. Aliás, já me estou a fartar dela: está sempre a querer alguma coisa, sempre a lamentar-se…

Ali, finalmente, Clarinda entendeu. Não era arrependimento era medo de perder o conforto. Medo de ficar com quem de facto precisava dele, não apenas lhe permitia brincar ao cavaleiro à hora certa.

Vou pedir o divórcio disse, com a naturalidade de quem anuncia desliguei o ferro.
O quê? Clarinda, perdeste a cabeça! Por causa de um deslize?!

Ela levantou-se, foi ao quarto, pegou numa mala de viagem. Começou a arrumar papéis.

…O divórcio ficou tratado em dois meses. Artur foi viver com Dalila, que o acolheu de braços abertos. Mas os abraços depressa se transformaram em listas de tarefas: arranjar, comprar, pagar, resolver, ajudar.

Clarinda ia sabendo dessas coisas pelos conhecidos, respondendo sempre sem azedume. Cada um tem o que merece.

Ela alugou um pequeno T1 do outro lado de Lisboa. Todas as manhãs tomava o café em silêncio, e já ninguém lhe perguntava pelas chaves da arrecadação. Ninguém saía um instante e voltava com o cheiro de outro perfume. Ninguém lhe pedia que fosse tolerante, ou mais prática.

Curioso: pensava que haveria dor. Que viria a saudade, o vazio, os arrependimentos. Mas, no lugar disso, sentiu outra coisa leveza. Como quem tira um sobretudo que usou anos, sem dar conta do peso.

Pela primeira vez, Clarinda pertencia só a si mesma. E isto valia mais do que qualquer estabilidade.

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Como é bom ser livre… – sussurrou Luísa, saboreando o café da manhã em silêncio, sem imaginar que o marido tão prestativo, exemplo de estabilidade e confiança, escondia segredos com a vizinha barulhenta do rés-do-chão – até ao momento em que uma porta se abriu e toda a ilusão de felicidade se desfez, levando Luísa a descobrir que, mais valioso do que qualquer rotina perfeita, era simplesmente pertencer a si própria.
Bola zima roku 1950 a chlad prenikajúci až do kostí. V temnej izbe s hlinenými stenami a vlhkým zápachom 17‑ročná dievčina kýchala, svierajúc sa do plachiet, keď ju krútili kontrakcie. Bola sama, okrem bárky, staršej ženy s drsnými rukami a srdcom zvyknutým na tragédie.