Já não és a minha filha. Quem é ele e de onde vem, ninguém sabe. Tenho vergonha de ti. Vai viver na casa da avó e comportate como adulta. Assume a responsabilidade pelos teus atos.
Marta, ouviste? Trouxeram pessoas a trabalho para nos ajudar. Que tal irmos ao clube à noite? diz Marta, satisfeita, afundandose na cadeira.
Marta, e agora? E o Vítor, com quem fico? Levoo comigo? responde Olívia, rindo.
E se pedirmos à tia Lúcia? pergunta Marta, cautelosa.
Olívia sacode a cabeça, desesperada.
Não, nem à custa de tudo! Ela ainda não me perdoou por ter tido um filho. Sempre que podia, queria que eu casasse com o André, mas eu fui para a cidade estudar. Não estudei; voltei grávida. Passou o ano inteira zangada comigo, só há dois meses começou a falar. Então, vai encontrar alguém. Talvez tenhas sorte e encontres alguém.
Marta suspira.
Está bem, fico com a Tatiana. Amanhã conto tudo.
Olívia põe o filho a dormir e sai para a varanda. A música do clube chega até a casa. Envolta na manta, imagina todos a dançar e a rir. Marta provavelmente já está a vestir o seu vestido de tigre. Olívia sorri baixinho; no vestido parece uma lagarta listrada. Suspira, entristecida, e vai para a cama.
De manhã, antes do nascer do sol, Marta chega apressada. E, como que por azar, a mãe de Olívia aparece de visita. Olívia coloca o dedo nos lábios, mas não consegue impedir Marta.
É mau que não estiveste ontem. Havia uns rapazes. Um deles, o Vasco, até me acompanhou. Falador, com muito humor. Hoje tenho um encontro diz Marta, sem fôlego.
A mãe de Olívia, julgadora, pergunta:
Será que ele está casado?
Marta encolhe os ombros.
Não sei, não olho o passaporte. Se estiver, ao menos tenho algo para lembrar.
Ah, meninas, o que é que fazem? O André está à procura de noiva. Eu já perdi a minha sorte, mas tu, Marta, ainda podes enrolar-lhe a cabeça animase a tia Lúcia.
Tia Lúcia, calate! Quem é que precisa dele? E a mãe dele também! Por Deus, que sorte! exclama Marta.
Ela volta para Olívia:
Havia um rapaz tão bonito que não consegui desviar os olhos. Todas as meninas ficaram fascinadas. Ele ficou um bocado com os amigos e foi embora sozinho, nem pediu ninguém para dançar.
Então, inesperadamente, a tia Lúcia diz:
Olívia, também devias ir ao clube. Eu fico a conversar com o Vítor. Quem sabe não conheces alguém sério e confiável. O Vítor precisa de um pai. Não procureis maridos já casados; eles percebem logo que a mulher está sozinha. Entendida?
Olívia, incrédula, balança a cabeça e, sem conseguir conter a emoção, beija a mãe.
Vá embora, seu chorão resmunga a mãe.
Olívia, vestida com a sua melhor roupa, está com as amigas a conversar alegremente, a lembrar os tempos despreocupados.
Olhem, ele chegou outra vez sussurram as meninas.
Olívia olha para ele, as pernas tremem. Desviase rapidamente e diz a Marta:
Acho que volto para casa. O Vítor deve estar a chorar sem mim.
Marta se surpreende.
Olívia, que é isso? Saiste do clube antes de dançar? Nem sequer dancaste.
Olívia, decidida, responde:
Vou embora. O teu Vasco já deve estar a caminho. Não vais ficar entediado sem mim diz, dirigindose à porta.
Lá, alguém segura-lhe a mão:
Vamos dançar, rapariga?
Olívia tenta afastarse:
Não danço.
Mas o cavalheiro insiste.
Concedeme apenas um minuto da tua dança, por favor.
Ela virase finalmente; o coração acelera. Era ele, o mesmo rapaz da noite anterior, cuja presença mudou a sua vida para sempre, embora ele não a reconhecesse. O seu coração acalmase e sorri:
Então, só uma vez, porque estou com pressa.
Ele a envolve num giro.
Imagino que o teu marido esteja nervoso?
Olívia responde secamente:
Não estou casada.
Ele pisca, e ela sente o ar ficar mais denso.
Então há uma hipótese? pergunta ele, malicioso.
Olívia se afasta.
Nem penses nisso corre para fora do clube.
A caminho de casa chora. Guardará a imagem dele para sempre, como se fosse amor à primeira vista, embora ele não a reconhecesse.
Mais tarde, no comboio, encontramse de novo. Ela volta para casa desanimada depois de ter falhado nos exames; ele vai visitar os pais. Ao notar a tristeza de Olívia, tenta animála.
Chamome Manuel. A mãe chamame Manuel, o sobrinho é o Mário. Escolhe o que preferires.
Olívia sorri.
O Mário parece mais interessante.
Ele estende a mão:
Já estamos quase a conhecernos. E tu, como te chamas, criatura encantadora?
Ela responde:
Olívia.
Manuel acena com seriedade:
Sabia. Um nome digno de realeza.
Ela lhe conta, palavra por palavra, que reprovou nos exames e que a mãe lhe recordará isso durante anos.
Então preparate para o inverno e tenta novamente aconselha Manuel.
Olívia agradece, radiante.
Sério? Nem pensei nisso. Obrigada.
Manuel a encara pensativo:
Não há de quê. Já alguém já te disse que és muito bonita?
Olívia ruboriza.
Só sou normal, não exageres. Mas obrigada.
Manuel chega mais perto.
É verdade, diz e beijaa inesperadamente. O mundo de Olívis dá voltas; o que se segue é ao mesmo tempo embaraçoso e doce. Ele sai antes.
Vou encontrarte novamente.
Só depois Olívia percebe, com desgosto, que ele nem sequer lhe pediu o endereço.
Eventualmente, descobre que está grávida. A mãe, áspera, diz:
Já não és a minha filha. Quem é ele e de onde vem, não sei. Tenho vergonha de ti. Vai viver na casa da avó e comportate como adulta. Assume a responsabilidade pelos teus atos.
Olívia, antes do parto, trabalha numa biblioteca, prolonga o contrato até ao licenciamento parental. No hospital, encontrase com Marta; a mãe nem aparece. Quando Vítor completa cinco meses, o coração de Olívia já não aguenta e vai ao hospital.
Não somos da mesma espécie conclui a mãe.
Mas passa a visitaro mais vezes, trazendo brinquedos ao neto.
Por que vem tão cedo? pergunta a mãe. Não havia nada de interessante aqui. Como está o Vítor?
A mãe sorri.
O teu filho está a dormir. Já que vieste, fico em casa.
Olívia fecha a porta atrás dela e tenta adormecer, só conseguindo descansar ao amanhecer. Sonolenta, amamenta o filho; Vítor brinca e recusase a comer papas.
Se não comeres papas, não crescerás como o teu pai, que é forte e bonito.
És tu a falar de mim? Gosto disso. responde a voz da porta.
Olívia oferece a colher.
És? De onde? Manuel sorri.
Eu dizia que iria encontrarte. Não sabia que o meu filho nasceria neste intervalo. Naquele momento, esquecime de te perguntar onde vives. Mas talvez o destino tenha decidido que estamos juntos diz ele, fazendo uma cara engraçada a Vítor.
Vítor ri alegremente.
De manhã, a mãe surpreende Olívia feliz, ao lado de um homem desconhecido que carrega o filho nos ombros.
É ele? pergunta a mãe.
Sim responde Olívia, sorrindo.
A mãe se aproxima de Manuel e estende a mão:
Chamome Lúcia. Vou vigiarte como mãe e como pai, com rigor.
Manuel apertaa firmemente e acena.
Entendido.
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