Estou-me a ir embora, para perceberes o que perdeste! Vive uma semana sozinha, uiva à lua sem homem em casa, pode ser que aprendas a dar valor ao cuidado! gritou Rafael, arremessando dramaticamente um molhinho de meias para dentro do saco de ginásio, quase derrubando o meu vaso favorito do aparador.
Observei tudo em silêncio, encostada à ombreira da porta, com um vulcão de mágoa e vontade de rir às gargalhadas dentro de mim. O meu marido, um rapaz de trinta anos, fazia birra no meio do meu sim, comprado por mim antes de casarmos! T1 em Lisboa, ameaçando-me com a própria ausência. Parecia crer, piamente, que ao sair, as paredes se desmoronariam e eu murcharia como um alecrim num vaso esquecido.
Tudo começou, como sempre, depois do almoço de domingo em casa da dona Rosalina a sogra. Ela tinha o dom de elogiar como quem amaldiçoa e aconselhava num tom que faria envergonhar qualquer sargento da GNR.
Rafael voltou carregado. Bastava olhar-lhe para perceber: lábios semicerrados, olhar a varrer divisões, narinas em caçada por pó.
Carminda, porque é que as toalhas de banho estão outra vez! trocadas? entrou a azucrinar, nem sequer se descalçando. A mãe diz que isso dá poluição visual e desequilibra o feng shui da casa.
Respirei fundo.
Rafael, a tua mãe só conhece feng shui do programa do Goucha. As toalhas ficam como dá mais jeito às mãos molhadas respondi, mexendo o arroz de pato no fogão.
Ele franziu o sobrolho e invadiu a cozinha, apontando à tampa da panela:
O quê, arroz de pato inteiro? Mãe diz que mulher de verdade desfia e tritura tudo, para melhor digestão do homem. Não queres saber, é preguiça tua.
Olha, Rafael pousando a colher. A tua mãe não tritura porque lhe faltam dentes; achou melhor comprar faianças do que pagar ao dentista. Tu tens dentes, mastiga.
Ele ficou vermelho, icou o peito e prestes estava a despejar mais sabedoria materna, mas calou-se.
Tu és uma ingrata! bufou. A minha mãe é quase doutora em economia doméstica!
Rafael, a tua mãe foi porteira no bairro durante 40 anos e só se chama doutora porque gosta do título respondi friamente.
Ficou parado, de boca aberta, à procura de argumento, mas o cérebro patinava. Pisquei-lhe o olho, ele barafustou com um gesto, como se enxotasse mosca.
Parecia um pinguim azedo.
Foi aí que decidiu dar-me uma lição.
Acabou! Chega do teu atrevimento! proclamou, fechando o saco de ginásio Vou para a minha mãe. Uma semana. Ficas aqui, pensa no teu comportamento. Espero ordem e pedidos de desculpa por escrito!
A porta de ferro bateu, silêncio caiu na casa.
Foi uma sensação estranha, de vazio… e, repentinamente, alívio. Ia castigar-me deixando-me em paz e conforto? Que estratégia diabólica.
Mas o fado reserva sempre surpresas maiores do que as de Rafael.
Na segunda, chamei ao gabinete do chefe.
Dona Carminda, há urgência nos Açores, precisa de ir já amanhã, três meses, paga-se o dobro, mais prémio chega para comprar carrinha nova. Só você pode lá ir.
Ali mesmo senti as asas a crescer. Três meses! Sem Rafael, sem telefonemas da Rosalina, à beira mar (mesmo que com vento e chuva), com salário bombado.
Aceito! disse sem titubear.
Ao sair do escritório, pensei: três meses com o T1 vazio. Condomínio está pela hora da morte e toca o telefone. Era a Lena.
Carminda, preciso de ti. A minha irmã, o marido e os filhos vieram de Braga, a casa está em obras, hotel fica caríssimo. São barulhentos, mas pagam tudo adiantado!
Na cabeça fez-se luz.
Tudo bem, Lena. Entrem já amanhã. Chaves ficam na vizinha do segundo esquerdo. Só peço: se vier aí algum homem armado em dono, mandem-no à fava com um pastel de nata.
Nesse mesmo dia, juntei os meus bens, escondi-os numa caixa, levei à casa da minha mãe e preparei a casa para a família da Lena. O Rafael? Nem quis atender – educava-me no silêncio. Muito bem, pois.
De manhã, voei para os Açores; a família Cardoso (o senhor Artur, a esposa Judite, três filhos e o enorme e simpático rafeiro Biscoito) mudou-se para o meu apartamento.
Passou uma semana.
Contou-me depois uma vizinha que o Rafael aguentou estoicamente aqueles dias no paraíso do lar materno. Descobriu que a Rosalina era incrível à distância, mas em casa… era um horror.
Rafael, mastiga em silêncio! corrigia ela.
Rafael, porque puxas a retrete duas vezes? É o contador!
Filho, não te sentes assim! Vais acabar corcunda, igual ao tio Augusto.
Ao fim de uma semana, Rafael já uivava de desespero. Afirmou-se dono da razão e decidiu regressar vitorioso. Imaginava-me já de rastos, pronta a suplicar-lhe.
Comprou três cravos murchos (penitência à moda antiga) e foi a correr a casa.
Chegando, ensaiou a entrada triunfal com a chave. Não rodava. Torceu a maçaneta. Trancada. Tocou à campainha.
Lá de dentro ouviram-se passos, um tropel de bandos de ovelhas. Depois, um latido tão potente que tremeu a porta.
Quem é? um vozeirão, sotaque (seria de Braga?).
Rafael recuou.
Eu eu sou o Rafael. O marido, abra a porta!
Abriu-se a porta, e ali estava o Artur: corpo feito para proteger a entrada da Sé de Lisboa, camiseta manchada, um garfo na mão (o churrasco a meio). Ao lado, a babar-se, Biscoito.
Que marido? admirou-se Artur. A Carminda foi-se embora. Nós alugámos. Papelada, recibo, tudo. E tu, quem és, rapaz?
Eu sou o dono! guinchou Rafael, perdendo o chão. Isto é meu! Quer dizer, da minha mulher moramos aqui!
Olha, amigo, Carminda disse: marido não há, vive longe. A casa ficou para nós. Vai para a tua mãe, descansa. Judite, traz aí aquela pimenta!
E zás, porta fechada na tromba do Rafael.
O telefone explodiu em chamadas. Nessa altura eu jantava ao som marítimo, num restaurante dos Açores, uma taça de vinho branco e arroz de marisco.
Sim? atendi, devagar.
Carminda, o que é isto?! Quem são aquelas pessoas?! Não me deixam entrar! Voltei e está lá um rancho folclórico!
Rafael, não grites, cortei gelada Tu não disseste que te ias? Disseste talvez para sempre. Para cá sozinha é uma seca e caro, por isso aluguei, contrato de três meses.
TRÊS MESES?! a voz quase lhe falhou. E eu onde fico?!
Estás na tua mãe. Ela trata de ti, o feng shui, os purés dela, tudo impecável. Eu estou em trabalho. Só cá venho em setembro.
Vou pedir o divórcio! Chamo a polícia! cuspia ele.
Faz como quiseres. A casa é minha, está tudo legal. Estás lá inscrito? Não. És um hóspede que abusou da estadia.
Desliguei.
Dez minutos depois: chamada da Rosalina. Atendi só pelo espetáculo.
Carminda! Como te atreves?! Botaste o meu filho na rua! Que crueldade. Segundo a lei, a mulher tem que assegurar ao marido casa e jantar quente!
Dona Rosalina, interrompi com gosto A lei diz que marido e mulher são iguais. E na escritura da casa está só o meu nome. O seu filho quis dar-me uma lição com silêncio e ausência. A aula terminou. O aluno superou a mestra.
Tu tu és uma interesseira! a voz dela ferviu. O homem tem de ter o seu espaço. Vais destruir esta família! Queixo-me ao sindicato!
Queixe-se ao Totoloto, ri-me. Aliás, leve lá o seu tesourinho de volta. Ah, e não se esqueça de triturar-lhe tudo; a mastigação ficou obsoleta.
Ela tentou lançar-me uma praga, mas engasgou-se. O som foi igualzinho à impressora velha quando empanca papel.
Três meses passaram num ápice. Voltei bronzeada, com cabelo novo, conta recheada de euros e a certeza de que não queria a vida de antes.
A casa esperava-me limpa a Judite e o Artur eram uns amores, até arranjaram a torneira que pingava há anos e que o Rafael sempre prometia ver depois.
O Rafael apareceu pouco depois. Um farrapo humano, cinzento, camisa vincada, emagrecido pela convivência forçada com a mãe.
Carminda chega de birras. Percebi. A mãe exagerou. Começamos de novo? Até trouxe as minhas coisas de volta.
Tentou entrar.
Tranquei-lhe a passagem com a mala.
Rafael, não preciso recomeçar nada. Querias que eu desse valor a homem em casa? Pois dei: o Artur arranjou a torneira em meia hora. Tu prometeste um ano inteiro.
Mas mas eu sou teu marido! implorou, olhos de cachorro expulso do parque.
Foste marido, és peso morto. Os teus pertences estão na portaria. Dá-me as chaves.
Nem penses! Quero metade das obras!
Rafael, as obras foram feitas pelo meu pai. Guardei os recibos todos. Tu só puseste queixinhas no papel de parede.
Porta fechada. O estalo do ferrolho soou a tiro de pistola de partida para a minha nova corrida.
Dizem que o Rafael ainda hoje mora com a mãe. Pelos relatos, a Rosalina controla o jantar, a hora de deitar e até com quem ele fala ao telefone. Anda encurvado, olhos no chão, sempre a saltitar, como se temesse pisar armadilhas invisíveis da mãe.






