Sempre senti o peso de ser o mais velho numa família bastante numerosa, o que em Portugal quer dizer assumir todas as tarefas domésticas e cuidar dos irmãos mais novos. Não foi um papel que escolhi foi-me atribuído como se fosse destino. Na escola e no bairro, era constantemente gozado por estar sempre rodeado de crianças. Chorava em silêncio, prometendo a mim mesmo que nunca teria filhos. O meu pai era duro, respondendo às minhas promessas com agressões físicas, dizendo constantemente que levava uma tareia de ficar a ver estrelas.
Quando terminei o nono ano, fui enviado para estudar na Escola de Hotelaria, pois era imprescindível ter uma profissão, segundo os meus pais. Depois de concluir o curso, comecei a trabalhar numa pastelaria de Lisboa. Os meus pais aborreciam-me constantemente, exigiam que trouxesse comida para casa da pastelaria, dizendo que era minha obrigação alimentar a família e não ser um palhaço ingénuo.
Controlavam o meu salário e cada passo do meu dia-a-dia. Foi então que tomei uma decisão: comprei um bilhete de autocarro com o que tinha e fui para o Porto, afastando-me deles. Sabia que era uma escolha pesada, sem volta. Arranjei rapidamente trabalho como ajudante de cozinha e aluguei um quarto a uma senhora reformada. Sempre me tratou com respeito, cobrava uma renda justa em euros, e eu fazia questão de ajudar, limpando a casa e fazendo-lhe companhia. Criámos uma relação de amizade genuína, mantive tudo impecável e até partilhámos várias refeições deliciosas à portuguesa, apoiando-nos mutuamente.
Ao fim de algum tempo, apresentou-me a um homem e decidimos casar. Os pais dele aceitaram de bom grado. Um ano depois nasceu a nossa filha, Inês, e depois o nosso filho, Tomás. No meio deste novo ciclo, comecei a sentir saudades dos meus pais. Decidi então visitá-los, junto com o meu marido. Preparamos presentes e fizemos-nos ao caminho, cheios de esperança. Infelizmente, os meus pais não apreciaram o gesto. Literalmente expulsaram-me de casa, trancou-se a porta na nossa cara, sem sequer olharem para o meu marido e nossos filhos.
Fiquei magoado além do que imaginava. Recolhi os presentes e voltámos para casa. Nesse momento, aprendi uma lição: por mais que tentemos, há relações que não se mudam. Passei a valorizar ainda mais a família que eu próprio construí e aprendi que, por vezes, é necessário fechar portas para poder abrir outras.







