O Presente Perfeito para a Mãe: Quando Confiança e Tradição se Misturam na Cozinha Portuguesa – Pedro, preciso da tua ajuda para escolher o presente da mãe. Maria pousou o telemóvel e virou-se para o marido, que estava esparramado no sofá com o comando da televisão na mão. Pedro mudava de canais distraidamente, sem tirar os olhos do ecrã. – Que presente é esse? – Um fogão novo. Bom e de qualidade. O aniversário dela é dentro de duas semanas, já esqueceste? Pedro finalmente dignou-se a olhar para a esposa. Nos seus olhos brilhou um ligeiro fastio, mas rapidamente escondeu-o atrás de um sorriso forçado. – Mas o velho ainda funciona, não? Maria sentou-se no braço do sofá, alisando o avental por instinto. – Tu viste da última vez. O forno mal aquece, dois bicos não funcionam, está sempre a queixar-se que já não faz bolos como antigamente. Para ela é mesmo importante, sabes disso. …Dona Fernanda sempre foi apaixonada por fazer massa e bolos. A cozinha estava permanentemente impregnada de cheiro a baunilha e canela, na varanda arrefeciam os pasteis de nata e os vizinhos vinham “beber um café”, certos de que nunca sairiam sem um mimo. O fogão antigo, comprado ainda nos tempos da outra senhora, estava nos seus últimos meses de vida. – Está bem, – Pedro esticou-se e sentou-se direito. – E o que é que precisas de mim? – Escolhe um modelo decente. Tu percebes destas coisas melhor que eu. Vai à loja, pede informações, trata da entrega. Eu não tenho tempo nenhum agora com o trabalho. Maria tirou do porta-moedas o cartão e estendeu ao marido. O plástico azul-escuro reluzia sob a luz do candeeiro. – Aqui está a minha gratificação, mais de mil euros. Chega para um fogão mesmo bom? Pedro ficou a olhar para o cartão. Os lábios mexeram-se ligeiramente. – Dá e sobra. Não te preocupes, trato de tudo. Maria acenou com a cabeça. Em cinco anos de casamento, habituou-se a confiar em Pedro para resolver questões práticas. Ele era mestre a negociar, descobria descontos, conseguia brindes. Nisso, ele era realmente bom. – Mas não te demores, está bem? Quero que o presente chegue a tempo da festa. – Faço isso. – Pedro enfiou o cartão no bolso dos calções de casa e voltou ao comando. Passou uma semana. Maria regressava do trabalho, apertada no elétrico, quando decidiu verificar o saldo no telemóvel. Os dedos deslizaram pelo ecrã, abrindo a aplicação do banco. Movimento: 1 000 euros debitados… Maria sorriu ao ver os números. O Pedro não falhou. Mil euros é dinheiro, certamente escolheu um modelo excelente, quem sabe até com grill e função timer, tudo o que a mãe sonhava. Dona Fernanda podia enfim fazer os seus famosos bolos-rainha sem receio de ficar com o forno a meio gás. Maria imaginou o rosto da mãe ao receber o presente. As ruguinhas a juntarem-se de alegria, os lábios a tremer de emoção, e, como sempre, Dona Fernanda diria: «Oh filha, não precisavas de tanto trabalho!» E já começaria a planear o bolo do próximo domingo. Um electrodoméstico de qualidade é um investimento para anos. Maria lembrava-se bem da avó a contar maravilhas do seu “Velox” que funcionara impecável durante trinta anos. Agora, os modelos modernos são diferentes, mas escolhendo bem, duram tanto quanto. …O aniversário foi num sábado. Maria correu a manhã toda a preparar o ramo de flores e os pequenos presentes que comprou para complementar o principal. Pedro andava de um lado para o outro, sempre a olhar para o relógio. – Não te esqueças do envelope – lembrou Maria, apertando as botas. – Puseste os papéis lá? – Está tudo lá, – disse ele, batendo no bolso do casaco. Chegaram à casa da Dona Fernanda ao meio-dia. Havia aroma de bolo acabado de sair do forno – mesmo com o fogão velho, ela conseguia um milagre. Os primos enchiam o corredor, brindes e gargalhadas repousavam na sala. Maria abraçou a mãe com força. – Parabéns, mãezinha. Isto é para ti. Entregou-lhe o envelope creme que Pedro lhe tinha dado. Nem olhou para o interior – confiava no marido, foi só entregar. Dona Fernanda iluminou-se. – Oh, filha, que surpresa! – Ela abriu delicadamente o envelope, os olhos já brilhavam de curiosidade. Maria observava-a, sorridente. Um segundo, outro. Até que o rosto de Fernanda ficou imóvel. O sorriso desvaneceu-se, dando lugar à perplexidade. – Mas… isto é…? Maria franziu a testa, foi espreitar por cima do ombro da mãe. Um vale de loja de cosmética. Três mil euros. Três. Mil. – Pedro – Maria virou-se para o marido, que já recuava discretamente para a porta. – O que é isto? – Vá lá, calma, – Pedro tentou sorrir. – O vale é para produtos muito bons, vai gostar… – E o fogão?! Silêncio. Pedro saiu depressa para a varanda, fechou a porta atrás de si. Maria foi atrás dele. Abriu a porta com força. – Explica-te, já! Pedro encostou-se ao gradeamento. – Olha, a minha irmã Sofia está de rastos, precisava mesmo de um descanso… E eu… não resisti… – Descanso? Que Sofia? – Maria aproximou-se, os olhos chamejantes. – Dei-te o dinheiro para o presente da minha mãe! – Apareceu aquela promoção de viagem, percebes? Novecentos euros, Algarve, tudo incluído… Se não fosse agora, perdia tudo. Maria sacou o telemóvel antes que Pedro pudesse impedir. Abriu as mensagens. Conversa com a agência de viagens, datas, valores, corações de Sofia agradecendo. «Mano, és o maior! Obrigadinha! Vou já sexta-feira!» Maria fitou Pedro. Ele quase se encolhia. Maria ligou à agência. Chamou, atendeu. – Boa tarde, agência “Horizonte”, Ana, em que posso ajudar? – Olá. Reserva em nome de Sofia Santos, Algarve, partida sexta-feira. Quero cancelar. – Desculpe, quem fala? – Sou titular do cartão utilizado, não autorizei este pagamento. Pedro avançou, mas Maria travou-o com um gesto. – Um momento, – respondeu a operadora. – Sim, localizei a reserva. Precisa passar no nosso escritório para tratarmos do reembolso. O dinheiro será devolvido em até dez dias úteis. – Obrigada, passar-se-ei amanhã. Desligou e devolveu o telemóvel ao marido. – Maria, vá lá… não sejas assim… Falamos? Já estava fora. Passou pela sala, onde toda a família fingia comer salada como se nada fosse. Aproximou-se da mãe, que segurava, perdida, o malfadado vale. – Vamos, mãe. Vamos comprar um presente a sério. Dona Fernanda não hesitou. Pegou no casaco, agarrou a mala e saiu atrás da filha, esquecendo os convidados. Na loja de eletrodomésticos, o cheiro era de aparelhos novos. O vendedor – rapaz jovem chamado Diogo – mostrou a diferença entre várias opções. – Este é o melhor, – Diogo indicou um fogão branco elegante. – Perfeito para bolos. Aquece uniformemente, tem grill, timer e convecção. Dona Fernanda percorreu o tampo com a mão. – É tão bonito, – murmurou. – Vamos levar, – afirmou Maria. – Conseguem entregar amanhã de manhã? – Temos horário livre das nove às doze. Trataram tudo em quinze minutos. Dona Fernanda ficou em silêncio até chegar à porta de casa; aí, tocou o braço da filha. – Mariazinha, obrigada minha querida. Só estou preocupada contigo. – Não te preocupes, mãe. – E o Pedro… vocês… Maria abraçou-a. – Vou resolver tudo. Não penses nisso hoje. Parabéns. A casa estava escura quando voltou. Pedro esperava no sofá, televisão desligada. – Temos de conversar, – começou ele, levantando-se. Maria ignorou-o. Foi ao quarto, abriu o armário, tirou as camisas dele e dobrou-as, colocando tudo na mala de viagem. – Que fazes? – Pedro saltou. – Maria, chega! Só queria ajudar a minha irmã, estava a acabar-se no trabalho! Era a única chance! Calças, t-shirts, meias. Maria seguiu, impávida. – Vais destruir o nosso casamento por causa de um fogão! És tu que vais ser o responsável! Parou e olhou Pedro. – Confiei-te o meu dinheiro, ganho com esforço. Pedi um presente para a minha mãe. E gastaste tudo na tua irmã! – Não foste tu que gastaste… foi só um pequeno favor… – Nem perguntaste! Decidiste por mim! E mentiste! Pedro avançou para abraçá-la, mas Maria afastou-se, segurando uma camisola. – Não me toques! – A Sofia estava mesmo mal, entende… – Vai-te embora com as tuas coisas. …Um mês depois, Maria estava sentada na cozinha renovada da Dona Fernanda. O fogão branco brilhava ao canto, o forno trabalhava a todo o vapor, e a casa enchia-se de aroma a pão-de-ló. – Nem imaginas, inscrevi-me num curso de pastelaria! – Fernanda sorria, radiante. – A vizinha Ana recomendou, tem lá um chefe francês! Maria provou um pedaço do bolo. O creme era magistral. – Sabe lindamente, mãe. Maravilhoso. …O divórcio foi célere, sem discussões. Pedro nunca percebeu porque é que Maria não “perdoou a brincadeira”. Sofia foi viajar com os seus próprios fundos – ou talvez nem tenha ido, mas isso já era indiferente. Maria observava a mãe, feliz e empenhada na cozinha nova. Lá fora caía o entardecer. Uma nova vida esperava – sem mentiras, sem traições, sem gente que vê o dinheiro dos outros e a confiança como bens descartáveis. Maria sorriu e pediu o segundo pedaço de bolo. Por que não?

Ó Tiago, preciso que me ajudes com o presente para a mãe.

Beatriz pousou o telemóvel em cima da mesa e virou-se para o marido, que estava estendido no sofá, com o comando da televisão dependurado na mão. Tiago mudava de canal devagar, os olhos colados ao ecrã, como quem espera que algo mude por magia.

Mas que presente? perguntou, sem tirar os olhos da TV.
Um fogão, daqueles bons. Daqui a duas semanas faz anos, já te esqueceste?

Tiago lá se dignou a encarar Beatriz. Foi um segundo de incerteza, logo varrido por aquele sorriso cansado de quem quer evitar problemas.

O antigo ainda funciona, não? Parece-me impecável.

Beatriz sentou-se no braço do sofá, ajeitando as pregas do robe cor de malva, como se o tecido pudesse alinhar as ideias.

Viste tu próprio, da última vez: o forno mal aquece, duas bocas mortas. A mãe está sempre a queixar-se… diz que os bolos já não saem como antes. Para ela, isto é mesmo importante. Sabes disso.

Dona Conceição era obcecada por pastéis e massas. Toda a casa cheirava a baunilha e canela, com tabuleiros de broas a arrefecer na varanda, e vizinhas a bater à porta só para beber um chazinho, certas de que nunca sairiam mãos a abanar. O fogão velho, comprado no tempo das escudos, parecia suspenso entre o mundo dos vivos e o dos objetos perdidos no tempo.

Está bem…, disse Tiago, tornando-se um pouco mais sério. Achas que faço o quê?
Escolhe um modelo decente. Tu percebes dessas máquinas, eu não tenho tempo para ir ver nada. Vais ao centro, vês as opções, tratas de tudo.

Beatriz puxa o porta-moedas e oferece-lhe um cartão reluzente, azul-escuro como o mar da Nazaré de inverno.

Já cá está o meu extra do trabalho: três mil e duzentos euros. Chega para um bom?

Tiago pega no cartão, roda-o entre os dedos. Faz um esgar resignado.

Chega à vontade. Não te preocupes, eu trato de tudo.

Beatriz assentiu, um gesto curto de confiança construída ao longo de seis anos de casamento. Tiago era mestre em negociar, arranjar promoções e bónus, sabia mexer-se Nisso, ninguém lhe tirava o chapéu.

E não deixes para o último dia. Quero garantir que chega a tempo.
Fica descansada, murmurou Tiago, metendo o cartão num bolso dos calções e voltando-se para a televisão.

Passou-se uma semana. Beatriz vinha de regresso da escola, entalada entre estranhos no autocarro apinhado, quando decide abrir a app do banco no telemóvel.

Movimento: 3 200 euros

Sorriu, só um instante. Tiago cumpriu. Uma quantia destas garantia um fogão dos bons, talvez já com grill, com temporizador, porta de correr tudo aquilo com que Dona Conceição sonhava. Ela podia finalmente fazer os seus napoleões sem o terror de ver o forno falhar no meio da receita.

Viu na mente o rosto da mãe ao receber o presente. As ruguinhas vão juntar-se nos olhos, um sorriso quase infantil vai apoderar-se dela, e logo a seguir ouvir-se-á o clássico Ó filhos, mas para quê gastar tanto dinheiro?! E já está a planear que bolo vai estrear primeiro.

Uma boa máquina é um investimento para décadas. Beatriz lembrava como a avó falava do seu Lisboa, que durou trinta anos sem avaria. Agora tudo é diferente, mas se não se poupar na qualidade, dura

O aniversário chegou num sábado, céu cinzento de Lisboa. Beatriz fazia um ramalhete na cozinha, embrulhava pequenas surpresas, enquanto Tiago vagueava pela casa, sempre a olhar o relógio.

Não te esqueças do envelope, avisou Beatriz, apertando as botas. Puseste lá os papéis do fogão?
Tudo pronto, está no bolso interior da jaqueta.

Chegaram a casa de Dona Conceição ao meio-dia. Cheiro a bolo quente por todo o T2, mesmo com a teimosia do fogão antigo ela lá se desenrascou. Parentes enchiam o hall, copos tilintavam, risos abafados espalhavam-se pela sala.

Beatriz abraçou a mãe com força.

Parabéns, mãezinha. É para ti.

Deu-lhe o envelope creme, sem nunca o abrir. Tiago organizou tudo, era só entregar.

Dona Conceição sorriu, num ar de ternura e surpresa.

Ó meninas, não sabem parar! Destapou com cuidado o envelope, um brilho de esperança nos olhos.

Beatriz olhou, enternecida. Uns segundos suspensos, e de repente a expressão da mãe mudou, de sorriso para confusão.

Isto o quê?

Beatriz aproximou-se, espreitou por cima do ombro.

Um vale de loja de cosméticos, no valor de cem euros.

Tiago! virou-se para ele, apanhando-o já quase na porta. Mas isto?
Eh, pá, há cremes lá ótimos deixei de lado o fogão…

O fogão?!

Tiago escapou para a varanda, fechando-se num impulso desconcertante.

Beatriz correu atrás dele. Abriu a porta com tal força que as janelas estremeceram.

Explica-me tudo. Agora!

Tiago encolheu-se contra o gradeamento.

Ó Bea, a Leonor anda estafada, precisava de descansar… Não consegui…

Descansar? Que Leonor? O olhar de Beatriz queimava. Eu dei-te dinheiro para a minha mãe!

Apareceu uma promoção de última hora. Três mil euros, férias no Algarve, tudo incluído Ia perder-se. Sabes como é.

Beatriz desembainhou o telemóvel do bolso de Tiago antes que ele se mexesse. Deslizou no ecrã e abriu o chat. Mensagens de uma agência de viagens, datas, montantes, emojis de corações enviados por Leonor.

Mano, és o melhor! Obrigada! Vou sexta-feira!!!

Ergueu os olhos para Tiago, que parecia agora encolher-se até ao chão.

Ligou para a agência, a voz tensa. Dois toques.

Boa tarde, Agência Horizonte, falo com a Margarida, em que posso ajudar?
Boa tarde. Reserva em nome de Leonor Vieira, Algarve, partida sexta. Quero cancelar.
Pode identificar-se?
Sou titular do cartão usado para pagar. O débito só foi feito por engano.

Tiago tentou intervir, mas Beatriz travou-o com um gesto seco.

Um momento, disse a funcionária. Já vi a reserva. Neste caso terá de vir ao escritório. O reembolso ocorre em dez dias úteis.

Obrigada, vou amanhã.

Desligou e atirou-lhe o telefone.

Bea, vá lá, não sejas exagerada. Podemos conversar

Mas Beatriz saiu. Passou pela sala, onde a família já fingia não ouvir, e abordou a mãe, que ainda agarrava o vale desgraçado.

Mãezinha, vamos. Vais ter o teu presente.

Dona Conceição não protestou. Vestiu o casaco, pegou na carteira e seguiu a filha, esquecendo todas as visitas.

Na loja de eletrodomésticos, cheiro a plástico novo, engenhocas a piscar. O funcionário, Pedro, sorria enquanto apresentava modelos.

Esta é a melhor, Pedro apontou para um fogão branco, elegante. No ponto para bolos. Aquecimento uniforme, temporizador, grill embutido, ventoinha.

Dona Conceição passou os dedos na superfície de porcelana.

Que coisa linda murmurou.

É este, disse Beatriz. Entregam amanhã de manhã?
Sim, das nove ao meio-dia.

Em quinze minutos, estava tudo resolvido. Dona Conceição não falou no caminho, só no patamar agarrou o braço da filha:

Beatrizinha, obrigada, filha. Mas fico preocupada contigo.
Não te preocupes, mãe.
Ele Tiago Vocês

Beatriz abraçou-a com força.

Eu vou resolver. Hoje é para ti. Parabéns.

Voltou para casa já noite cerrada. Tiago estava à espera, numa penumbra silenciosa.

Precisamos conversar tentou ele, levantando-se.

Beatriz passou ao lado, abriu o armário e começou metodicamente a pôr as roupas dele numa mala.

O que fazes? Bea, para! Só quis ajudar a minha irmã, ela estava a cair de cansaço, era a última oportunidade!

Calças, camisas, t-shirts, tudo empilhado.

Vais deitar tudo fora por um fogão? És tu que destróis a nossa família!

Beatriz parou, virou-se, olhos duros.

Confiei-te dinheiro do meu esforço. Era presente para a minha mãe. Gastaste tudo na tua irmã!
Não gastei tentou Tiago.
Nem perguntaste. Decidiste sozinho! E mentiste!

Tiago tentou aproximar-se, suplicante. Beatriz pegou no seu casaco como quem ergue um escudo.

Não te chegues!
A Leonor estava em baixo, percebes?
Vai-te embora.

Um mês depois, Beatriz estava sentada à mesa da cozinha de Dona Conceição. O fogão branco brilhava, o forno operava a todo vapor, enchendo tudo de aroma a pão-de-ló.

Olha, inscrevi-me em cursos de pastelaria! Dona Conceição radiante. A vizinha Goreti recomendou, é um chef francês de verdade!

Beatriz provou o bolo. O creme derretia na boca.

Está divino, mãe. Perfeito.

O divórcio foi rápido, limpo, sem dramas. Tiago nunca percebeu por que não o perdoou. Leonor foi, ou não foi ao Algarve, Beatriz não quis saber.

Só via a mãe, feliz e entregue à nova paixão, junto ao fogão novo na luz da tarde, num lar sem mentiras nem traições sem alguém que tratasse confiança e dinheiro como se fossem só traços de lápis num papel.

Beatriz sorriu e serviu-se de outra fatia de bolo. Porque não? No sonho, podia tudo.

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A cozinha estava permanentemente impregnada de cheiro a baunilha e canela, na varanda arrefeciam os pasteis de nata e os vizinhos vinham “beber um café”, certos de que nunca sairiam sem um mimo. O fogão antigo, comprado ainda nos tempos da outra senhora, estava nos seus últimos meses de vida. – Está bem, – Pedro esticou-se e sentou-se direito. – E o que é que precisas de mim? – Escolhe um modelo decente. Tu percebes destas coisas melhor que eu. Vai à loja, pede informações, trata da entrega. Eu não tenho tempo nenhum agora com o trabalho. Maria tirou do porta-moedas o cartão e estendeu ao marido. O plástico azul-escuro reluzia sob a luz do candeeiro. – Aqui está a minha gratificação, mais de mil euros. Chega para um fogão mesmo bom? Pedro ficou a olhar para o cartão. Os lábios mexeram-se ligeiramente. – Dá e sobra. Não te preocupes, trato de tudo. Maria acenou com a cabeça. Em cinco anos de casamento, habituou-se a confiar em Pedro para resolver questões práticas. Ele era mestre a negociar, descobria descontos, conseguia brindes. Nisso, ele era realmente bom. – Mas não te demores, está bem? Quero que o presente chegue a tempo da festa. – Faço isso. – Pedro enfiou o cartão no bolso dos calções de casa e voltou ao comando. Passou uma semana. Maria regressava do trabalho, apertada no elétrico, quando decidiu verificar o saldo no telemóvel. Os dedos deslizaram pelo ecrã, abrindo a aplicação do banco. Movimento: 1 000 euros debitados… Maria sorriu ao ver os números. O Pedro não falhou. Mil euros é dinheiro, certamente escolheu um modelo excelente, quem sabe até com grill e função timer, tudo o que a mãe sonhava. Dona Fernanda podia enfim fazer os seus famosos bolos-rainha sem receio de ficar com o forno a meio gás. Maria imaginou o rosto da mãe ao receber o presente. As ruguinhas a juntarem-se de alegria, os lábios a tremer de emoção, e, como sempre, Dona Fernanda diria: «Oh filha, não precisavas de tanto trabalho!» E já começaria a planear o bolo do próximo domingo. Um electrodoméstico de qualidade é um investimento para anos. Maria lembrava-se bem da avó a contar maravilhas do seu “Velox” que funcionara impecável durante trinta anos. Agora, os modelos modernos são diferentes, mas escolhendo bem, duram tanto quanto. …O aniversário foi num sábado. Maria correu a manhã toda a preparar o ramo de flores e os pequenos presentes que comprou para complementar o principal. Pedro andava de um lado para o outro, sempre a olhar para o relógio. – Não te esqueças do envelope – lembrou Maria, apertando as botas. – Puseste os papéis lá? – Está tudo lá, – disse ele, batendo no bolso do casaco. Chegaram à casa da Dona Fernanda ao meio-dia. Havia aroma de bolo acabado de sair do forno – mesmo com o fogão velho, ela conseguia um milagre. Os primos enchiam o corredor, brindes e gargalhadas repousavam na sala. Maria abraçou a mãe com força. – Parabéns, mãezinha. Isto é para ti. Entregou-lhe o envelope creme que Pedro lhe tinha dado. Nem olhou para o interior – confiava no marido, foi só entregar. Dona Fernanda iluminou-se. – Oh, filha, que surpresa! – Ela abriu delicadamente o envelope, os olhos já brilhavam de curiosidade. Maria observava-a, sorridente. Um segundo, outro. Até que o rosto de Fernanda ficou imóvel. O sorriso desvaneceu-se, dando lugar à perplexidade. – Mas… isto é…? Maria franziu a testa, foi espreitar por cima do ombro da mãe. Um vale de loja de cosmética. Três mil euros. Três. Mil. – Pedro – Maria virou-se para o marido, que já recuava discretamente para a porta. – O que é isto? – Vá lá, calma, – Pedro tentou sorrir. – O vale é para produtos muito bons, vai gostar… – E o fogão?! Silêncio. Pedro saiu depressa para a varanda, fechou a porta atrás de si. Maria foi atrás dele. Abriu a porta com força. – Explica-te, já! Pedro encostou-se ao gradeamento. – Olha, a minha irmã Sofia está de rastos, precisava mesmo de um descanso… E eu… não resisti… – Descanso? Que Sofia? – Maria aproximou-se, os olhos chamejantes. – Dei-te o dinheiro para o presente da minha mãe! – Apareceu aquela promoção de viagem, percebes? Novecentos euros, Algarve, tudo incluído… Se não fosse agora, perdia tudo. Maria sacou o telemóvel antes que Pedro pudesse impedir. Abriu as mensagens. Conversa com a agência de viagens, datas, valores, corações de Sofia agradecendo. «Mano, és o maior! Obrigadinha! Vou já sexta-feira!» Maria fitou Pedro. Ele quase se encolhia. Maria ligou à agência. Chamou, atendeu. – Boa tarde, agência “Horizonte”, Ana, em que posso ajudar? – Olá. Reserva em nome de Sofia Santos, Algarve, partida sexta-feira. Quero cancelar. – Desculpe, quem fala? – Sou titular do cartão utilizado, não autorizei este pagamento. Pedro avançou, mas Maria travou-o com um gesto. – Um momento, – respondeu a operadora. – Sim, localizei a reserva. Precisa passar no nosso escritório para tratarmos do reembolso. O dinheiro será devolvido em até dez dias úteis. – Obrigada, passar-se-ei amanhã. Desligou e devolveu o telemóvel ao marido. – Maria, vá lá… não sejas assim… Falamos? Já estava fora. Passou pela sala, onde toda a família fingia comer salada como se nada fosse. Aproximou-se da mãe, que segurava, perdida, o malfadado vale. – Vamos, mãe. Vamos comprar um presente a sério. Dona Fernanda não hesitou. Pegou no casaco, agarrou a mala e saiu atrás da filha, esquecendo os convidados. Na loja de eletrodomésticos, o cheiro era de aparelhos novos. O vendedor – rapaz jovem chamado Diogo – mostrou a diferença entre várias opções. – Este é o melhor, – Diogo indicou um fogão branco elegante. – Perfeito para bolos. Aquece uniformemente, tem grill, timer e convecção. Dona Fernanda percorreu o tampo com a mão. – É tão bonito, – murmurou. – Vamos levar, – afirmou Maria. – Conseguem entregar amanhã de manhã? – Temos horário livre das nove às doze. Trataram tudo em quinze minutos. Dona Fernanda ficou em silêncio até chegar à porta de casa; aí, tocou o braço da filha. – Mariazinha, obrigada minha querida. Só estou preocupada contigo. – Não te preocupes, mãe. – E o Pedro… vocês… Maria abraçou-a. – Vou resolver tudo. Não penses nisso hoje. Parabéns. A casa estava escura quando voltou. Pedro esperava no sofá, televisão desligada. – Temos de conversar, – começou ele, levantando-se. Maria ignorou-o. Foi ao quarto, abriu o armário, tirou as camisas dele e dobrou-as, colocando tudo na mala de viagem. – Que fazes? – Pedro saltou. – Maria, chega! Só queria ajudar a minha irmã, estava a acabar-se no trabalho! Era a única chance! Calças, t-shirts, meias. Maria seguiu, impávida. – Vais destruir o nosso casamento por causa de um fogão! És tu que vais ser o responsável! Parou e olhou Pedro. – Confiei-te o meu dinheiro, ganho com esforço. Pedi um presente para a minha mãe. E gastaste tudo na tua irmã! – Não foste tu que gastaste… foi só um pequeno favor… – Nem perguntaste! Decidiste por mim! E mentiste! Pedro avançou para abraçá-la, mas Maria afastou-se, segurando uma camisola. – Não me toques! – A Sofia estava mesmo mal, entende… – Vai-te embora com as tuas coisas. …Um mês depois, Maria estava sentada na cozinha renovada da Dona Fernanda. O fogão branco brilhava ao canto, o forno trabalhava a todo o vapor, e a casa enchia-se de aroma a pão-de-ló. – Nem imaginas, inscrevi-me num curso de pastelaria! – Fernanda sorria, radiante. – A vizinha Ana recomendou, tem lá um chefe francês! Maria provou um pedaço do bolo. O creme era magistral. – Sabe lindamente, mãe. Maravilhoso. …O divórcio foi célere, sem discussões. Pedro nunca percebeu porque é que Maria não “perdoou a brincadeira”. Sofia foi viajar com os seus próprios fundos – ou talvez nem tenha ido, mas isso já era indiferente. Maria observava a mãe, feliz e empenhada na cozinha nova. Lá fora caía o entardecer. Uma nova vida esperava – sem mentiras, sem traições, sem gente que vê o dinheiro dos outros e a confiança como bens descartáveis. Maria sorriu e pediu o segundo pedaço de bolo. Por que não?
Neisté stretnutie dvoch sŕdc v srdci Bratislavy