A cunhada pediu para tomar conta dos sobrinhos e desapareceu durante três dias

Ó Matilde, vá lá, faz-me este favor! Juro-te, é mesmo uma questão de vida ou morte! Não tenho mesmo mais ninguém. A mãe está no Alentejo, com a tensão toda atrapalhada, não quero que ela se aflija E tu és a minha cunhada preferida, tu compreendes-me sempre! Marta debitava um chorrilho de palavras tão depressa que os apelos se misturavam, e a Matilde só conseguia apanhar uns coisinhas urgentes, é só até ao final do dia e salva-me.

A Matilde estava à porta de casa, com um pano do pó numa mão e, na outra, tentava segurar a trela da Bolota, a sua pequena dachshund que ladrava desenfreadamente aos visitantes. Os visitantes, neste caso, eram a cunhada Marta e os filhos dela: o Tiago, sete anos, e o Simão, quatro anos. Os miúdos já tinham conseguido sujar o tapete do hall com as botas imundas e agora entretinham-se a tentar arrancar um pedaço do papel de parede.

Calma aí, Marta Matilde tentou interromper a torrente verbal. Disseste até ao final do dia? Mas hoje é sexta-feira! Eu e o Miguel já tínhamos marcado ir passar o fim de semana na Nazaré, temos uma reserva feita há meses! Estamos mesmo a precisar de sair daqui.

Marta revirou os olhos e atirou dramaticamente a mala para o chão devia pesar uma tonelada com roupa das crianças.

Oh pá, mas a Nazaré está sempre lá, vocês são novos, cheios de vida! Para mim, é agora ou nunca! Chamaram-me para uma entrevista em Coimbra. Uma oportunidade brutal, horários flexíveis, ordenado, ui Vai mudar a minha vida! Se perder isto, acabou-se. E isto é pelos miúdos, para eles terem tudo o que merecem! O pai esquece-se que existe, dá uma miséria de pensão, tu sabes.

Ela deu um suspiro enjoado e tentou fazer aquele ar de vítima. A Marta era perita em fazer-se de mãe sofredora.

Nesse instante, o Miguel espreitou da cozinha, com uma fatia de pão na mão. Ao ver a irmã e os sobrinhos, parou.

Marta? Que raio Tu sabes que nós vamos sair, não sabes?

Miguelito! Mano! Marta lançou-se quase em cima dele, quase o derrubando. Salva-me, é só por uma noite. Juro, amanhã antes do almoço já cá estou. O Tiaguinho e o Simão portam-se bem, nem dão por eles. Pões os desenhos animados, dás umas bolachas Miúdos de ouro.

O Miguel lançou aquele olhar à Matilde mistura de compaixão pela irmã e medo do drama que aí vinha. Ele era demasiado brando e a Marta sabia disso.

Ó Matilde arriscou ele. Não podemos adiar a viagem? É por um motivo importante.

Miguel, a reserva é não reembolsável sussurrou Matilde, já exausta do trabalho da semana. E estava mesmo a precisar disto.

Eu depois compenso-vos! enfiou-se logo a Marta. Pago a reserva, ofereço-vos um jantar lá em casa… Vá lá, não me deixem ficar mal! Queres que deixe os miúdos onde? À porta do lar?

O Simão espirrou alto e limpou o nariz à manga. O Tiago já estava na sala, com a televisão no volume máximo.

Pronto, suspirou Matilde, sentindo a irritação crescer. Até amanhã à hora de almoço. Duas da tarde, no máximo. Se não vieres, levo-os à tua mãe ao Alentejo, nem que tenha de meter o carro a gás óleo, estou-me nas tintas para a tensão dela.

És um anjo! Marta deu-lhe um beijo, deixando um risco de batom na bochecha, despiu os miúdos à pressa, largou um saco enorme nas mãos do Miguel e saiu a correr. Estou contactável! Gosto imenso de vocês!

E assim que a porta bateu, ficou um silêncio só interrompido pela publicidade do canal Panda.

Ora, Miguel tentou encolher os ombros. Lá se foi o nosso descanso.

Olha, aguentamos um dia. Só espero que não destruam a casa, murmurou Matilde.

O princípio da noite ainda foi calmo. Os miúdos, rendidos à televisão e aos rebuçados, nem piaram. Matilde foi vasculhar o saco da Marta; encontrou mudas de roupa, um par de collants, um tablet com o ecrã todo rachado e um pacotão de batatas fritas baratas. Nada de medicamentos, nem brinquedos, nem comida decente.

Nem umas pijamas pôs! constatou Matilde. E escovas de dentes, nada.

Eu vou ao Minipreço buscar qualquer coisa, disse logo Miguel. Escovas, leite, cereais Eles não vivem do ar.

O serão descambou quando o Simão, cheio de açúcar dos rebuçados, recusou-se a jantar.

Não quero sopa! berrava, espalhando o puré de batata na mesa. Quero nuggets! A mãe compra sempre nuggets!

Não há nuggets, mas há almôndegas feitas por mim, muito boas, disse Matilde, já a despachar.

Que nojo! A taça foi parar ao chão.

A Bolota saltou logo a rapar o jantar, Matilde a limpar, Tiago a refilar.

Também não quero. Ó tio, pede uma pizza.

Tiago, pizza faz mal, arriscou Miguel. Come lá o que a tia fez.

A mãe diz que cozinhar é coisa de totós, que o melhor é pedir comida, respondeu o miúdo, muito convicto.

A Matilde e o Miguel trocaram um olhar. Aquilo ia ser longo.

Depois de lhes enfiar umas sandes e de os meter a dormir no sofá-cama, vestindo camisolas velhas do Miguel porque não havia pijamas, os dois estavam rebentados.

Amanhã tudo volta ao normal, repetiu Matilde como se fosse um feitiço. E vamos ao cinema, só nós.

Prometo, garantiu Miguel, do lado dela. Desculpa isto, a Marta é enfim. Mas é boa pessoa.

O sábado começou com estrondo. O Tiago decidiu explorar os armários da cozinha e entornou um frasco de arroz. O chão ficou coberto.

Foi sem querer, atirou ele, enquanto Matilde ainda nem tinha aberto bem os olhos.

Vem buscar a vassoura, vais ajudar a limpar.

Eu não sei, respondeu o Tiago. Lá em casa é a mãe que faz. Ou a avó quando cá vem. Eu sou homem.

Ao meio-dia, a casa parecia um campo de batalha: usaram as almofadas para fazer castelos, revistas da Matilde passaram a recortes, tentaram treinar o gato (que se escondeu em cima do roupeiro, astuto). O almoço pronto, as mochilas feitas, Matilde de olho no relógio.

14h. Silêncio.

14h30. Nada.

Liga-lhe, disse Matilde.

O Miguel telefonou. Chamadas infindáveis e, depois, caixa de correio: A chamada não pode ser atendida.

Se calhar está na estrada? tentou ele. De vez em quando não há rede

Ó Miguel, entrevistas ao sábado? cruzou os braços Matilde. Acreditas mesmo nisso?

Esperaram, e esperaram. Marta não atendia. O Simão começou a chorar pela mãe. O Tiago já só queria o tablet, que estava sem bateria (e adivinhem: a Marta nem carregador trouxe).

Ela não vem hoje, declarou Matilde, olhando pela janela. Inacreditável.

Oh pá, e se o telemóvel dela ficou sem bateria? Ou o autocarro avariou? Miguel sempre a tentar defender.

A noite passou aos soluços: o Simão fez chichi na cama, o Tiago só queria dormir com a luz do corredor acesa que tinha medo dos monstros. Matilde não dormiu nada.

Domingo, e o telemóvel da Marta continuava mudo.

Vou ligar à tua mãe, disse Matilde ao pequeno-almoço.

Não faças isso! Miguel assustou-se. Ela ainda está em recuperação, se sabe que a Marta se evaporou tem um fanico. Espera só mais hoje, vá Ela não ia deixar os filhos para sempre.

Miguel, amanhã trabalho cedo. E tenho uma reunião importantíssima. Quem é que fica com eles?

Eu tiro um dia de férias, pronto.

Durante a tarde, Matilde sentiu que o mau olhado devia andar por ali. O Simão tropeçou na jarra que os pais da Matilde lhe tinham dado de prenda de casamento. Aquele estrondo do vidro a partir-se só faltou chorar.

Não fui eu! gritou logo o Tiago. Foi o Simão!

Matilde calou-se, apanhou os cacos, limpou Vontade de chorar, firmeza de ferro. Depois entrou no quarto onde o Miguel estava sentado de olhar vazio.

Se até amanhã de manhã ela não aparece, vou à GNR e reporto o abandono de menores. E chamo a Assistência Social.

Matilde! Isso é um disparate! É a minha irmã! Vais meter os miúdos num lar?

Eu só quero que ela perceba o que é ser responsável pelas próprias decisões! Atirou Matilde. Eu não sou ama, nem tenho que dar cabo dos meus fins-de-semana porque lhe apeteceu ir tratar da vida.

Olha que ela foi a uma entrevista!

Ah sim? Vem cá ver.

Ela abriu o Instagram. Era amiga da Marta, mas a conta estava trancada. Mas uma conhecida em comum, a Vera, tinha publicado uma foto. Lá estava a Marta, biquini, cocktail na mão, ao lado da piscina do Spa Costa de Prata, com a localização marcada e legenda: Finalmente a descansar! Tão merecido!.

O Miguel, a olhar para o telemóvel, ficou logo pálido.

Isso é antigo, deve ser arquivo balbuciou.

Postado hoje, Miguel. E reparei nesse biquini novo na semana passada. Ela mentiu-nos à cara podre.

Ele sentou-se, desolado.

O que é que fazemos?

Amanhã, se ela não vier, levo os putos para o escritório e tu informas a tua mãe. Que ela resolva. Eu desisto.

A noite de domingo foi um pesadelo: o Simão ficou com febre, aposto que eram os nervos. Matilde deu-lhe ben-u-ron, ficou acordada a noite toda com panos molhados e água. Miguel de um lado para o outro, aflito.

Às sete da manhã, finalmente, o telemóvel da Marta ficou ativo.

Está a aparecer rede, avisou o Miguel.

Ligou logo.

Estou? A voz da Marta vinha sonolenta e pouco simpática.

Ó Marta! Onde é que tu andas? Gritou Miguel, tão alto que o Tiago acordou. Estivemos até agora feitos tolos à espera de ti!

Ó pá, não grites. A entrevista atrasou-se, fiquei para depois do jantar Coisas sérias

Entrevista no Spa?! explodiu Miguel. Vimos as tuas fotos! Aqui em casa o Simão está quase nos quarenta graus!

Silêncio do outro lado.

Mas estão-me a controlar? Nem posso ter vida? Se o Simão está doente, foi culpa vossa! Eu deixei-os bem! Se algum dia tiver problemas com eles, faço-vos um processo!

Vem já buscar os teus filhos. Ou eu parto para a ação social, respondeu Miguel, gelado. Matilde nunca o tinha ouvido falar assim.

Já vou! Não sejam histéricos!

Marta apareceu três horas depois. Matilde já tinha avisado no trabalho que ia falhar o dia, não havia como deixar o Simão à deriva.

Marta entrou cheia de brilho e perfume, um bronzeado invejável. Atirou-se ao Simão que estava enroscado no sofá.

Meu bebé! O que é que te fizeram? Passaste fome? Ficaste doente? Depois virou-se para Matilde, num olhar feroz. Sabia que contigo não podia contar. Não tens filhos, como podes saber lidar com isto?

Matilde sentiu tudo escurecer. Ela e o Miguel tentavam ter filhos há anos, tratamentos e tudo, a Marta bem sabia.

Rua, sussurrou Matilde.

O quê? Marta sem perceber.

Rua. E não quero voltar a ver-te cá em casa, nem a ti nem aos teus filhos.

Está bem, a ver se me ralo! Marta começou a empacotar tudo, chamando os miúdos. Vamos, meninos. Deixem lá estes chatos.

Ficas a dever dinheiro, disse Miguel, a tapar-lhe a passagem.

O quê?!

Pela jarra: 50 euros. Pelas compras: 30 euros. Pelos medicamentos: 10. E pelo resto, já nem quero saber. Quero os 90 euros agora.

Cobras à tua irmã? Marta indignada. Não tenho!

Tiveste dinheiro para o spa, também tens para isto. Ou eu conto à mãe tudo, fotos incluídas. Vais explicar-lhe o spa-entrevista.

Marta lançou-lhe um olhar venenoso, pegou no telemóvel, fez a transferência.

Fiquem com o vosso dinheiro! Não contam mais comigo!

Pegou nos miúdos e foi-se embora a ranger os dentes.

Matilde caiu para o sofá. O cheiro dos remédios, miúdos suados e restos de rebuçados pairava no ar. Na parede, a nódoa de puré ainda lá estava.

Miguel sentou-se ao lado dela.

Desculpa, amor Fui um parvo.

Não foste, Miguel. Só foste irmão. Agora já sabes o que valem certos pedidos da Marta.

Nunca mais. Prometo.

Sentaram-se assim, lado a lado, a respirar fundo. Depois começaram a limpar tudo: chão, lençóis, ventoinha sempre a arejar. Com a sujidade foi-se parte do stress destes dias.

Já à noite, tocou o telefone. Era a sogra, Dona Teresa.

Matilde, meu amor voz fraquinha. A Marta ligou-me em lágrimas, que vocês a enxotaram, que queriam dinheiro, que não quiseram ajudar É mesmo assim?

Matilde inspirou fundo. Antes tinha tentado explicar, defender-se. Mas agora sentia-se diferente.

Dona Teresa, a Marta não lhe contou tudo. Pergunte-lhe qual era o nome do hotel de entrevistas onde estava de biquini. Melhor: venha cá, quando estiver mais bem disposta, e eu mostro-lhe um vídeo do Tiago a dizer que cozinhar é para totós. Temos muita matéria para conversar.

Silêncio do outro lado. Depois um suspiro:

Pois Eu percebo. Não fiquem zangados, fui eu que a estraguei.

Não estamos zangados, Dona Teresa. Apenas tirámos as nossas conclusões.

Matilde pousou o telefone.

Olha, Miguel Pedimos já uma pizza? Daquela boa, mesmo pouco saudável. E servimos dois copos de vinho. Acho que merecemos.

E a Nazaré? perguntou ele.

Para a semana, com telefones desligados. Os dois.

Foi mesmo o que fizeram. E, quando uns dias depois apareceu no ecrã o nome da Marta, Miguel colocou em silêncio e pousou o telemóvel de ecrã virado para baixo. Lições aprendidas. Agora, a família mantinha-se, mas só a partir de uma distância saudável.

Se chegaste até aqui, espero que tenhas tirado as tuas próprias conclusões também!

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