4 de Julho
Hoje senti um peso aliviar-se dos meus ombros. Agora que já passou, consigo até sorrir ao lembrar-me de como foi a visita inesperada da minha irmã Margarida. Tudo começou há uns anos, quando trouxe a minha noiva Leonor comigo para a aldeia, para aquela casa antiga que me tinha ficado de herança da minha avó Rosa.
Dei à Leonor a hipótese de escolher: viver ali, no sossego da aldeia, ou irmos para Lisboa, arrendar um apartamento, com tudo o que isso implicava. A verdade é que não tínhamos grandes opções na cidade eu só tinha um pequeno quarto em casa da minha irmã, Margarida, onde ainda partilhava o espaço com o meu sobrinho mais velho, o Tomás. Não era vida para ninguém.
Margarida nunca esteve satisfeita com aquele arranjo. Havia um dia no mês em que quase se esquecia disso o dia em que eu lhe entregava parte do meu ordenado como renda. Nos outros dias, implicava comigo por tudo e por nada e carregava-me de tarefas domésticas. Aos fins de semana, era eu quem tinha de sacudir tapetes, levar os miúdos a passear (e ela tinha três pirralhos de um, três e seis anos), enquanto o marido desaparecia ora para os estudos noutra cidade, ora para convívios ou então ia simplesmente descansar para casa dos pais. Toda a responsabilidade recaía sobre mim.
A Leonor conhecia esta rotina. Sabia que, embora trabalhasse e ganhasse um bom salário, pouco me sobrava no fim do mês. Tudo para a minha irmã. Quando comecei a reservar algum dinheiro para mim e para a Leonor, Margarida quase me pôs na rua; foi preciso cumprir aviso prévio no trabalho para conseguir sair daquela situação. E ainda assim, a minha irmã nunca deixou de desgastar-me os nervos e os da Leonor também.
Para Margarida sempre fui o “irmão útil”: limpava, tratava dos miúdos, contribuía com dinheiro. Quando finalmente me recusei a entregar-lhe o ordenado, a decisão foi implacável: “Arruma as tuas coisas.” Fui ter com a Leonor, que vivia num quartinho na residência universitária.
A aldeia em Trás-os-Montes recebeu-nos de braços abertos. Embora já não tivesse família por ali além da casa herdada, conhecia toda a gente graças às férias passadas em casa da avó Rosa. A minha mãe morava noutra vila, já noutra região, e os pais da Leonor estavam ainda mais longe. Não tínhamos a quem recorrer mas a verdade é que não sentimos falta. Casámos em segredo, começámos a construir a nossa vida.
Eu arranjei trabalho na serração local; a Leonor ficou a trabalhar no infantário da aldeia. Uma vizinha, a Dona Maria, ofereceu-nos uma cabra já não tinha forças para cuidar dela, mas em troca bastava levar-lhe meio litro de leite por dia. Depois vieram as galinhas e um casal de ovelhas. A pequena agricultura ajudava a compor o orçamento, e a Leonor reforçava com uns arranjos de costura.
O tempo passou, nasceu o nosso Nicolau, e depois de ela terminar a licença de parentalidade, já sentíamos que o mais difícil tinha ficado para trás.
Foi então que, sem avisar, a Margarida aparece, vinda de Lisboa, com os três filhos. O marido, claro, a descansar em casa dos pais dele. “Eu também já vivi aqui! Vim várias vezes passar férias com a avó! Agora quero aproveitar e ir à praia, deixo-vos os miúdos aqui na aldeia”, anunciou ela com um à-vontade de quem larga três crianças como quem deixa um cesto de roupa.
Fiquei espantado: “Mas quem vai tomar conta deles? Eu trabalho vários dias seguidos! E a Leonor também” “É uma aldeia, que mal pode acontecer? Eles desenrascam-se!”
Respondi com firmeza: “Se ficas, cuida deles tu. A Leonor não vai aceitar.” Margarida torceu o nariz: “Não precisas perguntar à tua mulher. És o meu irmão. Dizes-lhe e pronto.” “E o teu marido?” perguntei. “Fica em casa; precisa de descansar de nós todos.” Enfim, a lógica de sempre.
Enquanto conversávamos, as crianças já andavam a explorar tudo. De repente, oiço uma chinfrineira descomunal. Corri até à janela e vejo o porco a correr pelo quintal atrás das crianças, a pisar as hortaliças todas. Foi o caos. Levou-me quase uma hora para apanhar o animal, as couves estavam arrasadas e não demorei a perceber que dali a pouco ia ser a vez das cabras e das galinhas.
A Margarida, claro, achou tudo naturalíssimo. “Oh, são só miúdos! É uma aldeia, nada demais.” Expliquei-lhe que o Nicolau, com três anos, já sabia que não se faziam aquelas asneiras. Ela respondeu: “Ainda vai ter tempo para isso.” Mal acabou a frase, com mais barulho: estavam agora a mexer nas galinhas e o galo não achou piada nenhuma.
A Margarida implicou com o galo; eu atirei-lhe: “Fala com os teus filhos; não metam o nariz onde não devem.” Ela, como quem não quer a coisa, sugeriu ainda que a Leonor devia tirar férias para tomar conta dos sobrinhos. “Nem penses. Ainda faltava!”
Adverti que aqui havia animais perigosos: além do nosso cão, o vizinho tinha um touro bravo, os gansos do outro lado da rua eram mais ferozes que qualquer galo em noites sem luar, nem eu arrisco sair fora.
Nessa altura, o vizinho bate à porta com o Tomás, o mais velho dela, pela mão: tinha sido apanhado a brincar com fósforos junto ao barracão não chove há semanas; um susto tremendo.
Tirei as minhas conclusões: “Desculpa, Margarida, eu não posso aceitar essa responsabilidade. Vai à praia e leva-os contigo Mas cuidado, não vá algum assustar um tubarão!” Ela protestou: “Tu e esta aldeia são uns esquisitos. Mas ajudei-te quando precisaste. Moraste na minha casa!” Respondi: “Só por não ter alternativas. Mas paguei tudo, e bem te lembras.”
No dia seguinte, de manhã cedo, levou as crianças e partiu rumo à casa dos pais. Eu e a Leonor ficámos a recordar tudo aquilo, a rir e a suspirar de alívio.
Hoje aprendi que há família que nunca muda. E que, neste mundo, não é por sermos irmãos que temos de aguentar tudo. A minha casa, a minha vida, merecem respeito e quem não o compreende, já agora, pode de facto ir de férias bem longe.






