Tenho 25 anos e, há dois meses, vivo com a minha avó.
A minha tia a sua única filha ainda viva partiu de repente, tão inesperada como uma brisa estranha de verão que entra pela janela e nos deixa inquietos. Até então, a minha avó partilhava o dia a dia com ela, dividiam o mesmo teto, as mesmas rotinas, os silêncios que dançavam entre as duas. Eu era visita frequente, mas cada uma de nós tinha a sua própria maré. Tudo mudou quando a minha avó ficou sozinha na velha casa da Amadora, onde os relógios parecem andar ao contrário.
A perda, para mim, nunca foi fenômeno novo. A minha mãe morreu quando eu tinha 19. Desde aí, aprendi a conviver com o vazio um daqueles buracos que se tornam móveis em casa e com o qual tropeçamos todos os dias. Nunca conheci o meu pai. Não há segredo, não há sombra a pairar simplesmente não existia. E, quando a tia Laurinda partiu, percebi finalmente: ficámos só eu e a minha avó Beatriz.
Nos primeiros dias após o funeral, tudo era de papel. A minha avó não chorava sempre, mas a mágoa estava nas pequenas coisas levantava-se com lentidão de sonho, esquecia-se de apagar a luz, sentava-se à janela, olhando para o vazio da rua, onde só passavam gatos e varredores. Disse a mim mesma que ficaria uns dias. Esses dias esticaram-se como um novelo interminável. E numa tarde tão absurda como qualquer outra, ao arrumar as minhas roupas no armário, percebi que já não tencionava sair.
Desde então, parecem chover opiniões. Sempre há quem opine.
Uns dizem-me que estou certa como deixar uma senhora idosa, recém-perdida de uma filha, entregue à solidão da casa? Outros murmuram que estou a desperdiçar a juventude, que aos 25 deveria fugir para Lisboa, explorar novos sabores de pastéis de nata, sair para bailaricos, encontrar um namorado, aproveitar a vida. Perguntam-me se não me pesa, se não sinto que estou presa, se não tenho medo de mais tarde descobrir que sou eu quem ficou só.
Mas não é assim que vejo o meu espelho.
Trabalho, guardo euros em envelopes escondidos na gaveta, trato do lar, levo a avó às consultas no Centro de Saúde, cozinhamos juntas arroz de marisco, à noite vemos telenovelas ou ouvimos o fado a escorrer da rádio. Não sinto que abdico de nada. Sinto que escolho. No momento, não há namorado, não penso em filhos, nem em partir dali para Paris ou Rio de Janeiro. Quero só estabilidade, presença, não repetir a velha história de abandono, da qual já conheço todos os corredores.
A minha avó é tudo o que resta da família próxima. Não tenho mãe, nem tia, nem pai. E não desejo que ela passe os dias que lhe sobram a pensar que é um peso, que incomoda alguém. Não quero que jante sozinha, nem adormeça com a certeza de não ter ninguém no outro quarto.
Talvez, um dia, a vida me leve por outros caminhos. Talvez viaje, me apaixone, talvez me vá embora. Mas hoje, estranhamente, este é o meu lugar. Não por dever. Não por pena. Mas porque amo a minha avó, e porque ao seu lado aprendi a amar-me a mim também.
E vocês, o que fariam neste sonho onde as casas parecem sussurrar e os relógios caminham ao contrário?







