A Frigideira de Panquecas: Uma Manhã Caótica, um Encontro no Comboio, e o Sabor das Novas Famílias à…

Frigideira para Panquecas

Pelas horas do relógio, Sofia já ia atrasada para o trabalho, o que certamente renderia mais uma multa do patrão exigente e uma conversa desagradável. Tudo porque a manhã correu cheia de confusões. O filho mais novo, Martim, do segundo ano, se recusou a comer papa e, manhoso, choramingou dores na garganta. Sofia, munida de óculos, examinou-lhe a goela à procura de sinais de irritação. Dando-se conta do fingimento, ameaçou o pequeno esperto com uma palmada e apressou-se a encaixar-lhe a mochila às costas. Enquanto isso, o mais velho, Tiago, andava num rodopio pela casa, à procura do caderno diário. O movimento inquieto dele quase virou a casa do avesso, deixando Sofia de cabeça à roda. Sem meias medidas, ralhou com os filhos, agarrou o mais novo pela mão e saíram disparados até ao carro. Mas só conseguiram entrar porque o marido, Miguel, afinal já tinha terminado de lavar o automóvel, com um atraso também ele notório. Quando finalmente todos estavam prontos e a família subiu à Avenida da Liberdade, o trânsito parado de Lisboa acabou de vez com o sonho de Sofia de chegar a horas ao trabalho.

Ao chegar, quase se estatelou no passeio molhado à porta do escritório de bilhetes de comboio onde trabalhava. Só não caiu, porque se agarrou firmemente a uma mala gigante, conseguindo milagrosamente manter o equilíbrio. Percebendo que o susto não teve consequências, Sofia pediu desculpa à dona da volumosa bagagem, empurrou a mala para sua dona, uma idosa, e entrou no trabalho. Ficou aliviada ao saber pelos colegas que o chefe ainda não tinha chegado. Respirou fundo, bebeu um copo de água de uma vez só e sentou-se no seu posto.

Meia hora depois, Sofia já estava completamente absorvida pelo ritmo frenético do escritório. No intervalo do almoço, olhou distraída pela janela e voltou a ver a idosa com a mala enorme. Algo nela chamava a atenção: nos olhos baços lia-se tristeza, resignação, e nela tudo parecia rendido ao tempo e ao vento que fazia dançar o bilhete na sua mão ossuda antes que o pudesse perder. Mas os olhos desbotados daquela senhora não viam nada do movimento ao redor estava imóvel como uma estátua, alheia ao frio e à humidade do fim do outono lisboeta.

Há quanto tempo está aquela senhora ali? perguntou Sofia à colega de trabalho.
Dizem que é o segundo dia, respondeu a outra.
E para onde vai ela?
Para o Porto.
Que estranho há tantos comboios para o Porto todos os dias. Porque será que ela não viajou? Sofia encheu um copo de chá do termo, pegou num pedaço de bolo caseiro, saiu à rua e dirigiu-se à passageira solitária:
A senhora deve lembrar-se de mim. Hoje de manhã, a sua mala quase me salvava de um trambolhão. Posso saber para onde vai?
Para o Porto respondeu a idosa, sem emoção, enquanto saboreava o chá.
Olhando para o bilhete, Sofia perguntou:
Mas repare, o seu comboio partiu há dois dias. Porque não foi embora?
A senhora ajeitou o chapéu antigo, tossiu e disse rouca:
Acho que já incomodo aqui também, não se preocupe, já já vou-me mudar de banco.
Tentou levantar-se, mas Sofia dissuadiu-a.
Não, por favor Fique onde está confortável. Só acho estranho estar aqui ao relento, vai-lhe fazer mal
Não sinto nada Já não dói, perdi tudo respondeu baixinho, tirando um lenço de linho bordado da velha bolsa para secar discretas lágrimas. Continuou:
O problema é que não tenho realmente para onde ir. História comum de família. Não consegui dar-me com o meu filho Ou melhor, com a nora. Bonita, mas zangada, interesseira. O meu filho ficou cego de amor e tudo o que eu dizia só via como críticas. Para agradar-lhe, decidiu livrar-se de mim: comprou este bilhete para eu ir à minha irmã no Porto, fez-me as malas e deixou-me no comboio. Não sabe, coitado, que a minha irmã faleceu há três anos e a casa foi vendida. Não consegui dizer-lhe a verdade. Achei melhor deixar as coisas assim, pode ser que a vida deles melhore se eu não estiver por perto. E cá estou, sozinha, sem destino certo. Espero Sei lá, se calhar morro de vergonha aqui, ou então alguém chama a Segurança Social e acabo num lar qualquer. Obrigada por me dar o chá e o bolo, filha. Só agora reparei como tinha fome.
A palavra “filha” deixou Sofia de coração apertado, regressando mentalmente à infância passada num orfanato. Nunca deixou de sentir inveja das crianças adotadas por famílias felizes, enquanto ela, ruiva e de feição pouco bonita, ficou sempre para trás, sem nunca ter sido escolhida. Depois, assim que saiu do orfanato, foi encaminhada para trabalhar numa fábrica têxtil, atribuindo-lhe um quarto numa pensão onde viveu até casar, graças a Deus, com Miguel.

Aquela palavra filha despertou um calor materno nunca antes sentido. Sentiu-o entrar-lhe pela pele, reconfortando-lhe o coração e enchendo-a de uma imensa compaixão.

Sofia pousou a mão no ombro da senhora e disse baixinho:
Faça-me um favor, fique aqui sentada. Quando terminar o meu turno, vamos todos juntos lá para casa. Temo-la grande e cabe toda a gente. Se não gostar, volta cá outra vez. Pode ser?
Ao ver-lhe o rosto enrugado e os olhos húmidos de emoção, Sofia sentiu que estava certa.

Conheceram-se melhor já no carro:
Eu sou a Sofia, o meu marido é o Miguel, os nossos filhos, Tiago e Martim. E a senhora, como se chama?
Chamem-me avó Tita disse, já aquecida no carro.

No dia seguinte, feriado, Sofia acordou com um cheiro delicioso que vinha do quintal. De roupão, foi à varanda e viu uma generosa pilha de panquecas na mesa. Avó Tita mexia-se com agilidade, virando panquecas na frigideira que tinha encontrado na cozinha e servindo sorridente os rapazes e o marido. Ao vê-la, avó Tita justificou-se:
Não me leves a mal, filha. Encontrei esta frigideira no forno e ela não pega, por isso aproveitei para fazer um mimo. Senta-te, prova.

Depois do pequeno-almoço, todos ajudaram a apanhar folhas no quintal e queimá-las, atirando também umas batatinhas para assar na fogueira. Sofia reparava admirada na energia de Tita. Estava corada, cantarolando uma canção que ninguém conhecia.

Não te admires, filha. Tenho fibra. Chamavam-me Tita-cavalo na tropa, porque era eu quem carregava feridos do campo de batalha às costas, não importava o tamanho dos soldados. Ajudei enquanto não fui ferida eu própria. Depois, mandaram-me para trás, recuperando. Foi aí que casei e tive o meu filho. Infelizmente, o meu marido não resistiu muito às mazelas que trouxe da guerra, acabou por partir cedo. Fiquei sozinha com o pequeno nos braços, mas safei-me. Criei-o e fiz dele um homem.

Avó Tita ficou calada por momentos, perdeu-se nas recordações, depois pegou no ancinho e voltou ao jardim, cantando baixinho.

Na segunda-feira, a rotina habitual instalou-se novamente em casa. Martim, ainda meio rabugento, Tiago a correr atrás dos livros, Miguel a preparar o carro. Quando Sofia ia sair com os meninos, viu avó Tita vestida com a mala na mão:
Obrigada, filha, pela hospitalidade Mas está na hora de seguir caminho
Avó Tita! Não gostou de estar connosco?
Gostei, muito. Só que ninguém precisa de uma estranha em casa
Por favor, fique! Quem é que vai fazer estas panquecas maravilhosas para nós? Nunca me saíram tão bem Fique, pedimos-lhe É parte da família agora

Sofia agarrou a mala, que já lhe parecia leve, deu o braço à avó Tita e subiram juntas para dentro.

Ao ouvirem o barulho do carro de partida, ouviram ainda a voz de Tita:
Filha, compra mais uma frigideira, sim? Com duas faço panquecas muito mais rápido
Sofia respondeu baixinho, sem que Tita ouvisse:
Está bem, mãe TitaSofia riu, secando uma lágrima que teimava em escorrer-lhe pela face. Olhou a senhora, agora tão sua, e sentiu que encontrava finalmente algo de família de que tantas vezes sentira falta não só nos gestos, mas no calor manso da presença da avó Tita em casa. Quando voltaram à cozinha, a manhã iluminava as cortinas e o ruído suave dos meninos cheios de pão e histórias preenchia todo o espaço.

Ao fundo, junto ao fogão, a frigideira continuava quente, espera de novas panquecas e de outras manhãs compartilhadas. Naquele momento, Sofia percebeu que, às vezes, as vidas se encaixam como retalhos improváveis e que, por vezes, é no gesto simples de dizer fica que se cria uma verdadeira casa.

E assim, entre panquecas e histórias, ficaram todos inteiros.

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