Oksana chegou para a entrevista de emprego e ficou paralisada ao ver quem estava sentado no gabinete do diretor

Aurora entrou no edifício, flutuando entre corredores iluminados por um luar impossível, e estacou diante da porta do diretor, onde o silêncio fazia eco. Já se passavam vinte anos desde que Aurora Silva carimbava papéis em secretarias de Lisboa, atendia telefonemas que pareciam vozes debaixo dágua, sorria a visitantes tão descabidos como pardais na praia e preparava cafés com tanta mestria que, por pouco, não foi promovida a rainha do bar do tribunal. Mesmo assim, foi apanhada num corte de pessoal, como se a vida tivesse dado uma gargalhada surda.

Agora, pela primeira vez em duas décadas, Aurora via-se numa entrevista de emprego.

De manhã, conversava com o próprio reflexo no espelho do corredor fato discreto, cabelo preso com dignidade, o rosto havia-se tornado sério como a margem do Tejo. Ninguém esconde quarenta e seis anos, mas ela sustentava-os com uma tranquilidade que parecia emprestada de alguém que sabia segredos doces. Não havia motivo para nervosismo, dizia-se a si mesma: só outra secretária, outro telefone, outras perguntas ecoando sem resposta.

A amiga Amélia acompanhou-a até ao elevador, lançando palavras que caíam como pétalas:

Porta-te com firmeza. És profissional. Vinte anos de experiência não se jogam à sorte.

Vinte anos, suspirou Aurora. E mesmo assim, para a rua.

Isso é sorte disfarçada, olha a experiência!

Amélia, vai-te, ou chegas atrasada ao serviço.

O escritório ficava numa rua escondida de Alfama, num prédio de quatro andares com colunas que pareciam feitas de açúcar, portas de vidro fosco e um segurança de ar blasé. Aurora endireitou os ombros, respirou fundo, cruzou o átrio como se estivesse a atravessar um sonho.

A rececionista, com olhos de areia, apontou para o terceiro andar:

O Diretor já a espera. Sala trezentos e dois.

Subiu degraus macios, o corredor vibrando como uma corda de guitarra, até bater à porta.

Quando entrou, o tempo encolheu-se e Aurora ficou estática. Sentado atrás da secretária, olhando para um cacto minúsculo como um oráculo, estava Gustavo.

O seu ex-marido. Aquele que ela ensinou a trinchar frango aos domingos, que ela ajudava a preparar apontamentos para exames, o mesmo Gustavo a quem perdoou demais, a quem depois quis esquecer e não conseguiu durante três anos de noites insone.

Ficaram a contemplar-se como se cada um sonhasse com o outro. O momento alongou-se até se tornar viscoso, dessas pausas em que se sai ou se fica para sempre. Não havia terceira hipótese.

A vida tem destas partidas, pensou Aurora, um espanto calmo a boiar na cabeça.

O Gustavo parecia bem, e isso doía mais do que se ele estivesse a cair aos pedaços.

Aurora imaginara tantas vezes encontrá-lo cabisbaixo, vítima do tempo, enrugado, talvez barrigudo. Afinal, após oito anos, seria natural alguma ruina invisível. Mas não. Gustavo estava ali, sentado em fato elegante, cabelo cortado, com olheiras só de leve como quem negociou a vergonha na banca.

Olá, Aurora. Era só Aurora, sem formalismo, como se ontem ainda partilhassem arroz de polvo.

Olá, Gustavo.

Ele apontou para a cadeira. Ela sentou-se com a mala no colo, como se fosse um escudo.

Tenho aqui o teu currículo disse, acenando para a mesa. Já li tudo.

Muito bem.

Vinte anos de secretariado. Registo impressionante.

Sim.

Gustavo falava baixo, com voz de profissional a condenar o próprio passado. Não olhava para Aurora; o olhar perdia-se ao lado da orelha. Como quem vê tudo, disfarçando.

Se queres teatro, vamos ao teatro pensou Aurora. E alinhou.

Fala-me do teu último emprego, pediu Gustavo.

Aurora relatou de forma serena: funções, rotinas, softwares, chefia. Mas por dentro soava-lhe um outro coro: este, este é o mesmo homem que te largou por aquela Rita do financeiro, e tu ainda ficaste a chorar mais que a chuva na ribeira.

Com que programas trabalhavas? quis saber ele.

Ela listou-os. E pensava: este é o homem por quem andaste meses sem comer pastéis de nata, sem dormir uma noite inteira sem sonhos tristes.

Tinhas reuniões com parceiros comerciais ao mais alto nível?

Sim, tratava de toda a documentação e acompanhava os chefes nos contactos decisivos.

É este o homem. O mesmo, sentado desse lado. Com o cacto, símbolo involuntário de tudo.

Gustavo assentiu, rabiscando algo Aurora nem soube se de verdade ou só para ocupar as mãos. Achava irónico, cruel até, esse reencontro. Lá fora, as folhas deslizavam pelas pedras da rua, mas dentro da sala rodavam oito anos de silêncios, um divórcio como um incêndio, discussões por propriedades, noites a telefonar à Amélia sem conseguir falar.

E ali, na frente dela, Gustavo, já pronto para outro café.

Porque saíste do emprego anterior? Ele parecia só gestor agora.

Eliminaram o departamento. Fui parte do corte.

Entendi. Pausa. Sabias lidar diretamente com o conselho de administração?

Sim, era comunicação direta.

E guardar confidências?

Sempre.

Gustavo fixou os olhos nela, por uns segundos que doeram. Aurora não descolou o olhar; directa, limpa, sem mágoa visível.

Bem ele pousou a caneta. Gostava de continuar esta conversa noutro tom. Aceitas um café?

Aurora adivinhou o risco, sentiu uma tensão nova. Algo ia começar, diferente agora, e era preciso estar desperta.

Aceito, respondeu sem pressa.

Gustavo levantou-se, foi até à máquina junto à janela. Pelas costas, era apenas mais um vulto. Aurora pensou: Ele vai falar. Dizer qualquer coisa que talvez não queira ouvir.

A máquina bufou, vaporando.

Estás ainda mais bonita, disse ele, ainda de costas, mudando para um tu antigo.

Aurora ficou em silêncio.

Ele passou-lhe a chávena, voltou ao lugar.

A sério.

Aurora olhou para o café, depois para ele.

Obrigada, devolveu, neutra.

Gustavo hesitou.

Aurora, preciso de dizer isto, não como diretor, mas como alguém que te conhece.

Ai, ai, pensou Aurora. Como um comandante de avião que aparece na cabine com ar grave, prestes a anunciar algo que não se espera ouvir mas importa.

Fico contente por teres escolhido este lugar, admitiu Gustavo.

Pura sorte, cortou Aurora.

Talvez. Semicerrou um sorriso. Mas preciso mesmo de alguém como tu.

Pois.

Mas gostava Gustavo parecia tempestuoso por dentro, as palavras escolhidas a dedo de clareza total. Nada de fantasmas, começarmos do zero. Uma página limpa.

Ali estava: página limpa. Oito anos, folhas em branco.

Aurora pousou a chávena.

Página limpa. É isto: todos os tribunais, lágrimas, noites sem pão, subitamente varridos de uma folha.

Observou-o profundamente, como quem pesa uma sombra antes de atravessá-la.

Gustavo, então queres que aceite o trabalho esquecendo tudo o que ficou para trás?

Sobrolho dele estremeceu.

Só quero começar outra vez. É diferente.

Não é. É igual.

Silêncio. O cacto nunca pareceu tão seguro de si.

Vês, continuou Aurora, não vou remexer no passado. Não quero. Nem tempo me sobra. Mas também não finjo que nada aconteceu. Está aqui. É minha vida. Não gosto de virar páginas quando me apetece rasgá-las.

Gustavo ficou imóvel.

Vim para uma entrevista. Não para um festival de memórias. Se procuras uma gestora de secretariado com vinte anos de experiência, conversamos. Se queres alguém que finge que oito anos não existiram, arranja outra.

Bebeu um gole. O café era bom percebeu esse pormenor com uma satisfação que não dependia de mais nada.

Gustavo permaneceu em silêncio, admirando-a com respeito. Aurora reconheceu esse olhar logo.

Mudaste, notou ele.

Mudámos todos. Oito anos passam por dentro.

Gustavo aproximou-se da janela, espreitou a rua. Voltou-se, voz mais baixa:

Aurora sei que errei. Não quero fingir que não te magoei. Não retiro nada disso. E és tu que tens razão.

Nunca esperara ouvir isto, sequer em sonhos. Imaginava mil maneiras diferentes de reencontro, sempre teatrais. Mas genuína admissão de culpa? Impossível.

É bom ouvir isso respondeu ela, depois de pausa. Mesmo tarde.

Pois tarde.

O silêncio já era outro. Tranquilo, quase remissão.

Em relação ao cargo, disse Gustavo, quero propor-te a chefia do departamento administrativo. É acima de secretariado. Condições dignas. Decide tu.

Aurora refletiu.

Preciso pensar.

Claro.

Ela ergueu-se, agarrou na bolsa. Gustavo também se levantou, finalmente longe da fachada de chefe.

Aurora, chamou quando ela já ia sair.

Virou-se.

Obrigado por não saíres logo quando me viste.

Aurora sorriu de leve.

Nem eu pensava ficar.

No corredor, Aurora parou por uns instantes diante da porta. Lá fora, Amélia esperava com um café do quiosque. Leu-lhe tudo na cara:

Então?

Ofereceu-me um cargo.

Bom cargo?

Chefe do administrativo.

Chiça Amélia piscou. Quem é o diretor?

O Gustavo.

Amélia mereceu um silêncio abismal.

O Gustavo?! O teu Gustavo?!

O ex-Gustavo, esclareceu Aurora.

E tu?

Disse que pensava no caso.

Pegou o copo, bebeu um gole aquele sabor matinal, menos requintado, mas mais caseiro.

Caminharam pela rua, folhas secas rangendo, outono a soprar meia-luz, só para iluminar, não aquecer.

Agora, o rumo é meu. Só meu, sussurrou Aurora. E sorriu, finalmente.

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Oksana chegou para a entrevista de emprego e ficou paralisada ao ver quem estava sentado no gabinete do diretor
Nunca imaginei que o meu maior desafio não seria a pobreza, nem o trabalho árduo, mas sim encontrar o meu lugar numa família portuguesa que não era a minha.