Olha, imagina isto: tu, acabas de regressar a Lisboa depois de quinze anos fora, já um homem feito, cheio de sucesso, fato italiano e tudo, a sentir-te deslocado logo ao abrir a porta da velha casa dos teus pais em Almada. O ar está húmido e frio, e de repente tudo à tua volta parece fora do sítio.
Ali, mesmo no chão da sala vazia, os teus pais aninhados sob uma manta gasta com uma menina pequenina no meio, a dormir. O teu porta-documentos cai-te das mãos e faz um barulho seco. A miúda acorda em sobressalto, cola-se ao teu pai, que acorda num gesto instintivo de proteção e, quando te vê, fica sem palavras.
Miguel ouves o teu pai sussurrar, com a voz embargada. A tua mãe levanta-se devagar e, entre tosses, murmura: Meu Deus és mesmo tu.
Sentes cada passo mais pesado ao entrares, como se todos os anos de distância te caíssem em cima de repente. Pensaste que tudo o que fizeste aquelas transferências, os telefonemas, o dinheiro enviado de fora servia de alguma coisa. Agora parece tudo vazio.
Perguntas, quase sem te sair voz: O que aconteceu aqui?
A tua mãe olha para o chão, e diz baixinho: Não queríamos que visses isto.
A menina, tão pequena mas com os olhos vivos, não te larga, a apertar-se ao teu pai como se o mundo pudesse desabar.
Voltas-te para eles e perguntas: Quem é ela?
O pai responde num fio de voz: É tua filha.
Todo o teu mundo abana. Quinze anos longe, uma só frase e parece que o chão te foge dos pés.
Não não pode ser, balbucias, e vês os olhos da miúda a fixarem-se nos teus.
Ela diz baixinho, com voz meiga: A mamã disse que o papá estava muito longe. E que se chama Miguel.
Por dentro, tentas recompor-te, mas sentes aquele peso antigo, a culpa familiar que nunca se dissolve.
Perguntas: E a mãe dela?
A tua mãe responde: Chamava-se Carminda. Morreu no ano passado.
O teu pai completa: Carminda voltou há dois anos. Queria encontrar-te mas já tinhas partido outra vez. Não fomos capazes de te dizer Achámos que tinhas a tua vida.
Abaixas-te até estares ao nível daquela menina, sem te importares com o fato que já parece não ter importância nenhuma.
Como te chamas? perguntas com doçura.
Ela sussurra: Fátima.
Ficas com um nó na garganta: Olá, Fátima sai-te a voz insegura. Ela não te salta para os braços a confiança aqui não se compra, só se ganha com tempo.
O teu pai, de olhos baixos, confessa: perderam a casa, as vinhas já não davam nada, os impostos, um acidente lá na quinta. A tua mãe explica que um funcionário da junta lhes pôs uns papéis à frente para assinar, e, de um dia para o outro, ficaram sem terra.
E tu percebes não foi uma tragédia épica, mas papel e canetas e pessoas sem escrúpulos que lhes tiraram tudo.
O teu pai ainda sussurra: Não queríamos dar-te mais esse peso. E tu ris-te, mas é um riso amargo aqui andavas tu a construir mundos, e eles, a perder o pouco que tinham.
Sentes o sangue a ferver, mas, ao mesmo tempo, sabes que nada se resolve num estalar de dedos.
Tomas as rédeas. Vamos tirar-vos daqui, prometes. Telefona à pensão ali no Largo, ao centro de saúde, mobilizas um advogado, pegas no telemóvel e tratas de saber o que sobrou.
A Fátima agarra-se ao avô. Ajoelhas-te, olhas nos olhos dela e dizes: Venham comigo, vamos para um sítio quente e seguro.
De repente, aparece o senhor Simas, o tal funcionário, de sorriso feito e olhar de quem aprendeu a viver à custa dos outros, muito pronto a propor acordos. Vês logo ao que ele vem foi ele que lhes ficou com a casa.
Vamos lutar contra isto, dizes ao advogado e não é só contra ele, é contra o sistema todo.
Vais buscar provas: assinaturas forjadas, relatórios de acidentes, listas do que vos roubaram. Filmas a casa destruída.
O medo muda de lado começa a correr palavra, aparecem jornalistas, inspetores da PJ, e o Simas acaba na prisão preventiva.
Pouco a pouco, reergues a casa, devolves a dignidade aos teus pais e a esperança à Fátima. Ao início, ela rejeita a tua mão, mas vai-se abrindo. Um serão, já na casa arranjada, ela pergunta: Porquê te foste embora?
Tu, sem escapatória, confessas: Tinha tanto medo de ser insignificante que fugi para longe Queria ser alguém e esqueci quem era.
Prometes-lhe, olhos nos olhos: Fico aqui. Não prometo ser perfeito, mas vou estar sempre perto. Agora sabes sempre onde estou.
Passam-se meses. Os teus pais recuperam a saúde, a casa enche-se de vida. A Fátima desenha-vos aos três, o sol gigante ao fundo, tu de camisa vermelha.
Aproximas-te dela, pegas-lhe na mão sem palavras.
Dizes só: Estou em casa.
E ela sorri e é a primeira vez que acreditas, de verdade.





