Os familiares do meu namorado são bastante peculiares. Posso gabar-me perante os outros de que nunca tentaram interferir nos assuntos da nossa família e sempre me trataram como alguém deles, o que valorizo imenso. No entanto, tenho também motivos para me queixar, pois acreditam firmemente que cada pessoa deve conquistar tudo sozinha, mesmo sendo abastados e tendo herdado bens valiosos dos seus antepassados. Compreendo a importância da autonomia, mas não consigo deixar de pensar que podiam apoiar-nos um pouco, considerando que agora somos uma família.
Eles possuem mais dois apartamentos em Lisboa recentemente renovados, mas não os ocupam. Quando demos a entender que seria bom viver lá, fizeram-se de desentendidos e ignoraram-nos. Por isso, nós, como família, somos obrigados a mudar constantemente de uma casa arrendada para outra. Os meus pais vivem no interior, em aldeias pequenas, e não têm possibilidade de nos ajudar financeiramente. É quase impossível pouparmos para a nossa própria casa, dado o nosso contexto económico atual. O nosso salário mal cobre a renda e as necessidades mais básicas; não sobra praticamente nada para poupanças ou lazer.
Já tentei de forma desesperada transmitir à minha sogra que este constante ir e vir afeta muito a estabilidade dos nossos filhos, além das dificuldades financeiras. Mas as respostas dela são sempre decepcionantes. Acusou-nos de termos filhos demasiado cedo e assegurou que pessoas responsáveis colocam sempre o património em primeiro lugar. Fiquei magoada com esta postura, ao ouvir a forma como minimiza as nossas preocupações e nos culpa pela situação difícil em que vivemos.
Fico dividida entre o desejo de não quebrar a relação com eles e a constatação de que, na realidade, parecem valorizar mais os seus bens do que o bem-estar dos próprios netos. Por vezes ajudam cuidando das crianças, mas não sei como manter uma relação saudável com eles para o futuro. Está claro que preferem o seu conforto ao apoio à família do filho.
Apesar de tudo, sei que são idosos e em algum momento poderão precisar do nosso apoio. Talvez aí percebam as dificuldades que enfrentamos e venham procurar-nos. Até lá, não tenho certeza de como lidar com esta situação delicada, oscilando entre querer manter a harmonia familiar e a tristeza perante a indiferença deles para com os netos.






