O cão, ao ver os donos, baixou a cabeça, mas nem sequer se mexeu.
Tudo começou numa noite de dezembro, quando o frio já tinha vestido a cidade com um casaco de geada e as ruas de Lisboa pareciam passarelas brancas e silenciosas. Um pastor alemão já de pelo grisalho apareceu como que caído do nevoeiro junto ao segundo andar do prédio, como se tivesse saído de dentro da própria serração do inverno.
Outra vez este cão a ganir debaixo das janelas! resmungou Raul, afastando as cortinas com brusquidão. Olívia, estás surda?
Estou a ouvir, Raul respondeu ela, já cansada do assunto.
Aquele lamento atravessava até a alma, espalhando arrepios nos ossos.
No apartamento número vinte e três, desde setembro, morava um casal novo, Diogo e Madalena, com o tal cão fiel. O cão chamava-se Thor, encontrava-os todos os dias à porta do prédio, saltava de alegria e lambia-lhes as mãos. Mais pontual do que o elétrico da Graça.
Contudo, assim que o inverno se tornou mais rigoroso, tudo mudou.
Está decidido. Um cão numa T1 não faz sentido. O pelo está por todo o lado, o cheiro não sai, e os vizinhos queixam-se por causa do ladrar. Se quiseres, leva-o. É de raça, tem tudo em ordem dizia Madalena ao telemóvel, apoiada no corrimão das escadas, ao que parecia numa tentativa frustrada de convencer uma amiga.
Pelo silêncio da escada, Olívia percebeu que a amiga não quis saber.
Nessa altura, Thor já passava a quarta noite a dormir na entrada húmida do prédio, deitado em cima do mosaico frio, a tremer.
Raul não queria papo o problema era dos outros. Aos sessenta e poucos anos, desde que o coração lhe falhou, o nervoso era o pão nosso de cada dia. Até para ela tinha sobrado irritação.
Ele não é de rua murmurou Olívia. Tem família. Vive ali, no vinte e três.
Então que alguém o meta em casa. Caso contrário liga-se para a junta.
Fácil de dizer. Como explicar ao cão que tinha sido descartado? Os olhos ainda lembravam a esperança de quem ama.
Numa madrugada lenta, Olívia desceu com um pedaço de chouriço e uma fatia de broa. O cão ergueu a cabeça com esforço, olhou-a agradecido. Recebeu a comida com delicadeza, como se ainda pedisse desculpa por incomodar.
Ao final do dia, ela já não resistiu:
Que raio estás a fazer?! Raul estava na porta, quase a explodir. Trouxeste este animal para dentro?
O cão encolheu-se à beira do armário da entrada, envergonhado de existir.
Só por esta noite, Raul. Está um frio de rachar, ele não aguenta.
Só uma noite? E amanhã? Mais uma noite? Depois, só mais desta vez? Olívia, perdeste a cabeça? Estamos a gastar os últimos euros em comprimidos, e tu trazes mais uma boca?
Ela calou-se, alisando a cabeça trémula do animal. No fundo, ele não estava errado: a pensão era curta, e a reforma dela nem dava para falar.
Quem o alimenta? já fervia o tom de Raul. E se adoece? Não há para nós, quanto mais
Raul a voz dela era serena, mas firme. O cão já está velho. Na rua vai morrer.
Que morra. Quantos cães morrem todos os dias? Vais salvá-los a todos?
Thor afastou-se com um salto assustado. Olívia sentou-se ali, abraçando aquela pelagem suja que ninguém acariciava há tempo.
Não todos sussurrou. Só este.
Cinco dias andaram assim, como numa panela de pressão. Raul fechava portas com força, reclamava dos pelos, ameaçava tudo. Thor, como se percebesse, comia pouco, quase não saía do hall, e se olhava era sempre em desculpas.
No domingo, bateram à porta. Batidas secas, de patrão que manda.
Que ousadia! Madalena, de saltos altos e casaco de pele, entrou com Diogo de cachecol de lã caro. Roubaram-nos o cão! Isto é crime!
Crime? Olívia atrapalhou-se. Ele estava ali abandonado.
É o nosso cão! cortou Diogo. Temos tudo em papel. Você não tinha direito de o levar!
Thor, ao ouvir as vozes, surgiu da cozinha. O rabo hesitava aproxima-se ou esconde-se?
Anda, Thor, para casa! Madalena girou a trela.
O cão cheirou-lhe a mão e ficou ao lado de Olívia.
Isto é ridículo! Diogo perdeu a calma. Thor, vem aqui! AGORA!
A cabeça do cão baixou, mas não se moveu.
Desculpem tentou Olívia mas ele dormia no frio, dias seguidos. Achei que
Não ache nada! guinchou Madalena. Ele é nosso! Dorme onde quisermos!
No chão gelado? a voz da idosa tremeu de indignação.
Ou no terraço! O cão é nosso fazemos o que queremos!
O que se passa aqui? Raul entrou, ainda com o jornal na mão. Vinha da horta, onde vigiava os limoeiros à noite.
A sua mulher roubou o nosso cão! explodiu Madalena. Queremos-o de volta ou vamos à polícia!
Olívia mais se encolheu. Cenas com a justiça só faltavam.
Olívia, devolve o cão. Não nos estiquemos suspirou Raul.
Foi então que olhou Thor nos olhos. O animal ficou ao lado dela, num pedido mudo.
Mostrem os papéis disse Raul calmamente.
O quê? engasgaram-se eles.
Os papéis do cão, a documentação. Disseram que têm.
O casal trocou olhares.
Estão em casa… esquecemo-nos.
Tragam. Depois conversamos cortou Raul.
Vocês estão loucos! quase gritava Diogo. O cão é nosso!
Então porque dorme no chão do prédio?
Não é da vossa conta!
É, sim. Quando vejo um bicho sofrer, é da minha conta adiantou Raul, a voz endurecida.
Sofrer? Madalena exagerou os olhos pintados. Não fazemos nada de mal!
Não? Atiraram um velho cão ao frio isso é carinho?
Raul avançou. Olívia olhou, surpreendida com tanta firmeza.
Não o pusemos fora! Só é temporário. Estamos em obras!
Obras? exclamou Raul, furioso a ponto de Thor tremer. Entraram aqui há três meses. Obras de quê?
Os jovens vacilaram, apanhados.
É da nossa vida! Madalena ficou rouca de repente.
Vida é maltratar um animal? Ouçam bem: podem levar o cão agora. Ou fiquem longe de vez!
Olívia não queria acreditar. O marido, que ameaçara correr Thor dali!
Raul, o que se passa?
Cala-te respondeu ele, olhos nos visitantes. Então?
Claro que levamos! tentou Madalena impôr-se. Thor, para casa!
O cão ergueu a cabeça, olhou e deitou-se, como quem diz: Daqui não saio.
Thor! Diogo rugiu. Levanta-te!
Nada.
O que foi que vocês fizeram? Madalena já em farrapos. Traíram-nos ao cão!
Engana-se Olívia manteve o tom. Ele escolheu.
Escolheu?! É só um cão!
Um cão que já não vos reconhece Raul foi seco. Sabe porquê? Cães não perdoam traição.
O que sabem vocês de nós? gritou Madalena. Demos-lhe tudo!
E depois deixaram-no como lixo! Raul estava verdadeiramente zangado. Escolham: ou levam e nunca mais o largam à rua ou nunca mais cá põem os pés!
Temos direitos também! Diogo arregalou-se.
Tenho mais respondeu Raul, pegando no telemóvel. Se não, já ligo ao SEPNA. Maus tratos a animais é crime.
Estão a ameaçar?
Experimentem e vejam.
Thor jazia no chão, a respirar depressa. Olívia, ao lado do marido, mal acreditava. Era mesmo o Raul dela? O mesmo que ameaçara expulsar o cão de manhã?
Vamos pensar resmungou Diogo.
Rápido. Até amanhã têm resposta. Se não, Thor fica connosco.
Não têm esse direito!
Não tinham era o direito de o meter no frio! o prédio inteiro ecoou com a resposta dele.
Cabeças saíram das portas. Era como um tribunal antigo. Dona Ermelinda do quinto de robe, olhando de soslaio.
Que se passou? indagou ela.
Estes deixaram o cão no hall do prédio, noites inteiras! Raul não perdoou.
Vi bem! assentiu o senhor Matias do andar do lado. Tremia de fazer pena. Até comentei lá em casa!
Juntou-se a vizinha Mafalda do quarto. Depois a família Sampaio da porta um. O bloco inteiro era júri.
Uma vergonha! Quem não cuida não tem direito abanava a cabeça o senhor Matias.
O meu canário vive melhor exclamou Mafalda.
Os rapazes estavam encurralados pelos olhares. Madalena chorava, Diogo olhava todos com mágoa.
Chega! gritou Raul. Ou levam e não o largam mais, ou deixam e não voltam!
E se vos processarmos? choramingou Madalena.
Vão em frente! cortou Raul. Vão explicar ao juiz por que motivo o vosso cão gelava no corredor dois meses!
Vizinhos murmuravam em apoio. Olívia, a olhar para o marido, sentia-se atordoada por um estranho orgulho. Como é que ficara tão forte?
Então fiquem com o cão! Já não queremos disparou Diogo, a arrastar Madalena consigo. Fecharam a porta do prédio com estrondo.
Thor levantou a cabeça, olhando o vazio, e soltou um uivo murcho.
Aos poucos, os vizinhos regressaram às casas, contando a cada qual o que testemunharam. Só restaram marido, mulher e o cão que agora era deles por direito e acaso.
Thor ergueu-se, andou até Raul e encostou-lhe o focinho penteado ao joelho.
E então, companheiro? Raul agachou-se, afagando-lhe as orelhas. Ficas connosco?
O rabo de Thor, devagar, começou a abanar. Sim, ficava.
Raul Olívia estava comovida. Sempre foste contra.
Fui. Agora não sou. Levantou-se, limpando as mãos às calças. Olívia, percebi algo importante quando vi o que faziam ao cão.
O quê?
Raul demorou-se a pensar. Sentou-se na poltrona; Thor, imediatamente, deitou-se a seus pés.
Que nós estávamos iguais a eles. Cada um no seu canto, com a sua dor, sem ver o outro. Como estranhos dentro do mesmo tecto.
O coração de Olívia apertou-se.
E se um dia nos deitassem fora? Como ao Thor? Alisava o pelo do cão. Fiquei assustado, Olívia. Muito assustado.
Ela sentou-se docemente no braço do cadeirão.
Então, fica? sussurrou.
Fica e sorriu como já não sorria há meses. Vamos ser uma família. Não é, Thor?
Thor lambeu-lhe a bochecha e pousou a cabeça nos joelhos de Raul.
Uma semana depois, todo o bairro achava estranho: o Raul do segundo andava com o cão nos passeios de manhã, com uma alegria de rapaz novo. Parecia ter desfeito dez anos dos ombros.
Quanto a Diogo e Madalena? Ouviu-se que se mudaram para outro bairro baixinho, sem alarido. Talvez a vergonha tenha apertado.
É pena. Thor Thor teria perdoado.







