Estive a namorar com um homem chamado Tomás. Um tipo simpático, daqueles à moda antiga, que acreditava no amor verdadeiro. Era o género de pessoa que dava boleia aos vizinhos, alimentava os cães e gatos vadios. Tinha um ar bonito, o seu próprio apartamento em Lisboa, um carro, um emprego estável numa boa empresa.
Na altura, senti-me sortuda por ele me ter escolhido para ser sua esposa. Achei mesmo que era a mulher mais afortunada de Portugal. As minhas amigas de infância tinham uma ponta de inveja, diziam-me em coro: “Olha que não se encontra um homem assim todos os dias. Agarra-o bem, Ana!”
Fiz tudo para não o perder, enquanto ele se apegou ainda mais a mim. Mas a minha felicidade acabou por não durar tanto quanto eu esperava.
Num fim de tarde, Tomás chegou a casa visivelmente contrariado, evitou olhar-me nos olhos. Perguntei-lhe várias vezes o que se passava. Só depois de muita insistência é que me confessou que se tinha encontrado, sem querer, com o meu ex-marido. Devo dizer que não tenho contacto algum com o meu ex. Nem alguma vez mostrei uma foto dele ao Tomás, ele nem sequer fazia ideia de como era a sua cara. Pelo que percebi, Tomás é que deve ter procurado esta coincidência. E esse encontro foi apenas o princípio de tudo.
Imaginemos que foi mesmo por mero acaso e que, de alguma forma estranha, Tomás o reconheceu. Mas o próprio Tomás tomou a iniciativa de se apresentar ao meu ex-marido e puxou conversa. Foram para a esplanada fumar uns cigarros e, inevitavelmente, a conversa descambou para o tema “Ana”. Nunca escondi nada ao Tomás, mas fiquei perplexo ao saber até onde a conversa foi. Dizer que fiquei estupefacto não chega sequer. O meu futuro marido admitiu que talvez nem devesse ter feito aquilo. Afinal, Tomás perguntou ao meu ex como era eu, como era o meu feitio, porque é que nos tínhamos separado, e por aí fora.
Desatei a chorar. Senti-me traído. Ir ter com o meu ex-marido para tirar limpo detalhes sobre mim? Quando estou aqui, ao lado dele, e pode perguntar-me o que quiser. Isto é normal? Será isto correto, Tomás?
O meu ex-marido, claro, disse todo o tipo de disparates sobre mim. E Tomás não tardou a perguntar-me se era verdade o que ele tinha ouvido. Mas porquê? Porque raio tenho eu de justificar-me de coisas que nunca aconteceram? Alguém fala mal de mim e agora é suposto eu explicar-me?
De repente, percebi que já não conseguia respeitar aquele homem. Compreendo as avós que ficam no banco de jardim a falar da vida dos outros, a julgar e a comentar tudo. Mas são avós, são mulheres dali do bairro. Agora tu, um homem, vais por detrás das minhas costas vasculhar a minha vida assim? Eu fui a tua escolha para esposa, vivemos juntos. Nunca te dei motivo para desconfiar de mim. Aquilo que fizeste pareceu-me tão baixo, tão mesquinho, que perdi logo qualquer vontade de continuar ao teu lado. Não há desculpa para tal. Não consigo perdoar tamanha traição.
Sempre achei que, se alguém dissesse mal da mulher de um homem, ele, na melhor das hipóteses, ficava revoltado. Na pior, até podia armar confusão. Agora, ir atrás das costas da noiva, falar com ex-namorados e pedir-lhes opiniões para mim isso é inadmissível.
Assim, o perfeito Tomás perdeu toda a graça aos meus olhos… E só então percebi aquelas palavras antigas dos nossos avós: numa família, acima de tudo, tem de haver respeito mútuo. Nunca fui de extremos, mas homens a fazer intrigas e coscuvilhices ultrapassa tudo o que tolero. Um homem pode ter fragilidades, ceder às lágrimas, cometer erros, às vezes ser rude ou distraído. Mas portar-se como uma mulherzinha e dar ouvidos a mexericos isso, nunca!






